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Demonizar os políticos é uma burrice

Luciano Huck desistiu de sua candidatura para salvar seus negócios e proteger sua família. E mais: para preservar sua imagem que, uma vez atrelada à política, jamais seria a mesma

Demonizar os políticos é uma burrice

Jogar pedra nos políticos virou um hobby da sociedade brasileira. Seja numa discussão de bar ou num debate nas redes sociais, é senso comum que “os políticos não prestam”, principalmente “aqueles lá de Brasília”. Quantas vezes você já ouviu algum comentário do tipo: “olha só o fulano. Parecia ser tão honesto, mas entrou para a política”. Embora a política não seja uma profissão, muitas pessoas a abraçam como tal, às vezes durante sua vida inteira, com o – em tese – nobre objetivo de representar os interesses da sociedade. Mas, como pode ocorrer em qualquer profissão, há bandidos que se aproveitam de sua função para se enriquecer de forma ilícita. Esses, é claro, precisam ser punidos e execrados publicamente.

Separar o joio do trigo deveria ser a principal missão dos eleitores. Na hora de votar, todos deveriam analisar o currículo dos candidatos – sua obra dentro e fora da vida pública – e, principalmente, sua ficha policial. Nesse aspecto, inclusive, há muita confusão. Para a maioria dos brasileiros que não possuem conhecimento jurídico, uma pessoa denunciada acaba sendo, na prática, tão recriminada quanto uma pessoa condenada. Ignora-se muitas vezes o direito de defesa, que deveria ser um dos pilares básicos da democracia. Faz-se um linchamento moral precipitado, cujo efeito na reputação de um inocente pode ser irreversível.

O ponto mais grave da visão negativa que a sociedade tem dos políticos é o da estigmatização generalizada justamente daqueles que receberam mandatos para representá-la. Quando se coloca todo mundo dentro do mesmo balaio, não sobra ninguém. Além de ser injusta, essa análise banal gera outra consequência gravíssima. Acaba afastando potenciais interessados em participar da política com o receio de que sejam vítimas de um preconceito. Afinal de contas, se os políticos são tão mal vistos por toda a sociedade, por que alguém qualificado, ilibiado e com boas intenções iria querer fazer parte desse grupo?

Vejamos um exemplo concreto. O apresentador de TV e empresário Luciano Huck estava se preparando para uma candidatura à Presidência em 2018. Desistiu – ao menos por ora – do projeto para salvar seus negócios e proteger sua família. E mais: para preservar sua imagem que, uma vez atrelada à política, jamais seria a mesma. Não faço ideia se Huck tem competência para ser um bom político nem entro no mérito sobre suas propostas. A questão fundamental é que as pessoas sérias pensam mil vezes antes de ingressar na política. Como vamos mudar o País se a ojeriza da sociedade com os políticos espanta as pessoas de bem? É por isso que demonizá-los é uma burrice.

Você já reparou que as mães e os pais sempre sonham com seus filhos exercendo profissões como engenheiro ou médico, e jamais incluem a política nesta lista? A exceção está justamente nas velhas oligarquias que vão se perpetuando no Poder, de geração em geração. Como renovar o quadro político sem novos candidatos? Só ficar reclamando de Brasília não resolve. Muito menos generalizar nas críticas. Se você ainda acha que eu estou exagerando, então responda rapidamente a uma questão: você estaria disposto a emprestar a mente brilhante do seu filho ou do seu neto para que, através da política, nós possamos construir um novo País?