Estilo

Desajustado e desalinhado

O alfaiate Ricardo Almeida, conhecido por vestir personalidades sob medida, cria uma nova marca para atrair o público jovem e conseguir dobrar seu faturamento

Crédito: Claudio Gatti

Medida do sucesso: o alfaiate foi pioneiro no Brasil na confecção de peças sob medida e já contabiliza 10 mil moldes feitos (Crédito: Claudio Gatti)

Com fita métrica e agulha em mãos, Ricardo Almeida tornou-se referência na confecção de peças sob medida, no Brasil e no mundo. Ele contabiliza ter feito mais de 10 mil moldes para diversas personalidades – de integrantes da banda de rock Guns N’Roses a astros de Hollywood, como o ator Brendan Fraser. Neste ano, os uniformes de passeio da seleção brasileira na Copa do Mundo da Rússia tinham a assinatura do alfaiate, que foi o primeiro brasileiro a utilizar a mesma técnica das grifes italianas Brioni e Ermenegildo Zegna quando abriu sua primeira fábrica, em 1983. Agora, aos 63 anos, ele decidiu afrouxar o tecido com o lançamento de sua nova marca. A RA2 tem uma proposta despojada e desalinhada e está sendo criada para agradar os jovens de 14 a 26 anos. A marca vai priorizar malhas e moletons, tecidos que imitam jeans e camisetas. A ideia surgiu porque seus filhos, Ricardo, de 14 anos, e Arthur, de 13 anos, não gostam de nada muito arrumadinho. “Eles não usam nem calça jeans. Detestam”, diz Almeida.

Seu plano é lançar a marca no mercado ainda neste segundo semestre. Os planos ainda não estão bem definidos, mas devem seguir o mesmo percurso da grife com vendas em lojas próprias e multimarca. “É uma estratégia inteligente quando uma marca cria outra complementar”, diz Marília Carvalhinha, especialista em gestão estratégica em negócios e varejo de moda da FAAP. “Os clientes do Ricardo também possuem momentos casuais, que pede outro estilo de vestimenta. Os da RA2, em algum momento da vida, vão migrar para o formal.” Com o novo negócio, Almeida pretende dobrar o faturamento de R$ 165 milhões projetados para este ano. Capacidade para isso ele tem. A fábrica de 8 mil m² no Bom Retiro, em São Paulo, consegue produzir 15,3 mil peças por mês. Ricardo também decidiu apostar no vestuário feminino com uma roupa executiva. “Temos o know how da alfaiataria, do blazer, só vamos adaptar isso”, diz ele. Essa ampliação, porém, não é tão simples. “A mulher consome mais e, muita vezes, procura um produto rápido. O fast-fashion acaba atendendo melhor esse desejo”, afirma Carvalhinha.

Com o lançamento da RA2, Almeida quer envolver os filhos na gestão do negócio. Por enquanto, eles apenas opinam. “Quando eles crescerem, decidem se querem seguir esse caminho ou não”, diz ele, que começou a trabalhar aos 11 anos na Casa Almeida, rede de varejo especializado em cama, mesa e banho criada por seu pai. Desde cedo, Ricardo prefere calcular o próximo passo. Nunca se encantou pelas propostas de fundos de investimento e escolheu a expansão orgânica. De 2009 para cá, a marca saltou de duas lojas próprias para 23 e de 12 multimarcas para 120. “O Ricardo sabe crescer nesse universo sob medida”, diz Silvana Holzmeister, especialista em moda da Belas Artes. “Isso é muito louvável, porque o universo masculino é muito mais difícil em termos de consumo.”