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E o vinagre virou vinho

Impedido de vender no Brasil o melhor aceto balsâmico, empresário decide importar espumantes, brancos e tintos de alta qualidade. Só da Itália

E o vinagre virou vinho

Paraju é sinônimo de Maçaranduba, madeira resistente a pragas e à ação do tempo. É também um distrito do de Domingos Martins, no Espírito Santo. O empresário paulista Paulo Nogueira Júnior não sabia de nada disso quando escolheu Paraju, três sílabas fazem parte de seu nome, para batizar uma importadora de vinhos que se dedica exclusivamente a rótulos italianos de alta gama. Além do nome incomum para o negócio em que atua, a importadora tem uma origem peculiar. Ela não nasceu em função do vinho.

Achado: Paulo Nogueira Jr. e o Arcaica, um de seus rótulos exclusivos: só 17 vinícolas

O dono exportava álcool para uso industrial e farmacêutico para a Europa quando decidiu trazer para o Brasil a versão mais sofisticada do aceto balsâmico da Reggio Emilia. O condimento precisa ser envelhecido por no mínimo 10 anos para receber certificação — e seu uso gastronômico se dá em pequenas gotas. “Embora eu tenha laudos de laboratórios no Brasil que analisaram e aprovaram os produtos, não consegui liberá-los para venda no mercado nacional”, diz Nogueira, com indisfarçável frustração.

LARANJA Contrariando os princípios da química, ele transformou o vinagre em vinho. Ou melhor, em grandes vinhos de pequenos produtores. “Comecei trazendo espumantes e fui conhecendo vinícolas. É uma atividade bastante prazerosa”, garante. Apenas dois restaurantes de São Paulo oferecem seus rótulos: o luxuoso Tangará e a Osteria del Pettirosso. O portfólio da Paraju, ainda em formação, se destaca pela excelência das escolhas, feitas com a curadoria do bolonhês Alessandro Moretti , da Associazione Italiana Sommelier e que foi responsável da adega do Eataly São Paulo antes de assumir o cargo de especialista em vinhos da Paraju.

Riserva: Chianti sem conservantes envelhece por 30 meses em madeira

Entre os achados da dupla estão preciosidades como o Arcaica (R$ 367,47), um impressionante vinho laranja natural, elaborado por Paolo Francesconi na Emilia Romagna. Ou o ainda mais surpreendente Chanti Classico DOCG Riserva, orgânico da vinícola toscana Quercia Al Poggio, que redefiniu o Chianti ao adotar as normas da agricultura natural em seus vinhedos da variedade Sangiovese. O Riserva fica 30 meses em barricas de carvalho de 500 litros e meio ano maturando na garrafa. O preço para o consumidor final é R$ 463,38. Caro? “Buscamos alta qualidade a preço justo, mas não vinhos baratos”, diz Moretti.

Com 80 rótulos, de 17 produtores, a empresa se orgulha de ostentar vinhos merecedores dos cobiçados “3 bicchieri” – a cotação máxima do guia italiano Gambero Rosso. Por dar atenção especial aos orgânicos, biodionâmicos e naturais, nos quais o uso do conservante dióxido de enxofre é quase nulo, Nogueira Jr. e Moretti sabem que têm nas mãos produtos delicados, que exigem cuidados especiais no transporte e armazenamento. Para garantir a longevidade dos vinhos que importa (ainda que os naturais sejam menos de 10% do total), a Paraju é das poucas no País a manter seu estoque em um depósito refrigerado. Uma garantia para que não se tornem vinagre antes do tempo.