Durval Teófilo, mais uma vida perdida para a loucura denominada racismo

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Durval Teófilo Filho, 38 anos, morto a tiros por um sargento da Marinha quando chegava em casa, em São Gonçalo, RJ (Crédito: Reprodução)



O racismo é uma superestrutura, intrincada, multiforme, imbricada no tecido social. Esteja o indivíduo ciente ou não, pode a qualquer momento se transformar em vítima ou algoz nessa complexa maquinaria.

O racismo tem o poder de inferiorizar a ponto de desumanizar pessoas. Desumanizados, podiam ser comprados e vendidos como se coisa fossem.

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Como tudo na história humana, os tempos passaram, e o racismo se aperfeiçoou e se adequou. Não há mais cientistas e acadêmicos, abertamente, afirmando a superioridade das raças. Não há mais zoológicos humanos em que famílias de negros trazidas da África eram expostas enjauladas em zoológicos pela Europa. Em boa parte do mundo ocidental, não há mais a escravidão dos séculos passados.




Até porque o racismo não precisa da escravidão. Tanto é que mais de 130 anos após a abolição, há plena convicção que ele ainda impera.

O racismo determina características morais, culturais, pessoais, técnicas e comportamentais para as pessoas de um determinado grupo, não só do grupo que é a vítima do racismo, mas também do grupo tido como superior.

O grupo vitima será classificado, rotulado e estigmatizado e nem mesmo a ascensão social-financeira, em regra, permitirá que escapem do estigma que lhes foi arbitrariamente associado.


Ao grupo entendido como superior, também lhe serão associadas características, as quais na verdade, se transmudam em boas qualidades, ou seja, qualidades morais, culturais, etc, dos quais sempre serão beneficiados, conscientes disso ou não. Por exemplo, a capacidade de liderança, a inteligência, engenhosidade, a beleza atribuída a sua estética, acompanha as caraterísticas do grupo tido como superior.

Os meios de reprodução, ou seja, a escola, mídia, artes, cinema, novelas, terão um papel fundamental na construção da imagem-estereótipo do negro no censo comum. Essa imagem, ou melhor dizendo, essa representação ou símbolo, será fixada no imaginário, no subconsciente e na própria consciência dos indivíduos, sejam eles brancos, negros ou não.

Na sociedade, a ideia-imagem do negro criminoso-malvado-perigoso-malfeitor está atrelada a ideia-imagem da pessoa negra, com maior ou menor intensidade, mas está lá.

Você não verá pessoas brancas serem perseguidas sistematicamente em shoppings, ou seu estereótipo tido como o do malfeitor. O estereótipo branco, no Brasil e no mundo, foi alçado a uma pureza em que nem as mais terríveis atrocidades podem macular.

Basta observar os casos de colarinho branco de grande repercussão na mídia, os crimes políticos, os crimes financeiros, via de regra cometidos por pessoas brancas, mas que são entendidos tendo sido cometido pelo indivíduo (o fulano a, b ou c). O estereótipo de suspeito não segue as demais pessoas brancas. Já os negros tornam-se alvos constantes da vigilância e do aparato policial, uma vez que o estigma do malfeitor, criminoso ou suspeito, se associa a qualquer pessoa negra indistintamente.

Essa maquinaria social intrincada produz resultados dos mais variados. Uma das formas do racismo sair do campo da abstração e transportar-se ao mundo real, físico, é o comportamento, as ações e inações dos indivíduos.

A violência contra as pessoas negras é uma das manifestações mais visíveis do racismo. As similaridades nas mortes de George Floyd (sufocado por um policial nos EUA), João Alberto (por seguranças do Carrefour), Moïse Kabagambe (o congolês espancado por três homens em um quiosque na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro) e Durval Teófilo Filho, baleado por um sargento da Marinha que morava no mesmo condomínio, em São Gonçalo (RJ), nos apontam para um sistema.

Todos foram imobilizados, sem chance de defesa, assassinados em público e sem auxílio dos demais ao seu redor. Pessoas negras são perseguidas, mortas, inclusive com tiros pelas costas, agredidas, acusadas, presas, pelo simples fato de serem negros. O negro sempre aparenta o criminoso e como todos os negros são iguais, qualquer negro é um criminoso em potencial. Assim, todo negro é um potencial perigo, inclusive para outros negros. A maquinaria do racismo incute a mesma e perversa simbologia em branco, negros e demais etnias presente na sociedade.

Um negro ao passar por um carro, a caminho da sua casa, porém com pressa, precisa pensar duas vezes, pode estar colocando a sua própria vida em risco. Ou superamos o racismo, ou ainda enterraremos muitos brasileiros. O resultado do racismo é sabido e conhecido: “está lá o corpo estendido no chão”.







Sobre o autor

Raphael Vicente é Diretor Geral da Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial. Advogado, Mestre e Doutorando em Ciências Sociais pela PUC-SP. Professor e Coordenador Geral da Universidade Zumbi dos Palmares.


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