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E agora, José?

A volta do patriarca da família Batista ao comando da JBS desperta dúvidas no mercado e intensifica a guerra com o BNDES

Durante a última década, quando a JBS consolidou a sua ascensão, os irmãos Joesley e Wesley Batista se acostumaram a ficar sob os holofotes. Volta e meia, a dupla era destacada por sua estratégia agressiva e ousada, capaz de transformar um frigorífico regional na maior processadora de proteína animal do mundo. Em boa parte dos relatos de mercado sobre essa trajetória, um personagem surgia como coadjuvante: o patriarca do clã, José Batista Sobrinho. Natural de Alfenas (MG), Zé Mineiro, como ficou conhecido, mudou-se ainda menino para Anápolis.

Na cidade do interior de Goiás, já adulto, ele fundou a Casa de Carnes Mineira, em 1953. O pequeno açougue cresceu ao vender carne para os operários contratados para construir Brasília e deu origem à Friboi que, anos mais tarde, seria rebatizada com as iniciais do nome do empresário e ganharia o mundo. “A história não é só hoje. Tem muita coisa para trás e eu quero que isso sirva de exemplo para todos”, afirmou José Batista Sobrinho em uma série de vídeos institucionais divulgada em 2014, na qual a companhia resgatava suas origens. “Eu tinha garra. Como estudei pouco, era o que eu podia oferecer. Garra, pontualidade e determinação.”

Se esses traços da personalidade de José Batista Sobrinho foram fundamentais no início desse enredo, eles serão ainda mais importantes no roteiro da JBS para o futuro. O empresário acaba de retornar à presidência executiva da companhia, função que deixou de exercer ainda na década de 1980, quando foi substituído pelo filho mais velho, José Batista Júnior, mais conhecido como Júnior Friboi. “Fico orgulhoso de reassumir a empresa que fundei”, afirmou o empresário em comunicado divulgado após o anúncio. “Tenho muita confiança no desempenho da nossa liderança, em todos os nossos gestores e nos nossos 235 mil colaboradores.” Aos 84 anos, ele é um dos bilionários mais idosos a comandar uma megacorporação no mundo.

A nomeação acontece em um dos momentos mais delicados da empresa, envolvida em uma série de escândalos. Assim como nos bons tempos, os dois integrantes mais famosos da família Batista são os protagonistas desse contexto turbulento. Na manhã de 13 de setembro, Wesley, que presidia a JBS desde 2011, foi preso e encaminhado à sede da Polícia Federal, em São Paulo. Joesley, que já estava detido em Brasília, juntou-se ao irmão dois dias depois. Eles são acusados de usar informações privilegiadas em transações no mercado financeiro. Até o fechamento desta edição, todos os pedidos de habeas corpus haviam sido negados pela Justiça. E, na quinta-feira 21, a dupla foi indiciada nos desdobramentos da investigação.

Fogo cruzado: Paulo Rabello de Castro, presidente do BNDES, ressaltou que o banco não desistirá de trocar o comando da JBS

 

Eleito por decisão unânime do Conselho de Administração da JBS, em reunião realizada na noite do sábado 6, José Batista Sobrinho não figurava, a princípio, entre os potenciais candidatos. O processo, de fato, expôs a ausência de um plano de sucessão na companhia. A primeira opção era o retorno de Wesley ao cargo. Essa alternativa perdeu força à medida que crescia a indefinição sobre o tempo que ele permaneceria atrás das grades. Nesse intervalo, Wesley Batista Filho, que comanda a divisão americana de carne bovina do grupo, despontou como um dos favoritos. “Era um nome forte e que foi colocado na mesa”, diz uma fonte próxima à empresa. A sugestão, porém, encontrou a resistência de bancos e fundos de investimento.

A percepção foi de que o jovem ainda não tem experiência para liderar a JBS, especialmente nessa fase conturbada. A solução encontrada pela família foi nomear o patriarca e, ao mesmo tempo, anunciar um trio de executivos para apoiá-lo nessa empreitada. Além de Wesley Batista Filho, que vai liderar os negócios na América do Sul, esse time é formado por André Nogueira, presidente da JBS USA, e por Gilberto Tomazoni, que será o diretor global de operações, cargo criado depois do anúncio. “A família claramente marcou posição e deu o recado que pretende seguir dando as cartas na companhia”, diz uma fonte próxima à empresa. “E, ao mesmo tempo, colocou um time de gestão qualificado, liderado pelo Tomazoni, que era o nome que boa parte do mercado queria.”

