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Deus joga dados

"Prefiro qualquer inteligência artificial decidindo tudo na esfera pública, de leis a sentenças, do que os exemplos que o Brasil me fornece"

Deus joga dados

Precisamos falar de Kirby Brady. Mulher. Negra. Especialista em dados. Ela foi nomeada CIO (Chief Innovation Officer) de San Diego (Califórnia). O município é o oitavo maior dos Estados Unidos. A função de CIO acaba de ser criada pelo prefeito Todd Gloria, que assumiu o cargo há dois meses. Negro. Gay. Ele quer fazer de sua gestão algo pautado na diversidade? Também. Mas acima de tudo quer uma administração pautada pelos dados. Totalmente Data-Driven. “As experiências únicas de Kirby Brady, combinadas com sua criatividade, ímpeto e paixão pela inovação ajudarão a aproveitar os dados e a tecnologia para fornecer serviços de excelência por toda a cidade”, disse Gloria ao anunciar o nome da CIO.



Eu não sei você. Mas eu quero um prefeito assim para a minha cidade. Um vereador assim. Um governador assim. Um deputado assim. Um Arthur Lira assim. Um Paulo Guedes assim. No Ministério da Saúde? Assim! Qualquer togado? Assim. Comandantes militares… Assim! E um presidente assim. Não menos. Não vejo brilho ou acertos paridos pelos servidores-decisores que temos. Prefiro um software. Doses de Inteligência Artificial e Blockchain nos fariam melhores nas tais instâncias republicanas. Todas elas.

Tem sido tendência nos Estados Unidos, mesmo que ainda em poucas cidades, a criação de diretorias públicas orientadas ao vetor tecnológico. São os secretários CIOs. Não confunda com páginas fofinhas no Instagram. É outro bicho. É inteligência administrativa fundamentada em tecnologia. Brady é uma fera em duas habilidades decisivas no tal do século 21 – saberemos do que se trata quando ele começar aqui nos trópicos. Por um lado, ela conhece cidades. É formada em Desenvolvimento Regional (University of Arizona) e é mestre em Planejamento Urbano (University of Southern California). Por outro lado, sabe ler dados. Entre 2016 e 2020, atuou no Conselho de Desenvolvimento Econômico Regional de San Diego, onde foi a diretora de pesquisas. Ali, ela e sua equipe usavam ferramentas modernas para analisar as tendências econômicas locais.

Nada de chute. Nada de ‘eu acho’. Nada de costura com o Centrão citadino. Nada de militar falando e fazendo o que não deve. Só decisões técnicas. Ou pelo menos o máximo possível. Ao minerar dados e jogá-los à opinião pública de forma transparente fica mais difícil que algumas manobras possam ser alimentadas. Ganha o corpus social. Outra vitória de uma gestão orientada a dados é transformar o espírito no funcionalismo médio. Na nova função de Brady ela será responsável também por criar uma cultura de inovação no ambiente de trabalho público. Matar a letargia e desenvolver servidores com autonomia para assumir riscos e pensar fora da caixa. Como pedem startups e cada vez mais as grandes corporações.

Um par de parênteses será necessário: (não há inocência nisso tudo). Inteligência Artificial pode embutir tantos preconceitos quanto os de quem a programa. É fato. Como é fato que esse ‘desvio de caráter’ pode ser mais facilmente corrigido num software do que numa pessoa. Entregar na mão de máquinas as complexas variáveis do mundo moderno – San Diego tem 1,4 milhão de habitantes – parece mais sensato do que nas mãos e nos cérebros dos gestores disponíveis no mercado. São Paulo, por exemplo. Apenas a Zona Leste tem três vezes mais habitantes que a cidade americana. Esse pedaço paulistano é maior que o Uruguai. Maior que 14 estados brasileiros. Como criar políticas decentes e eficientes? E as decisões em Brasília? Alguém duvida que um software parrudo, uma supermáquina, seria capaz de propor uma Reforma Tributária menos equilibrada? Menos justa? Pior do que a que temos na mesa?



“Estou emocionada em inaugurar uma nova Era”, disse Brady na posse. “Uma Era que coloca os dados na vanguarda da tomada de decisões.” Confesso que fiquei com um pouco de inveja. Mas muito de esperança. Num País tão pobremente gestado e gerido como o nosso, que tal dar para as máquinas as decisões da esfera pública? Einstein, meu velho. Preciso discordar de sua frase sobre Deus não jogar dados. Joga sim. Muito bem. O que precisamos é de servidores públicos de elite que os leiam. Prefiro qualquer Inteligência Artificial decidindo emendas parlamentares, sentenças judiciais em todas as instâncias, estratégias de vacinação e eleições (inclusive presidenciais) do que os exemplos que o Brasil me fornece. Deus é digital. E curte.

Edson Rossi é redator-chefe da DINHEIRO


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