Ciência

Desconfinamento, uma estratégia com riscos

Desconfinamento, uma estratégia com riscos

Pessoas aguardam a distribuição gratuita de máscaras protetoras por igreja em Roma, em 17 de abril de 2020 - AFP

Vários países começarão a suspender o confinamento nas próximas semanas, uma estratégia que exige prudência e metodologia para evitar uma segunda onda epidêmica, a qual implicaria um novo confinamento e intensificaria a crise social e econômica.

“Quando a decisão” de confinamento foi tomada, “era nossa única arma para tentar controlar a epidemia de coronavírus”, disse à AFP a epidemiologista Dominique Costagliola sobre esta medida em vigor na França desde meados de março.

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Essa estratégia “não é suportável a longo prazo, nem para as pessoas, nem para o país”, admite.

“Os efeitos sociais, econômicos e de saúde do confinamento estão se acumulando. Chegará um momento em que os custos superarão os benefícios”, prevê a dra. Linda Bauld, especialista em saúde pública da Universidade de Edimburgo (Escócia).

Por um lado, muitos especialistas apontam que ficar em casa salvou milhares de vidas.

Por outro, uma recessão mundial histórica se aproxima, apelidada de “Grande Confinamento”, semelhante à “Grande Depressão” de 1929, pelo economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Somam-se a isso os riscos sociais temidos pelos especialistas, como exacerbar desigualdades, violência doméstica, ansiedade, consumo de álcool e agravamento de problemas de saúde não relacionados à COVID-19.

– Corda bamba –

Depois que o confinamento terminou na China – origem da pandemia -, é a vez da Europa, com a estabilização de mortes e hospitalizações em vários países.

A França planeja lançar um “desconfinamento” progressivo a partir de 11 de maio. Outros países europeus, dos mais – Itália e Espanha – aos menos atingidos – Alemanha, Bélgica, Suíça, Dinamarca – preparam planos semelhantes para as próximas semanas.

O presidente americano, Donald Trump, considerou que é hora de “reativar os Estados Unidos”, embora o país tenha se tornado o mais atingido pela pandemia, com mais de 33.000 mortes.

A progressiva reabertura de escolas e de estabelecimentos comerciais o retorno ao trabalho presencial vão caracterizar o fim do confinamento.

Mas isso vai parecer mais com alguém na corda bamba do que em uma estrada para a liberdade. E o saldo dependerá da taxa básica de reprodução da doença, ou seja, o número médio de pessoas infectadas por cada paciente.

Antes do confinamento, “era de 3,4-3,5”, explicou o presidente do comitê científico que assessora o governo francês, dr. Jean-François Delfraissy.

França e Alemanha garantem que essa medida reduziu esse número para menos de 1, o que corresponde ao controle da epidemia. Com o “desconfinamento”, esse índice deve subir, uma vez que o vírus voltará a circular com mais facilidade. A margem de manobra é, portanto, muito estreita.

“Com 1,1, poderíamos atingir em outubro o limite do nosso sistema de saúde em termos de leitos em UTI”, alertou esta semana a chanceler alemã, Angela Merkel.

Com 1,2, isso ocorreria em julho e, com 1,3, em junho, acrescentou.

“Não passaremos do preto para o branco, mas do preto para o cinza escuro”, esclareceu o dr. Delfraissy.

– Singapura, uma “advertência” –

Acima de tudo, o “desconfinamento” deve ser acompanhado de medidas precisas, que funcionaram na Coreia do Sul, país citado como exemplo no gerenciamento da pandemia: testes diagnósticos em massa, quarentena para casos positivos e monitoramento daqueles que estiveram em contato com os infectados.

Essa estratégia exige, contudo, que todos os recursos necessários estejam “disponíveis”, ressalta a epidemiologista Dominique Costagliola.

Isso significa um volume suficiente de testes e uma logística que permita o monitoramento tecnológico.

A Coreia do Sul tinha “uma brigada de 20.000 pessoas” para realizar esses “rastreamentos de contatos”, lembra Delfraissy, enfatizando a importância do capital humano, além do digital.

E, mesmo quando funcionam, estratégias menos radicais do que o confinamento não são uma garantia no médio prazo.

Tendo inicialmente controlado a epidemia por meio de uma política semelhante à da Coreia do Sul, Singapura agora registra uma segunda onda de infecções, desta vez forçando o governo a tomar medidas mais severas. Entre elas, está o fechamento da maioria dos locais de trabalho.

“Singapura deve ser um aviso para todos nós”, comentou o dr. Vincent Rajkumar, da rede de hospitais Mayo Clinic.

“Provavelmente, por um longo período, será preciso liberar um pouco, limitar novamente, liberar, limitar”, prevê Delfraissy.

É também o que recomenda um estudo americano publicado esta semana na revista “Science”: será necessário alternar períodos de confinamento e de abertura até 2022, enquanto se desenvolvem tratamentos eficazes, ou uma vacina contra o coronavírus.

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