Se a intenção era acalmar os ânimos, a mensagem parece não ter surtido efeito. Ao contrário. O anúncio acirrou  a guerra com o Banco de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), dono de uma participação de 21,32% na JBS. A família Batista detém 42,16% da operação. O banco vinha defendendo a saída de Wesley da presidência e a apuração dos prejuízos causados à companhia pelos executivos envolvidos com corrupção. “Vejo malandragem no que foi feito. Uma reunião desse tipo e para resolver essa grandeza não se convoca de uma hora para outra”, disse Paulo Rabello de Castro, presidente do BNDES, em entrevista à Agência Reuters. Ele afirmou ainda que o banco não irá desistir de trocar o comando da empresa.

Depois de divulgar uma nota ressaltando que agiu de acordo com a lei e o Estatuto Social da JBS, a empresa aqueceu ainda mais esse caldeirão. Em e-mail enviado a Rabello de Castro, a companhia afirmou que poderá tomar medidas legais contra o BNDES, sob a alegação de que o executivo poderia ter cometido crimes de manipulação de mercado e abuso de minoria. “O comportamento, anteriormente descrito, pode configurar violação ao artigo 115 da Lei 6.404/1976, que impõe a todos os acionistas, inclusive não-controladores, o dever de agir no interesse da companhia, sendo responsáveis pelos danos que lhe forem causados”, escreveu a JBS. A resposta do mercado foi negativa. As ações da JBS haviam acumulado uma alta de 9,5% nos três pregões que sucederam a prisão de Wesley Batista.

Em contrapartida, na semana passada, depois do anúncio de Zé Mineiro, os papéis da empresa acumularam uma baixa de 6,9%, até quinta-feira 21. A perda de valor de mercado, no período, foi de R$ 1,6 bilhão. Para analistas consultados pela DINHEIRO, é difícil avaliar se o recuo foi um reflexo da nomeação de José Batista Sobrinho, das declarações de Paulo Rabello de Castro ou da junção dos dois fatores.  “Com o grau de incertezas sobre a JBS, a ação da empresa virou um cassino, uma jogatina”, afirma Adeodato Volpi Netto, estrategista-chefe da Eleven Financial. “Hoje, é um papel de alta volatilidade e de aposta, não de investidor.” Nesse verdadeiro campo minado, a única certeza é que José Batista Sobrinho não terá vida fácil. Além do conflito com o BNDES, o cenário inclui outros desafios, como os riscos relacionados ao acordo de leniência da J&F e a CPMI que investiga irregularidades na holding e na JBS.

A função que o empresário irá exercer e a capacidade do modelo de gestão apoiado pelo trio de executivos para reverter a imagem e a situação da companhia é alvo de questionamentos. “Ele terá um papel limitado”, diz Alcides Torres, analista da Scot Consultoria. “Foi uma solução caseira. Ele é uma ponte para que, de fato, os filhos sigam determinando os rumos do negócio.” Renato Santos, sócio da S2 Consultoria, entende que a melhor sinalização para o mercado passaria não apenas pelo afastamento da família, mas também, pela troca de todo o corpo de executivos. “É um engano pensar que só a família errou. Quem ficou ao lado deles, no mínimo, foi conivente”, afirma. “Sem uma mudança radical, a JBS não vai conseguir virar a página.” O novo desenho não traz tantas alterações à rotina de Zé Mineiro. Conselheiro da companhia há mais de dez anos, ele batia cartão diariamente nos escritórios da JBS, em São Paulo, onde tem sua própria sala.

Apesar de não participar ativamente das decisões, não era raro que ele marcasse presença em reuniões com os filhos e outros executivos. “Ele era chamado quando o tema envolvia algo mais crítico ou palpitante. Mas, normalmente, só ouvia”, diz uma fonte da empresa. “Todos têm muito respeito por ele.” A reputação que construiu ao longo de sua trajetória é um elemento destacado pelo próprio empresário, nos vídeos que protagonizou. “Eu não tinha dinheiro para comprar as coisas à vista. Mas tinha muita credibilidade nos compromissos. Foi assim que eu adquiri crédito”, afirma o patriarca do clã. “Por que eu consegui isso? Nada mais que o nome.” Resta saber se o sobrenome Batista, impossível de ser dissociado do passado e do presente da JBS, será favorável ou prejudicial para resgatar a confiança do mercado e garantir uma nova trilha para a empresa no futuro. E agora, José?

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