Dinheiro para guerra

Dinheiro para guerra

Poucos discordam que as escolhas do Sr. Trump são sempre, para dizer o mínimo, estarrecedoras. E não apenas no plano político, como também no campo econômico. A última delas não fugiu ao figurino. Dando vazão ao seu pendor belicoso, o presidente dos EUA acaba de anunciar uma robusta ampliação do orçamento militar, da ordem de US$ 54 bilhões. Trata-se do maior montante – que deve alcançar um total de assombrosos US$ 650 bilhões no ano – poucas vezes gasto pelos americanos ou por qualquer outra nação em tempos de paz. Trump fez – é claro! – a alegria da indústria armamentista e ganhou apoios inclusive entre a população conservadora de seu País, que faz gosto nos investimentos em segurança. Para o mundo, a atitude representou um desatino.

O governo do showman empresarial pretende cortar verbas da assistência internacional e de proteção ao ambiente para os novos dispêndios militares. Sua justificativa, para não fugir ao discurso eleitoral, é o combate sistemático aos grupos extremistas. Trump envereda por uma vertente perigosa de relacionamento com o mundo que pode levá-lo ao isolamento gradativo. A alta histórica na verba de defesa parece induzir a ideia de que o Sr. Trump se prepara para uma guerra. A fatia direcionada a armamentos especiais é a maior delas. A parte reservada para aumento de tropas combatentes vem a seguir.

Ainda não está claro qual pode ser o impacto no déficit dessa, digamos, nova coqueluche de Trump. O certo é que movimentos como esse, somados a construção de um muro na fronteira com o México e outros dispêndios excêntricos, não estavam na conta alinhavada com o Congresso e terão de passar agora por seu crivo. No afã belicista da era Trump, os EUA também estudam abandonar o órgão de direitos humanos da ONU, revertendo uma decisão tomada em 2009 por Obama, quando o País aderiu ao conselho criado pelas Nações Unidas. No caminho que parece pregar uma auto suficiência em todos os sentidos, a política comercial dos americanos passou a apostar num incremento de medidas protecionistas desastrosas, ignorando decisões consagradas na OMC.

Na agenda enviada ao Congresso, Trump sugere, por exemplo, a preferência por acordos bilaterais em detrimento dos multilaterais e a revisão de negociações globais como a do Nafta. Um retrocesso tremendo que já provocou reclamações sobre a legitimidade de tais escolhas, não apenas por parte dos parceiros como também através de representantes da própria Organização Mundial do Comércio. Entrou em pauta na OMC a aplicação de penalidades por eventuais violações. Se era briga o que Trump procurava, ele já começou a achar. E isso vai levar muito mais dinheiro do que ele pensa.

(Nota publicada na Edição 1008 da Revista Dinheiro)

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Sobre o autor

Carlos José Marques é diretor editorial da Editora Três e escreve semanalmente os editoriais da revista DINHEIRO


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