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Depois da covid, ondas de calor podem ser o próximo grande assassino?

Um calor abrasador, implacável castiga grandes regiões da Terra, matando milhões que não têm como escapar. As sombras não têm serventia e os corpos hídricos superficiais são mais quentes do que o sangue que corre nas veias.

Esta é uma cena de “The Ministry for the Future”, novo romance de ficção científica de Kim Stanley Robinson. Mas o terror sufocante que o livro descreve pode estar mais perto da ciência do que da ficção, segundo o esboço de um relatório do IPCC, painel consultivo de cientistas climáticos da ONU, obtido com exclusividade pela AFP.

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No documento, os especialistas alertam para as consequências catastróficas de um aquecimento planetário sem controle para bilhões de pessoas.



Modelos climáticos mais antigos sugeriam que levaria quase outro século de maciças emissões de carbono para que se gerassem ondas de calor que excedessem o limite absoluto da tolerância humana.

Mas projeções atualizadas alertam que ondas de calor sem precedentes estão mais perto, de acordo com o relatório de 4.000 páginas do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), ao qual a AFP teve acesso com exclusividade e que tem publicação prevista em fevereiro de 2022.

O documento arrepiante pinta um retrato sombrio e mortal de um planeta em aquecimento.

Em um mundo 1,5°C mais quente, 14% da população estará exposta a fortes ondas de calor ao menos uma vez a cada cinco anos, “um aumento significativo na magnitude das ondas de calor”, de acordo com pesquisa citada pelo IPCC.

Aumente a temperatura para mais meio grau, chegando aos 2°C, e as coisas ficam ainda piores.

As mais afetadas serão as florescentes megacidades do mundo em desenvolvimento, que geram calor adicional por contra própria, de Karachi a Kinhsasa, de Manila a Mumbai, do Laos a Manaus.

As leituras dos termômetros não são o único a fazer diferença. O calor costuma ser mais letal quando combinado com alta umidade.

Em outras palavras, é mais fácil sobreviver a um dia de temperaturas elevadas em um ambiente seco do que fazê-lo em outro de umidade muito alta.

Esta combinação de banho a vapor tem sua própria medida, denominada temperatura de bulbo úmido.

Especialistas concordam que uma temperatura de bulbo úmido de 35°C está acima da capacidade de um adulto humano saudável lidar com a situação, mesmo na sombra e com um suprimento ilimitado de água potável.

“Quando as temperaturas de bulbo úmido estão extremamente altas, há tanta umidade no ar que o suor se torna ineficaz na remoção do excesso de calor do corpo”, explica Colin Raymond, principal autor de um estudo recente que identificou dois locais no Golfo Pérsico onde os 35°C (TW) nesse tipo de medição foram alcançados.

“Em algum ponto, talvez depois de seis ou mais horas, isso levará à falência de órgãos e morte na ausência de acesso a resfriamento artificial”.

– Derrames por calor e ataques cardíacos –

Nós já vimos o impacto do calor úmido e letal com temperaturas bem mais baixas, especialmente entre os idosos e enfermos.

Em junho de 2015, duas ondas de calor de 30°C (TW) na Índia e no Paquistão deixaram mais de 4.000 mortos.

E a onda de calor de 2003 que matou mais de 50.000 pessoas na Europa Ocidental registrou temperaturas de bulbo úmido apenas na casa dos 20°C (TW).

Ondas de calor escaldantes que atingiram o hemisfério norte em 2019 – o segundo ano mais quente registrado no mundo – também causaram um grande número de mortes excedentes, mas ainda faltam os dados de bulbo úmido.

 

Um estudo do Instituto de Métricas e Avaliações de Saúde (IHME) relatou pouco mais de 300.000 mortes relacionadas à temperatura em todo o mundo por todas as causas em 2019.

Cerca de 37% das mortes relacionadas com o calor – pouco mais de 100.000 – podem ser atribuídas ao aquecimento global, segundo os cientistas dirigidos por Antonio Gasparrini, da London School of Hygiene & Tropical Medicine.

Em meia dúzia de países – Brasil, Peru, Colômbia, Filipinas, Kuwait e Guatemala – o percentual foi de 60% ou mais.

A maioria destas mortes provavelmente foi causada por derrames relacionados com o calor, ataques cardíacos e desidratação provocada por sudorese intensa, e muitas provavelmente seriam evitáveis.

– Cidades em risco –

Picos perigosos acima de 27ºC (TW) mais que dobraram desde 1979, segundo as descobertas de Raymond.

