Tecnologia

De volta às origens

Professor de inglês e fundador do Alibaba, Jack Ma anuncia a sua saída da gigante chinesa para voltar a se dedicar à educação

De volta às origens

Jack Ma, fundador do Alibaba: “Nenhuma empresa pode depender unicamente de seus fundadores. É o começo de uma era”

Antes de se tornar o homem mais rico da China, com uma fortuna estimada em US$ 36,5 bilhões, Jack Ma era um professor de inglês que lecionava na cidade de Hangzhou. Era a vocação que havia escolhido e estudado em uma faculdade de sua cidade – depois de ter sido rejeitado em dez oportunidades na prestigiosa universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Em 1999, ele trocou a sala de aula pelo escritório ao fundar o Alibaba, um império digital que hoje vale US$ 420 bilhões, atua em diferentes segmentos e dita o ritmo dos negócios de internet no Oriente. Na segunda-feira 10, quando é comemorado o Dia do Professor, na China, Ma decidiu que era hora de voltar às origens e anunciou que vai deixar a companhia para se dedicar ao desenvolvimento da educação e à filantropia. “Nenhuma empresa pode depender unicamente de seus fundadores. De todo mundo, eu deveria saber disso”, escreveu em uma carta aberta. “É o começo de uma era.”

A aposentadoria está marcada para setembro do ano que vem, quando executivo completará 20 anos à frente da varejista digital e permanecerá somente no conselho diretor. A partir dessa data, o Alibaba passará a ser comandado integralmente por Daniel Zhang, que já ocupava o cargo de CEO desde 2015. “Ele demonstrou um excelente talento, visão de negócios e liderança determinada. Sua mente analítica é incomparável”, disse Ma. “Os professores sempre querem que seus alunos os excedam.” Pelas características, em teoria, Zhang parece um substituto à altura para comandar a empresa, especialmente porque Ma já não participava das decisões do dia a dia do conglomerado chinês. “Ma não esteve envolvido nas decisões diárias e a nova administração é capaz de seguir o barco”, diz Sandy Shen, diretor de pesquisas da consultoria Gartner. “É um movimento que estabelece uma estrutura e um sistema de organização sustentável.”

Na prática, porém, a história é outra. Zhang assume as rédeas em um momento de extrema competição para o Alibaba na Ásia. Um exemplo é no setor de pagamentos móveis. O aplicativo Alipay é usado em 53% das transações, mas o WeChat, da rival Tencent, tem 40% do mercado. No e-commerce a disputa é com a JD.com. No primeiro semestre, de acordo com dados da consultoria Statista, a companhia foi responsável por 16,3% das vendas pela internet na China, contra 58,2% do Alibaba. Outro desafio para ser superado está na expansão internacional da empresa. Nos EUA isso se tornou uma missão quase impossível por conta da guerra comercial travada pelos dois países.

O sucessor: no cargo de CEO desde 2015, Daniel Zhang agora terá a missão de substituir o fundador Jack Ma em todas as decisões relacionadas ao Alibaba

Visto como um homem arrojado, ousado e determinado, Ma saiu do nada para se transformar na principal figura de um negócio que superou as dificuldades de empreender em um país comunista e que não vê com bons olhos o crescimento de uma megacompanhia. Em 2014, a varejista registrou o maior IPO da história do mercado de capitais ao captar US$ 25 bilhões na Bolsa de Nova York. O recorde persiste até hoje. Em 2017, a gigante de Hangzhou ampliou o seu valor de mercado em 62%, chegando a US$ 433 bilhões. Em junho, a avaliação da BABA teve mais uma alta histórica, atingindo US$ 553,9 bilhões. O valor foi registrado antes dos resultados do segundo trimestre do ano, que ficaram abaixo das expectativas dos acionistas.

Em números, a operação de comércio eletrônico chinesa só fica atrás da americana Amazon. Mas a companhia de Jeff Bezos, que chegou recentemente a ser avaliada em US$ 1 trilhão, nunca conseguiu fincar de vez os pés no mercado chinês. A empresa de Seattle registrou apenas 0,7% das vendas locais nos primeiros seis meses do ano. Outra companhia que não conseguiu fazer sombra para o Alibaba na China foi o eBay. A tentativa, aliás, rendeu uma alcunha curiosa para Ma. Em 2003, às vésperas da incursão americana, o eBay era classificado como um tubarão que devorava seus concorrentes. Na época, Ma apelidou a si mesmo como “o crocodilo do rio Yangtzé”, em referência ao rio que banha a cidade Hangzhou, onde está a sede do Alibaba. O réptil levou a melhor.

Se a trajetória inspiradora e os números jogam contra qualquer sucessor de Ma, a cultura chinesa também não parece ser um fator que vá ajudar na transição de comando. Isso porque as grandes empresas do país costumam ser lideradas por seus fundadores. Avaliada em US$ 374,8 bilhões, a Tencent é comandada por Ma Huateng. O serviço de buscas Baidu, que vale US$ 76,5 bilhões, tem o cofundador Robin Li como seu homem-forte. Principal rival da Uber, a Didi Chuxing, que tem capital fechado e está avaliada em US$ 80 bilhões, segue liderada por Cheng Wei. “Esse movimento é uma quebra de paradigma”, diz In Hsieh, cofundador da China Brazil Internet Promotion. “Ma nunca será desassociado ao Alibaba. Ele é o rosto da empresa.”

Por outro lado – principalmente do globo terrestre –, existe uma tendência para que os fundadores deixem o batente. O mercado de tecnologia tem bons exemplos. São os casos de Steve Jobs (1955 – 2011), Michael Dell e Jerry Yang. Os três saíram de suas empresas, mas retornaram anos depois por conta de problemas com seus sucessores. “Foram executivos que não conseguiram liderar os negócios de maneira adequada”, diz Shen, do Gartner. “Os fundadores precisam voltar para recolocar as companhias nos trilhos.” Isso nem sempre deu certo, como no caso do Yahoo (veja mais detalhes no quadro abaixo). Já quem conseguiu fazer uma transição adequada foi Bill Gates. O fundador da Microsoft passou o bastão da companhia para Steve Ballmer e, posteriormente, para Satya Nadella. Gates, que já foi o homem mais rico de seu país, se aposentou para dedicar-se às atividades filantrópicas. É uma história que, para Ma, felizmente soa familiar.