Economia

Dólar acima de tudo, real abaixo de todos

Com a cotação da moeda americana próxima a R$ 6, o derretimento do câmbio brasileiro expõe a fragilidade da economia, o efeito colateral da Selic baixa e a desconfiança do mercado internacional com o futuro do País.

Crédito: Istock

No começo de março, quando a pandemia da Covid-19 ainda era chamada de “gripezinha” pelo presidente Jair Bolsonaro, o ministro da Economia, Paulo Guedes, se mostrou enfático: “Se fizer muita besteira, o dólar pode ir a R$ 5”. Naquela ocasião, a moeda americana havia atingido o recorde histórico de R$ 4,66. Pouco mais de dois meses depois, pode-se dizer que o “Posto Ipiranga” da tropa bolsonarista foi profético, mas errou na cifra. Nos últimos dias, em meio a um sobe e desce raramente visto, a cotação encostou em R$ 6. Nas casas de câmbio, o dólar turismo – utilizado para venda em cédulas e para gastos internacionais com cartão de crédito – oscilou entre R$ 6,25 e R$ 6,63. No mesmo embalo, o euro ultrapassou a fronteira dos R$ 7 e a libra superou R$ 8. “Em algum momento lá na frente, a depreciação do real vai bater forte nas empresas que têm dívida em moeda estrangeira e fazem investimentos em dólar, como compra de equipamentos”, diz Alexandre Espírito Santo, economista da corretora Órama e professor do Ibmec Rio. “A desvalorização do real demonstra também o mau humor que o Fla-Flu político está causando na economia”, afirma o especialista, associando a turbulência econômica à radicalização do governo em torno do uso da cloroquina e das seguidas demissões de seus ministros da Saúde.

O dólar americano disparou frente a todas as moedas do mundo neste ano. O real, no entanto, foi a que mais se desvalorizou, com perda de quase 42,5%. No acumulado deste ano, rand sul-africano (-32,27%), peso mexicano (-27,70%), peso colombiano (-20,30%) e lira turca (-19,99) foram as que mais encolheram na comparação com o dólar. Nem mesmo as intervenções do Banco Central do Brasil, que diariamente vende reservas em moeda estrangeira, seguraram a queda. As reservas internacionais do País caíram de US$ 386 bilhões, em agosto passado, para US$ 339 bilhões, em abril deste ano. O economista Eduardo Ibrahim, professor da universidade SingularityU Brazil, diz que no médio o prazo, o dólar caro será como um veneno para a produtividade da indústria brasileira. “Antes da pandemia ela já se apresentava como uma das menos produtivas do mundo industrializado.”

Além da conjuntura econômica desfavorável, entra na conta a baixa histórica da taxa básica de juros, a Selic. Alexandre Espírito Santo, da Órama, lembra que ao remunerar menos pelos títulos públicos, a consequência imediata é a fuga de moeda estrangeira. “O Brasil deixou de ser um exportador de taxa de juros. A rentabilidade aqui está mais próxima dos países desenvolvidos, mas com grau de risco muito maior.”

O soma de instabilidade política com catástrofe sanitária é uma combinação explosiva para a economia. Tanto que a consultoria Gavekal Research compara o Brasil a um prédio em chamas. “Neste momento, é melhor deixar o Brasil para os especialistas, malucos, oportunistas de longo prazo e aqueles sem outras opções”, diz o texto assinado pelo economista Armando Castelar em seu relatório para investidores, divulgado na última semana.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) estima queda do Produto Interno Bruto (PIB) de 5,3%. Em toda a história, a maior queda havia sido de 4,35%, em 1990. Para a economista do Ibre-FGV Viviane Seda, o cenário é sombrio. “Com base nos nossos indicadores de confiança, sentimento e ciclo, essa realmente está sendo uma crise atípica e mais intensa que qualquer outra que tenhamos observado”. Pelas previsões e cálculos da Genial Investimentos, a queda do PIB poderá ser ainda maior, dependendo do tempo que a economia ficar paralisada. Em um cenário mais otimista, com 50 dias de distanciamento social, a retração será de 3,3%. Num horizonte mais pessimista, de 70 dias, o recuo pode alcançar 8,6% (leia mais na página 20).

“Em algum momento lá na frente, a depreciação do real vai bater forte nas empresas” Alexandre Espírito Santo, economista da corretora Órama. (Crédito:Divulgação)

Além do PIB e da atividade industrial, o cenário pouco animador é alimentado por uma previsão de desemprego que pode chegar a 18,7%, muito acima dos atuais 12,2%, segundo estimativa da Fundação Getulio Vargas (FGV). Se ela se confirmar, será a maior taxa de desocupação desde os anos 1980, quando começou a pesquisa, segundo a coordenadora do boletim macroeconômico do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (Ibre-FGV), Silvia Matos. Esse cenário de quase 19% de brasileiros sem trabalho representaria a maior destruição de vagas formais já registrada no País, superior ao que se viu nos três anos da última crise, entre 2015 e 2017. “Há uma característica diferente desta vez: o setor de serviços está sendo mais prejudicado”, afirma Silvia. “Foi ele que sustentou um pouco a recuperação frágil da nossa economia.”

ALENTO O anúncio de uma pesquisa com resultados promissores para o desenvolvimento de uma vacina contra o novo coronavírus, na segunda-feira 18, ajudou a segurar o dólar, que caiu para a menor cotação em 12 dias. No dia seguinte, a moeda abriu próxima de R$ 5,80, mas fechou no menor nível desde 6 de maio (R$ 5,704), com recuo de R$ 0,119 (-2,03%). Com isso, o Banco Central interveio pouco no mercado. A autoridade monetária ofertou até US$ 620 milhões para rolar contratos de swap cambial (venda de dólares no mercado futuro) que venceriam em julho. No mesmo dia, o euro comercial fechou cotado a R$ 6,258, com recuo de 1,95%. A libra comercial caiu 1,54% e terminou a sessão vendida a R$ 6,979. Foi a primeira vez, desde 5 de maio, que a moeda britânica fechou abaixo de R$ 7. Alexandre Espírito Santo diz que a falta de previsibilidade econômica e política se reflete de forma clara no câmbio. “Embora considere justa uma cotação de R$ 5,20 no fim deste ano, com qualquer aposta corre um grande risco de se errar feito”, afirma. Ele não deixa de se inspirar na frase creditada ao economista Edmar Bacha – “O câmbio é uma invenção de Deus pra humilhar os economistas” –, mas o temor está mais para o que dizia o ex-ministro e economista Mário Henrique Simonsen: “A inflação aleija, o câmbio mata.”