Negócios

“É difícil uma empresa se manter viva sob suspeita”

Antes de começar a entrevista com a DINHEIRO, o empresário Joesley Batista, presidente da holding J&F, controladora da empresa de alimentos JBS, chama o técnico de informática. Manda o funcionário bloquear spams que chegam à caixa postal de seu celular. “Quando eu enviar e-mail escrito FB quer dizer favor bloquear”, diz ele. “Para a empresa inteira”. Acostumado a dar ordens a 150 mil funcionários espalhados pelo mundo, esse goiano de Anápolis que comanda o terceiro maior grupo empresarial do País não foge de polêmicas. A mais recente foi a tentativa de compra da Delta, a enroladíssima construtora do empresário Fernando Cavendish, pivô da CPI do Cachoeira, da qual desistiu no início de junho. A despeito de o negócio não ter prosperado, Batista mantém os planos de entrar na área. Ele diz que a holding J&F estará pronta para abrir o capital a partir do ano que vem. E rebate as críticas sobre a influência do BNDES na transformação do abatedouro de seu pai na maior empresa de proteína animal do mundo.



 

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“Nunca me ofereceram coisa nenhuma nem disseram que fui escolhido”

 



DINHEIRO – Por que a J&F desistiu de comprar a Delta? 

Joesley Batista – A Delta é uma empresa grande, importante e tem muitos méritos. Mas está passando por uma crise de confiança. Acreditávamos que, com a nossa entrada, existiria uma chance de ter uma solução rápida para essa situação. Isso realmente aconteceu, os bancos inicialmente deram um voto de confiança à empresa. Mas a coisa foi se arrastando, as notícias não paravam e a cada hora surgia mais uma história. É muito difícil para uma empresa se manter viva muito tempo sob suspeita. Quando entramos na Delta, ela era coadjuvante de uma CPI focada na região de Goiás, que significava menos de 10% de sua operação. Com a repercussão na mídia, a Delta envolveu-se ainda mais nas investigações. Seria muito difícil recuperar essa empresa.

 

O grupo encontrou algum problema sério e por isso desistiu?

Não deu nem tempo, a auditoria trabalhou apenas uma semana. 

 

A J&F permanece interessada em investir em infraestrutura?

Sim. O executivo contratado para a Delta, Humberto Junqueira de Farias, está aqui comigo avaliando as aquisições. Continuamos examinando  várias oportunidades para todas as empresas do grupo (JBS, Eldorado, Flora, Banco Original e Vigor). Estamos também avaliando construtoras e uma empresa de infraestrutura. Não temos como meta fazer um negócio nessa área, neste ano. Afinal, faz dois anos que eu estou olhando esse setor. A Delta é a quarta empresa que analisamos. Não que eu precise fazer nada, mas agora achamos que há uma oportunidade para investir nessa área. 

 

Em que outras áreas, a J&F está avaliando negócios?

Há  oportunidades  para o setor lácteo, outra para a JBS, infraestrutura e algumas de higiene e limpeza para a Flora. Só não estamos olhando bancos. 

 

Por que o J&F ficou marcado como um grupo que tem o apoio do governo? Toda vez que sai um negócio sempre é lembrado que o grupo recebeu muito dinheiro do BNDES. 

Eu acho isso de uma injustiça atroz. O BNDES é um banco nacional de desenvolvimento e a BNDESPar existe há anos e é sócia de 560 empresas. A J&F e a JBS levantaram cinco vezes mais capital no mercado do que com o BNDES. Não sei se é porque fomos os primeiros, porque somos a vanguarda. O BNDES detém 30%  do capital da JBS e não tem participação no banco Original, nem na Flora, nem na Eldorado Celulose. Ele financia o projeto de celulose da Eldorado. Mas o BNDES tem um departamento de papel e celulose há 40 anos. Não fui eu que criei. Ele financiou a Aracruz e todas as empresas que existem nessa área. A Suzano está montando uma fábrica idêntica à nossa, que também está recebendo financiamento. Por que ninguém fala dela? Em qualquer lugar no planeta, um empresário que está investindo R$ 6,5 bilhões no Estado de Mato Grosso do Sul, cujo orçamento é de R$ 6 bilhões, seria recebido pelo Presidente da República de seis em seis meses. E parece que eu estou fazendo uma coisa errada. Quantas empresas têm um projeto de investimento de R$ 6,5 bilhões, no País? E o pessoal diz que é porque o BNDES está financiando, como se não tivesse dinheiro próprio. Dos R$ 6,5 bilhões, o BNDES está financiando R$ 1,9 bilhão, nós entramos com R$ 2 bilhões além do crédito das agências internacionais.


