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Desglobalização: a nova onda global é boa ou ruim para o Brasil?

Pandemia, inflação e guerra intensificam o movimento de autoproteção das maiores economias do mundo, principalmente em setores essenciais como o de alimentos e de energia.

Crédito: Istock

A expectativa: um mundo sem barreiras comerciais, países interconectados por uma economia justa, eficientes cadeias globais de fornecimento e redução da pobreza. A realidade: protecionismo em expansão, interrupções nas cadeias de abastecimento, aumentos generalizados de preços e escassez de quase tudo, de alimentos a semicondutores. O abismo que separa o real do ideal tem alimentado o processo de desglobalização da economia mundial. O fenômeno ganhou força com a combinação entre pandemia, com a alta das commodities e, mais recentemente, com a guerra na Ucrânia.

Na visão de especialistas, como a do cientista político Andrea Wirching, a globalização está para a economia como a democracia está para a sociedade: ou corrige suas falhas ou corre riscos reais de extinção. “A tese de um mundo com menos fronteiras, seja em questões econômicas, políticas ou sociais, falhou em todo o planeta”, afirmou Wirching, que atua como professor de história da Universidade Ludwig, em Munique, na Alemanha. “A desigualdade está crescendo e, no final das contas, há mais perdedores do que vencedores”, disse. No Brasil, nos Estados Unidos, na Ásia ou na Europa, o fluxo migratório de empresas evidencia esse intenso processo de desglobalização — interpretado também como desindustrialização ou retorno de multinacionais a seus países de origem.

No caso brasileiro, os exemplos falam por si. Nos últimos três anos, a americana Ford fechou suas fábricas em Camaçari (BA) e São Bernardo do Campo (SP), a japonesa Sony deixou em definitivo a Zona Franca de Manaus e o Walmart vendeu a operação no País, entre tantos outros casos semelhantes. Para David Kallas, professor do Insper e sócio da consultoria empresarial KC&D, as incertezas que existem no Brasil agravam a situação e deixam o ambiente de negócios muito difícil para as empresas trabalharem. Segundo ele, uma coisa é manter uma empresa em um lugar que cresce 2% ao ano com estabilidade. Outra coisa é você estar em um país que cresce 7% e em seguida cai 4% em um ano. Isso é muito danoso para as organizações.

DA CHINA PARA A CHINA Desabastecimento de itens de tecnologia, como semicondutores da Foxconn para o resto do mundo acendeu o sinal de alerta nos países que fabricam eletrônicos. (Crédito:Kin Cheung/AP Photo)

NÃO É DE HOJE A desglobalização está sob os holofotes da crise atual, mas vem crescendo desde 2008, com a crise global do subprime. Montadoras americanas — as que não foram vendidas, como a Chrysler, ou não foram salvas pelo governo, como a General Motors — começaram a repovoar a abandonada Detroit. Fornecedores de peças que haviam se mudado para o Leste Europeu ou para a China foram pressionados a voltar. Os slogans presidenciais “America First”, de Donald Trump, “Brasil acima de tudo…”, de Jair Bolsonaro, ou mesmo o “Get Brexit Done” (a saída do Reino Unido da União Europeia) refletem esse movimento de voltar o olhar apenas para o próprio umbigo.

Para Eduardo Felipe Matias, autor do livro A Humanidade e suas Fronteiras, doutor em direito internacional pela USP e sócio de Elias, Matias Advogados, a pandemia, seguida da guerra na Ucrânia, levaram muitos países a repensarem sua dependência externa de forma geral e, em particular, de produtos hospitalares chineses no primeiro caso e de gás natural, petróleo e fertilizantes russos, no segundo. “Há algum tempo o desemprego gerado em alguns setores pela redistribuição da produção mundial vem gerando uma perigosa ascensão de políticos populistas, xenófobos e protecionistas ao redor do mundo”, disse Matias. “Tudo isso deve seguir trazendo turbulências ao comércio internacional por um período.”

1,2% foi a fatia do Brasil no comércio global, segundo dados do FMI

Até aqui não é se pode prever se o fenômeno vai se manter por um tempo ou será sem volta. Mas é fato que a invasão russa à Ucrânia serviu como gasolina na fogueira da desglobalização. A razão é que os embargos do Ocidente ao governo de Vladimir Putin devem acelerar a nacionalização de produtos essenciais para outros países, como o gás natural aos europeus e os fertilizantes para o agronegócio brasileiro. O economista Denis Medina, professor da Faculdade do Comércio de São Paulo (FAC-SP), afirma que “a crise de fornecimento, como a sofrida pelas montadoras com a escassez de chips, expõe a fragilidade e o risco de depender de insumos básicos de países de fora.”

O copo meio cheio da desglobalização para o Brasil é que o País, por ter uma minúscula participação no comércio global (1,26% no ano passado, segundo o FMI), tende a sofrer menos. Segundo Welber Barral, estrategista de comércio exterior do Banco Ourinvest e ex-secretário de Comércio Exterior no governo Fernando Henrique Cardoso a sina brasileira de não vender produtos acabados virá a calhar. “Porque alimentos e matérias-primas continuarão sendo exportados seja qual for o destino”, disse Barral. O copo meio vazio é um pouco mais perverso. A desglobalização traz o empobrecimento coletivo, menor eficiência na produção global e protecionismo em países que têm indústrias essenciais. “E nisso, todos perdem.”