Dow Jones a 30 mil pontos: mais manchete que conteúdo

Dow Jones a 30 mil pontos: mais manchete que conteúdo

Sempre que um indicador importante chega a um número assim, tão redondo e exato, traz com ele a sensação de realização de uma meta, tal qual uma resolução de ano novo. O índice Dow Jones, da Bolsa de Nova York, atingir 30 mil pontos seria equivalente a, depois de muito esforço e trabalho, correr uma maratona ou perder aqueles cinco teimosos quilos que não abandonam o ponteiro da balança. Até Trump – que normalmente não perde uma oportunidade como essa – saiu do ostracismo em que se enfiou pós eleição, convocou a imprensa e parabenizou o povo americano por ter atingido esse objetivo “sagrado”, segundo ele. Por mais que o evento seja importante do ponto de vista simbólico, no entanto, ele representa muito pouco na questão do conteúdo.

O índice Dow Jones foi criado em 1896 por Charles Dow, então editor do The Wall Street Journal, e pelo estatístico Edward Jones. Naquele tempo, era simplesmente a média aritmética dos preços das ações das 30 maiores empresas americanas negociadas em Bolsa. Ao longo do tempo, para eliminar descontinuidades no valor do índice geradas por splits, bonificações de ações ou mudanças na sua composição, foi criado um divisor para o Dow. Hoje, o índice é a soma do preço das 30 ações divididos por 0.151987076.

Cada ação, independentemente do seu valor de mercado, tem o mesmo peso no índice. Isso, por construção, já cria uma distorção importante: se cada ação tem o mesmo peso, isso significa que ações com preços mais altos têm mais relevância no valor do índice do que ações com preço mais baixo. Simplificando, se tivéssemos um índice com somente 2 ações, uma empresa A negociada a US$ 10 dólares e outra empresa Z negociada a US$ 100, o índice Dow Jones equivalente para esta cesta de 2 ações (ignorando o divisor) seria 55, independente da capitalização de mercado de cada uma.

Ainda mais distorção: suponha que, no dia seguinte, a ação da empresa A tenha tido uma valorização expressiva, de 10%, e passe a negociar a US$ 11, e que ao mesmo tempo a empresa Z tenha tido uma desvalorização pequena, equivalente a US$ 1 dólar (ou 1%). Com esses movimentos, o valor do índice nesse dia seria (11 + 99) / 2, ou seja, os mesmos 55. O índice não se mexe.

Assim como eu, muita gente acredita que o Dow Jones de fato não representa o mercado como um todo. Há índices bem mais relevantes, como o S&P 500, por exemplo, média dos preços das ações das 500 maiores companhias listadas em bolsas americanas ponderada pelo valor de mercado de cada uma. No ano, o Dow Jones acumula um ganho de aproximadamente 4,70%. Já o S&P 500 tem uma alta de 12,30%. Assim, o Dow a 30 mil pontos reflete, sim, a direção para o onde o mercado caminha. A valorização real do mercado acionário americano em 2020, porém, é quase três vezes maior do que indica o Dow Jones.

As causas? Estímulos fiscais e monetários na casa dos trilhões de dólares; a definição da eleição americana e as indicações, pelo menos até agora, de que será um governo de centro; os juros mais baixos da história – e que tendem a continuar baixos por muito tempo -; e a fenomenal descoberta, em tempo recorde, de várias vacinas extremamente eficazes contra a Covid-19.

As empresas que sobreviverem a 2020 serão mais eficientes, terão melhor qualidade na geração de fluxos de caixa e mostrarão ganhos de escala e de produtividade.  As condições de contorno estão armadas para um 2021 bastante positivo, e essa maré seguirá assim até que o resultado de todos esses estímulos traga, inevitavelmente, o que sempre acontece: inflação. Não há escapatória para a lei da oferta e procura: quanto maior a oferta de um produto, menor será o seu preço. Nesse caso, o produto é o dinheiro. Dow a 35 mil pontos em 2021? Não me espantaria, assim como não me espantaria em ver o Bitcoin chegando a U$35 mil.

Quem é Value Investor não quer projetar a direção que o mercado vai tomar. Isso seria uma tarefa com grande probabilidade de insucesso. Importa menos a direção do mercado como um todo e mais a capacidade de estar do lado certo da equação, independentemente do mercado. Escolher empresas que tenham valor nos seus ativos e potência na geração de caixa e lucros é o que realmente importa. Se puderem se beneficiar com crescimento, melhor ainda.

Dow a 30 mil não tem nada de “sagrado”. Não houve força de vontade, dieta, rotina de exercícios físicos ou resolução de ano novo. Ninguém trabalhou arduamente para elevar o índice até esse patamar, e o número, em si, tem pouco significado. Mas não se pode negar que dá, sim, uma certa animação em um ano que foi bem pouco animador. E melhor ainda: aconteceu bem na semana em que se comemora o dia de Ação de Graças nos Estados Unidos.

Veja também

+ 5 benefícios do jejum intermitente além de emagrecer
+ Jovem morre após queda de 50 metros durante prática de Slackline Highline
+ Conheça o phloeodes diabolicus "o besouro indestrutível"
+ Truque para espremer limões vira mania nas redes sociais
+ Mulher finge ser agente do FBI para conseguir comida grátis e vai presa
+ Zona Azul digital em SP muda dia 16; veja como fica
+ Estudo revela o método mais saudável para cozinhar arroz
+ Arrotar muito pode ser algum problema de saúde?
+ Tubarão é capturado no MA com restos de jovens desaparecidos no estômago
+ Cinema, sexo e a cidade
+ Descoberta oficina de cobre de 6.500 anos no deserto em Israel


Sobre o autor

Norberto Zaiet é economista formado pela Universidade de São Paulo e com MBA pela Columbia Business School, em Nova York. Depois de passagens como executivo pelo banco alemão WestLB e pelo português Banco Espírito Santo de Investimento (BESI), Zaiet foi CEO do Banco Pine. Hoje vive em Nova York, onde é sócio-fundador da gestora de investimentos Picea Value Investors. Com foco no conceito de Value Investing, a Picea Value Investors nasceu em 2019 com alcance global e atuação principal no mercado de ações norte-americano. Mais informações em www.piceavalue.com


Mais posts

Bitcoin a US$ 1 milhão?

Já escrevi sobre Bitcoin por aqui. À época, em 2019, a commodity negociava abaixo dos US$ 10 mil por unidade após ter atingido o pico [...]

É tempo de previsões: esqueça delas e faça a lição de casa

Segundo o “The Devil’s Financial Dictionary”, manual com definições sarcásticas de jargões do mercado financeiro escrito pelo colunista [...]

Bed Bath and Beyond: um caso clássico de Value Investing

Já escrevi sobre a Bed Bath and Beyond (BBBY) aqui no blog em dezembro do ano passado. À época, as ações da empresa (que atingiram o [...]

Value Investing ainda funciona?

A recente baixa performance ligada ao conceito de Value Investing, especialmente quando comparada às estratégias de crescimento, leva [...]

A eleição americana vai entrar no radar

Estamos a menos de 60 dias das eleições americanas e o mercado parece ainda não ter se interessado pelo assunto. Antes do surgimento da [...]
Ver mais

Copyright © 2021 - Editora Três
Todos os direitos reservados.

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicaçõs Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.