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Humberto Farias: o executivo contratado para comandar a Delta agora está

na J&F avaliando mais de dez aquisições.

 

Na área de carnes, o JBS não foi o eleito pelo governo para tornar-se um grupo internacional? 

Como eleitos? O BNDES comprou ações de quatro empresas do setor, talvez dez tenham ido pedir. Uma das quatro fomos nós. Se nós tivéssemos pego  esse dinheiro e ido para a praia, é uma coisa. Nós nos transformamos na maior empresa de proteína animal do mundo. Eu fui para Dallas por dois anos para negociar a compra da Swift. Quantas empresas brasileiras são líderes mundiais? Não conheço muitas. O mais curioso é que, no mundo inteiro, isso é motivo de admiração. Nunca ninguém veio aqui me oferecer coisíssima nenhuma e nunca ninguém me elegeu ou me disseram que eu fui o escolhido.

 

A J&F tem planos de abrir o capital?

Temos uma vontade de que a J&F seja uma holding de investimentos em empresas. Ela será um veículo de investimento nas aptidões brasileiras, em empresas importantes que estão passando por momentos difíceis, onde podemos fazer diferença seja na estrutura de capital, seja no reforço da gestão, seja pela nossa capilaridade mundial. Caberá, em algum momento, trazer sócios para a holding,  para aumentar a capacidade de investimento. O ano passado foi o ano de estruturar a holding. Já 2012 está sendo o de estruturar e dar independência a cada empresa controlada. Daí para a frente,  estaremos prontos para trazer sócios e abrir o capital. 

 

Como o sr. está vendo a economia e o cenário para investimentos no Brasil?

Claro que existe uma crise enorme no mundo. Ela não é pequena e é bastante séria. A Europa está com problemas graves. O Brasil, na nossa avaliação, ainda é de longe a melhor opção de investimento, comparado a qualquer um dos países dos Brics. Acho que houve algumas épocas de euforia demasiada, mas continuo achando que o Brasil está muito bem. De vez em quando eu vejo um pessimismo demasiado também. Mas nosso fundamentos são muito bons. É um País que cresce, com desemprego baixo, dívida pública absolutamente equacionada, em tamanho e perfil. O juro está em queda e a inflação também está totalmente sob controle. A infraestrutura vai ser construída, o País tem um pré-sal, uma Olimpíada e uma Copa. Nada mudou. 

 

As medidas do governo são suficientes para enfrentar essa crise? 

O governo já teve de enfrentar inflação, câmbio e até o FMI, no passado. Hoje, o desafio é do crescimento. E não se vence esse desafio com a mesma ferramenta que se enfrentou outras crises. Só que as pessoas imaginam que é preciso usar o mesmo remédio para doenças diferentes. Um monte de gente criticou quando o Banco Central inesperadamente começou a derrubar o juro. Eu me surpreendi porque a vida inteira eu ouvi críticas sobre o juro alto. Deveríamos estar aplaudindo o governo. Agora, a inflação está baixíssima e o crescimento não está robusto. O juro deveria ter caído ainda mais. Não estou defendendo o governo, sou um observador.

 

Como o sr. avalia o governo Dilma?

O governo Dilma está ótimo. O risco-país está no lugar e os juros estão caindo. Me parece que está tudo bem. 

 

O crescimento não está muito baixo? 

E se o BC não tivesse baixado os juros? Será que poderíamos estar encolhendo 3%? O governo baixou juro, imposto e crédito e reduziu os spreads bancários para melhorar o crescimento. Eu viajo pela Europa, pelo mundo inteiro, o Brasil está um paraíso. 

 

A JBS é a empresa mais internacionalizada do País. Hoje o seu foco de investimentos é o Brasil? 

Hoje, sim. Há cinco anos, estávamos investindo nos Estados Unidos, porque estava muito barato comprar empresas lá. Atualmente, achamos que as melhores oportunidades estão no Brasil. 


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