Negócios

Do céu ao inferno

Na quinta-feira 3, a Neon Pagamentos celebrou um aporte de R$ 72 milhões. No dia seguinte, o Banco Neon, ligado a ela, foi liquidado pelo Banco Central. Entenda o caso

Crédito: Rafael Roncato/Folhapress

Conrade, do Neon: “Eu estava comemorando o maior round de investimentos em uma fintech brasileira e acordei com essa notícia” (Crédito: Rafael Roncato/Folhapress )

Pedro Conrade, CEO da Neon Pagamentos, foi do céu ao inferno em apenas uma noite. Na quinta-feira 3, ele foi dormir feliz. Sua empresa havia anunciado um aporte de R$ 72 milhões de investidores de peso como Monashees, Propel Ventures, Omydiar Network, Tera Capital, Yellow Ventures e o family office do Patria Investimentos, entre outros. Na sexta-feira 4, Conrade acordou em um pesadelo. O nome do Banco Neon, umbilicalmente ligado à sua empresa, estava no topo das páginas de notícias, e não devido ao aporte. A causa era a primeira liquidação extrajudicial, pelo Banco Central (BC), de um banco de pagamentos. “Eu estava comemorando o maior round de investimentos em uma fintech brasileira e acordei com essa notícia”, disse Conrade à DINHEIRO.

Para sorte de Conrade, a Neon Pagamentos e o Banco Neon são empresas diferentes, algo que o próprio BC frisou em seu comunicado sobre a liquidação. Para seu azar, há cerca de dois anos a Neon Pagamentos cedeu o uso de marca para uma instituição mineira de pequeno porte, o Banco Pottencial. “Foi para facilitar o entendimento dos clientes”, diz ele. A única relação é um investimento dos proprietários do Pottencial, como pessoas físicas, no capital da Neon Pagamentos. “Eles possuem cerca de 5% das ações e não têm nenhuma participação na gestão”, diz Conrade. Mesmo assim, o anúncio apavorou os cerca de 600 mil clientes.

Os comentários inundaram as páginas do banco nas redes sociais e os telefones ficaram congestionados durante toda a manhã. Segundo Conrade, o BC manteve desbloqueados os saldos em contas-correntes. “Apenas as aplicações em CDB estão bloqueadas”, diz ele. O executivo afirmou que nenhuma aplicação supera o limite de R$ 250 mil de investimentos protegidos pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Os comentários dos clientes mostram que, na manhã da sexta-feira, era possível sacar dinheiro nos caixas automáticos.

Regularizadas pelo BC no fim de 2014, as instituições de pagamentos são a interface entre o regulado e burocrático sistema financeiro e as fintechs. Na sexta-feira, o departamento de fiscalização do BC determinou a liquidação do Pottencial. O principal motivo foi a existência de patrimônio líquido negativo, algo que ocorre quando os empréstimos de má qualidade superam o dinheiro dos sócios. Há outros problemas, segundo fontes do BC, como aplicação de dinheiro dos clientes em empresas pertencentes a sócios do grupo e descumprimento das determinações sobre as informações dos clientes. Há suspeitas de que o banco não informava corretamente os dados de quem usava as contas para realizar negócios com criptomoedas. Procurado, o BC não comentou o assunto.


Acionistas do banco inter levam susto

Três pregões após sua estreia na B3, as ações do Banco Inter, primeira fintech a abrir capital (leia reportagem aqui), desabaram. Na sexta-feira 4, os papéis abriram com queda de 10% para R$ 67,41, abaixo dos R$ 74 do lançamento. O que derrubou as cotações foi uma reportagem publicada pelo site de tecnologia Tecmundo, gerido pela empresa brasileira NZN. Segundo a reportagem, um hacker haveria obtido informações sobre cerca de 100 mil clientes do banco, e tinha tentado uma chantagem para não revelar o vazamento.

Procurado, o banco informou que “foi vítima de tentativa de extorsão e que imediatamente constatou que não houve comprometimento da segurança no ambiente externo e nem dano à sua estrutura tecnológica. A companhia esclarece, ainda, que comunicou o fato às autoridades competentes e a investigação corre em sigilo.”