Seu estudo prevê que as temperaturas de bulbo úmido “excederão regularmente” 35ºC (TW) em alguns locais nas próximas décadas se o planeta esquentar 2,5 graus com base nos níveis pré-industriais.

As atividades humanas já fizeram as temperaturas subirem 1,1ºC até agora.

O Acordo de Paris requer um limite máximo para o aumento “bem abaixo” de 2°C, 1,5°C se possível.

Mesmo se as metas de temperatura do acordo de Paris forem cumpridas, centenas de milhões de habitantes das cidades na África Subsaariana, assim como no sul e sudeste da Ásia, provavelmente serão atingidos por ao menos 30 dias de calor mortal todos os anos até 2080, de acordo com o relatório.

“Nessas regiões, a população das cidades está crescendo dramaticamente e a ameaça de calor mortal está se aproximando”, observa Steffen Lohrey, principal autor do estudo, ainda em revisão por pares, do qual os números foram extraídos.

Esses cálculos, acrescentou Lohrey, nem levam em consideração o chamado efeito de ilha de calor urbana, que acrescenta 1,5°C em média durante as ondas de calor em comparação às áreas próximas.

Asfalto e edifícios que absorvem calor, sistemas de exaustão de ar condicionado e a densidade da habitação urbana contribuem para este aumento nas cidades.

– Áreas mais suscetíveis a ondas de calor –

 

A África Subsaariana é especialmente vulnerável a ondas de calor letais, porque é projetada para suportar o maior número de dias letais do que qualquer região, exceto o sudeste da Ásia, mas também porque está menos preparada para lidar com elas.

“Tanto as observações do mundo real quanto a modelagem climática mostram a África Subsaariana como um ponto principal para a atividade das ondas de calor”, explica Luke Harrington, pesquisador de pós-doutorado do Instituto de Mudança Ambiental da Universidade de Oxford e autor de um estudo sobre a falta de dados do continente.

Enquanto isso, na China central e no oeste da Ásia, “as temperaturas extremas de bulbo úmido estão previstas e possivelmente ultrapassarão os limites fisiológicos para a adaptabilidade humana”, advertiu o IPCC.

O Mediterrâneo também é vulnerável às mortais jornadas de um clima mais quente.

“Na Europa, até 200 milhões de pessoas estarão sob alto risco de estresse por calor em meados do século se o mundo tiver um aumento de temperatura de até 2ºC até 2100”, observou o relatório.

Fundamental para as taxas de mortalidade é a capacidade de adaptação da população, explica Jeff Stanaway, pesquisador do IHME.

“Há uma maior sensibilidade ao calor no oeste da Europa e na América do Norte”, diz ele à AFP.

“Isso porque na América do Norte todo mundo tem ar-condicionado e edifícios modernos e bem isolados. É apenas uma diferença na infraestrutura”, afirma.

– ‘Lacuna de resfriamento’ –

Mas assim como muitos impactos relacionados às mudanças climáticas, os efeitos das ondas de calor não vão ser sentidos por todos da mesma forma.

Em alguns países em desenvolvimento, o desenvolvimento econômico não acompanha os custos de resfriamento da população, expondo uma corrida entre o aquecimento global e a capacidade de se adaptar a ele.

Um estudo de técnicas de adaptação em Hanói, no Vietnã, descobriu que muitas pessoas não usavam ar condicionado em seus quartos por causa de seu custo elevado de eletricidade. Como alternativa, alguns se embrulham em lençóis molhados antes de dormir durante ondas de calor severas.

Em resumo, as altas temperaturas quase certamente destruirão mais vidas de forma indireta, em vez de chegar a níveis nos quais o corpo simplesmente deixa de funcionar, diz o relatório.

Temperaturas mais altas serão vetores de doenças, reduzirão o rendimento das colheitas e os valores dos nutrientes, além de diminuir à metade a produtividade no trabalho e tornará as atividades ao ar livre potencialmente fatais.

Se o mundo quiser evitar o cataclismo imaginado por Robinson, os países precisarão honrar o acordo climático de Paris e limitar o aquecimento global o mais próximo possível de 1,5°C, ressaltam os cientistas.

Mas mesmo assim, com as temperaturas aumentando duas vezes a média global em muitas regiões, alguns impactos severos estão a caminho.

“As crianças de hoje vão testemunhar mais dias com calor extremo, quando o trabalho manual em ambientes externos será fisiologicamente impossível”, adverte o informe do IPCC.

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