Estilo

De volta aos trilhos

O lendário Orient-Express anuncia novas rotas e suítes para a temporada 2021, com passagens que podem passar dos R$ 50 mil.

Crédito: Divulgação

Imortalizado pela escritora Agatha Christie no romance Assassinato no Expresso do Oriente, o trem mais luxuoso do mundo resiste ao tempo com incomparável aura de exclusividade. Desde que entrou em operação, em 1883, ligando Paris a Istambul (então Constantinopla), sua rota foi alterada inúmeras vezes. Nos últimos anos, seus 17 vagões em estilo art déco passaram a ligar a cidade turca a Londres, entre março e novembro. Em 2021, no entanto, as partidas iniciais foram impactadas pelas restrições impostas pela Covid-19. A parada forçou os proprietários a planejar novos destinos do Orient-Express na Europa, com a inclusão de cinco pontos de embarque: Roma, Florença, Genebra, Bruxelas e Amsterdã. Também passou a integrar a programação uma nova rota, de Veneza a Amsterdã, passando por Paris e Bruxelas.

A pausa forçada permitiu ainda restaurar os vagões e incluir três novas grand suites no mais antigo deles, fabricado em 1926. Até então, as cabines Paris, Veneza e Istambul, inauguradas em 2018, eram as únicas da categoria superior. A reforma permitiu dobrar o número de grand suites. As mais recentes receberam nomes de três capitais do Leste Europeu — e a decoração varia de acordo com a cidade homenageada. A suíte Praga tem mosaicos de referência cubista em tons de ouro e marrom. Na Viena, o design é clássico, com inspiração imperial em tons de verde-esmeralda dourado. E a Budapeste reinterpreta os estilos gótico e otomano. Todas têm piso aquecido, comissário dedicado 24 horas, chuveiros em boxes com revestimento de mármore, áreas de estar e de jantar, cama de casal e champagne à vontade. Os bilhetes estão entre os mais caros já vendidos para um trajeto de trem: quatro noites custam a partir de R$ 50 mil, por pessoa.

HORA DE EMBARCAR Com a operação do Orient-Express interrompida até o fim do mês, a rede de hotéis Belmond, controlada pelo grupo de luxo LVMH, criou outra rota e incluiu cinco novas cidades nos trajeto entre Londres e Istambul. (Crédito:Divulgação)

Ao som do piano ao vivo, com alta gastronomia e os melhores vinhos e destilados nas cartas, o requinte é a marca das viagens no Orient-Express. O código de vestimentas, por exemplo, bane o uso de jeans a qualquer momento, determinando traje esporte fino durante o dia e black-tie à noite.

A empresa que cuida de tudo isso pertence à rede de hotelaria Belmond, adquirida pelo conglomerado de luxo LVMH em 2018, por US$ 2,6 bilhões. Ainda que as cabines simples ou duplas sejam nostalgicamente fascinantes e muito confortáveis, com poltronas estofadas com tecidos sofisticados, painéis de madeira brilhante e riqueza de detalhes, suas instalações não têm recursos superluxuosos. Nem mesmo banheiro privativo. Os vagões, originais da década de 1920, não foram pensados para comportar lavabos ou duchas. Cada cabine tem pia com água quente e fria, toalhas e sabonete. E no fim de cada vagão há um toalete. Configuradas como lounge durante o dia para que se possa apreciar as paisagens pela janela, as cabines são convertidas à noite em dormitórios com camas confortáveis, toalha, roupão e amenidades. Cada viagem é planejada para que o trem passe pelas paisagens mais bonitas à luz do dia.

NOVO NORMAL Se o turismo global foi seriamente impactado pela pandemia, no segmento das viagens em trens luxuosos a mudança não chegou a ser dramática, apesar da interrupção dos serviços. Com parte da população vacinada, assim que as restrições começarem a diminuir, o ritmo será retomado, ao que tudo indica, normalmente: a maior parte das passagens para a temporada 2021 no Orient-Express já foi vendida, com vários trechos esgotados.

Para atender à demanda reprimida por viagens luxuosas, empresas como a britânica Railbookers, especializada em roteiros de trem personalizados, incorporaram mais destinos, excursões e experiências gastronômicas de luxo aos itinerários. O resultado é um aumento surpreendente na busca por férias espetaculares.

Segundo o vice-presidente da Railbookers, Jim Marini, antes da Covid-19 era comum o mesmo viajante reservar uma cabine do Orient-Express em um ano e o Grand Glacier Express [famoso trem panorâmico suíço] alguns anos depois. “Agora, vemos uma combinação inédita de itinerários em acomodações mais luxuosas”, afirmou Marini. De acordo com o executivo, a taxa média de vendas da empresa é hoje 56% mais alta do que no mesmo período em 2019 e aumentou 91% para as viagens de 2022.

Seja nas viagens curtas, de apenas uma noite, seja nas mais longas, qualquer estadia no Venice Simplon-Orient-Express (esse é o nome completo) está muito longe de ser tediosa. Enquanto paisagens e culturas se sobrepõem conforme o trem avança em direção à próxima parada, o clima traz uma nostalgia palpável, como se fosse possível esbarrar em Josephine Baker, Albert Einstein ou na própria Agatha Christie a caminho do piano bar. Os passageiros ilustres de hoje podem ser outros, mas a atmosfera de glamour daqueles tempos permanece ali.