De onde virá o crescimento?

Numa radiografia setorial, alguns analistas estão chegando à conclusão de que a tarefa de atingir resultados mais consistentes em 2019 começa a ficar árdua, diante da constatação de que boa parte do tempo já passou e a economia ainda não reagiu

De onde virá o crescimento?

Essa pergunta começou a martelar incessantemente na cabeça dos que acompanham, ponto a ponto, mês a mês, a evolução do PIB brasileiro e de seus principais indicadores, desde que foram divulgados os números pífios do desempenho no ano passado. Numa radiografia setorial, alguns analistas estão chegando à conclusão de que a tarefa de atingir resultados mais consistentes em 2019 começa a ficar árdua, diante da constatação de que boa parte do tempo já passou e a economia ainda não reagiu. Os investidores não se predispõem, ainda, a investir e sequer as atividades garantidoras da parcela mais robusta do Produto Interno irão repetir ou superar o ritmo praticado em 2018.

Caso do agronegócio que, certamente, terá safra menor. Estima-se quebra da ordem de 15% (e os mais pessimistas falam em 30% em setores de grãos como soja e milho). Não são alvissareiras as notícias nesse sentido. O Estado indutor de desenvolvimento não vem funcionando. O Governo hesita e demora a investir. As PPPs estão praticamente paradas. As estatais, em compasso de espera, sem uma orientação clara do Planalto para desengavetarem projetos. O mesmo ocorre nas áreas naturalmente geradoras de emprego, como a construção civil, a mineração e o varejo em geral, que espera até agora pelo consumo que não vem.

Com o início confuso do Governo e sem diretrizes claras das prioridades para motivar a iniciativa privada, o País patina em ritmo lento, numa quase estagnação por obra e culpa do estilo Bolsonaro de travar as decisões. O ministro Paulo Guedes, de vocação financista, mais preocupado em reduzir dívida do que em liberar financiamentos, também acaba contribuindo para essa relativa apatia dos ânimos nesse começo de 2019. Já se sabe que as reformas vão demorar. Ao menos até meados do próximo semestre. E enquanto nada é feito, o empresariado segue perigosamente em modo de espera. Não há confiança para empregar. Por conta disso, também mais e mais brasileiros vão ficando à margem do mercado.

Não há qualquer programa oficial de incentivo às contratações, além da mudança nas leis trabalhistas promovida ainda na gestão anterior, de Michel Temer. Esse imobilismo tem levado muitos analistas a reverem para baixo as apostas de PIB de 2019. Como no ano passado, elas inicialmente estavam em patamares bem promissores e, numa série de revisões em número recorde, por quatro vezes já foram rebaixadas e muitos começam a falar em um índice ao redor de 2%. Ninguém decerto parece estar pensando o Brasil do ponto de vista macro e essa miopia de visão pode custar bem caro lá na frente. Sem destravar crédito, sem estimular as estatais na expansão de negócios, sem promover incentivos, gerar trabalho, fazer em suma a roda girar, nada, decerto, sairá do lugar.

(Nota publicada na Edição 1111 da Revista Dinheiro)


Sobre o autor

Carlos José Marques é diretor editorial da Editora Três e escreve semanalmente os editoriais da revista DINHEIRO


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