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Dois ossários são abertos no Vaticano para tentar resolver caso Orlandi

Dois ossários são abertos no Vaticano para tentar resolver caso Orlandi

Operadores abrem uma tumba no Cemitério Teutônico Vaticano, em 11 de julho de 2019, como parte da investigação sobre Emanuela Orlandi - VATICAN MEDIA/AFP/Arquivos

Um novo capítulo no enigmático caso de Emanuela Orlandi, filha de um oficial do Vaticano que desapareceu misteriosamente em 1983, foi aberto neste sábado com a inspeção de dois ossários descobertos em um porão do cemitério teutônico da Santa Sé.

Os ossos foram extraídos e serão analisados pelo professor Giovanni Arcudi, especialista em medicina legal nomeado pelo Vaticano, na presença de um técnico nomeado pela família Orlandi, de acordo com protocolos internacionalmente reconhecidos, indicou a Santa Sé.

A análise morfológica, que teve início neste sábado mesmo, prosseguirá até 27 de julho, conforme assinalou a Santa Sé em um comunicado.

A análise está sendo realizada pelo professor Giovanni Arcudi, especialista em medicina legal indicado pelo Vaticano, e por uma junta de peritos escolhida pela família Orlandi.

Esta descoberta se soma à tentativa do papa Francisco de ajudar a família de Emanuela, uma adolescente que desapareceu do centro de Roma há 36 anos.

Portanto, membros da família e representantes da família Orlandi foram convidados a testemunhar a inspeção dos ossários descobertos após a exumação, há uma semana, de alguns restos mortais solicitados pela família, convencidos de que a moça estava lá.

O caso misterioso, que alimentou todos os tipos de teorias na década de 1980 envolvendo os líderes da igreja e a máfia siciliana, levanta questões novamente.

A família Orlandi não quer deixar de seguir qualquer pista, na tentativa de elucidar o que aconteceu com a menina de 15 anos, uma cidadã do Vaticano e cujo paradeiro é desconhecido.

“Queremos saber a verdade, mesmo que seja como jogar sal em uma ferida aberta, não vamos desistir”, disse Pietro Orlandi, irmão da desaparecida.

– Muitas hipóteses, nenhuma prova –

Uma série de denúncias anônimas levaram o Vaticano a autorizar a abertura das tumbas do cemitério alemão, com a esperança de achar algum rastro da filha de seu funcionário.

Mas estavam vazias: nenhum traço de Emanuela Orlandi, tampouco da princesa Sophie von Hohenlohe (falecida em 1836), nem de Charlotte-Frederique de Mecklenburg (falecida em 1840), que deveriam estar enterradas ali.

Os especialistas estimam que os restos das duas princesas foram transferidos durante as obras de reforma realizadas neste edifício entre os anos de 1970 e 1980.

A descoberta em um porão do edifício, poucos dias depois, dos dois ossários inspecionados neste sábado confirmaria esta hipótese.

No entanto, para a família Orlandi, o silêncio do Vaticano sobre o caso tem pesado ao longo de tantas décadas, apesar da política de transparência adotada nos últimos anos pelo papa argentino.

A possibilidade de que a Santa Sé esteja envolvida no desaparecimento de Orlandi surge recorrentemente, alimentando centenas de notícias.

Em outubro de 2018, outra descoberta de restos humanos durante obras no jardim da nunciatura na Itália gerou todos os tipos de suposições.

Os estudos científicos concluíram que os ossos eram muito velhos e que não eram de Emanuela.

Entre as iniciativas tomadas em mais de 30 anos para desvendar o mistério, a justiça italiana autorizou abrir, em 2012, o túmulo de Enrico de Pedis, chefe do bando de Magliana, que aterrorizou Roma entre 1970 e 1980.

Continha apenas o corpo do homem, assassinado em 1990 num ajuste de contas. O caso surpreendeu, já que seu túmulo se encontrava nada menos do que dentro de uma importante basílica da capital.

O desaparecimento de Emanuela, no entanto, intriga os italianos.

As teorias conspiratórias têm se multiplicado, a respeito de eventuais pressões da máfia siciliana sobre os responsáveis das finanças da Santa Sé, a cargo do então monsenhor Paul Marcinkus, envolvido em um do maiores colapsos financeiros da Itália.

Outros sustentam que a jovem foi sequestrada para pedir a liberação de Mehmet Ali Agca, turco que tentou assassinar o papa João Paulo II em 1981.

Nenhuma das hipóteses possuem provas.