Negócios

De olho no futuro e no passado

Pernambucanas expande oferta de soluções financeiras em seu cartão e volta às raízes com chegada ao Nordeste.

Crédito: Claudio Gatti

MOMENTO PROPÍCIO Sergio Borriello, CEO da varejista, aproveita crise sanitária para acelerar estratégias de crescimento e diversificação. (Crédito: Claudio Gatti )

Para a maioria das empresas, inovar é olhar para a frente. Para os visionários, é olhar para todos os lados. Incluindo o passado. De certa forma, é assim que a tradicional rede de 113 anos Pernambucanas se posiciona. E fará isso em duas frentes. No universo de serviços financeiros e na expansão física. “Estamos num processo de constante inovação, sem deixar de lado nossa tradição”, afirmou Sergio Borriello, CEO da rede. Tudo tendo em mente os novos hábitos de consumo.

Isso inclui a relação com modelos de pagamentos. Hoje, o número de cartões na carteira é quase proporcional ao número de aplicativos no celular. Por esse motivo a nova corrida das grandes redes varejistas brasileiras é transformar as lojas em serviços financeiros. Da mesma maneira que suas concorrentes, como a Marisa, que anunciou recentemente a criação do MBank, a Pernambucanas adiantou, em entrevista à DINHEIRO, o lançamento do novo cartão múltiplo. “Há uma grande expectativa nesse cartão por oferecer todas as funcionalidades em um só”, afirmou Borriello. “Ele será emitido em qualquer loja, em apenas sete minutos.”

O novo serviço amplia as ferramentas já oferecidas pela lojista em transações no débito ou crédito, agora também em compras internacionais e on-line, além de proporcionar acesso a descontos exclusivos e cashback para utilizar dentro da loja. Essa estratégia mantém o consumidor no círculo de consumo da varejista. Atualmente, a carteira da Pernambucanas tem 5,6 milhões de cartões ativos. O diferencial, na opinião do executivo que comanda a companhia, está na grande capacidade de oferecer crédito às classes C e D, uma tradição da empresa.

Silvio Santana, cofundador da Mola Corban, plataforma de soluções para correspondentes bancários, concorda. “Os braços financeiros sempre ajudaram os varejistas a criar relacionamento com o cliente e a minimizar os custos de transações”, disse o especialista. “Agora eles perceberam que isso também pode ser uma nova fonte de receita.” Santana explica que esse maior interesse por serviços financeiros foi crescendo com a facilitação de acesso à tecnologia, principalmente por meio das fintechs.

Divulgação FRENTE FINANCEIRA Nas 428 lojas vai ser possível emitir novo cartão múltiplo em sete minutos. Serviço pode ser utilizado em outros comércios. (Crédito:Divulgação)

DIGITAL A tecnologia também abriu espaço para a estratégia figital, a nova queridinha do varejo brasileiro. Na Pernambucanas, as vendas utilizando a integração de canais representaram, em 2020, 14,6% do total, contra 9% do ano anterior. Para dar conta de tanto crescimento, o centro de distribuição da empresa em Araçariguama (SP) ganhou novos equipamentos e uma readequação do espaço. Dos 1,2 mil m2 utilizados anteriormente, a companhia passou a trabalhar em 4,5 mil m2. Uma redistribuição com as empresas parceiras de transporte e logística também foi feita e deve resultar na redução do tempo de entrega dos produtos para poucos dias.

Mesmo com o figital crescendo num ritmo forte, a estratégia digital puro-sangue 100% continuará, em especial com os aprendizados deixados pela pandemia. O fechamento temporário das 428 lojas próprias durante o ano passado fez a rede varejista registrar crescimento de 1.080% no e-commerce em relação a 2019 – insuficiente para evitar a queda de 10% no faturamento, que fechou 2020 em R$ 3,8 bilhões. Mas o ritmo no digital aparenta ser sem volta. No primeiro semestre deste ano, houve elevação de 600% sobre o ano passado. Número que deve crescer ao longo do ano, já que em junho a empresa anunciou parceria com a Amazon. A platafoma recebe, inicialmente, produtos de vestuário, cama, mesa e banho.

Toda essa estratégia olhando para o novo vem conjugada a uma movimentação que olha para o passado. A rede varejista foi fundada em 1908 em Pernambuco, mas somente neste ano voltou para a região Nordeste, com a inauguração de uma loja na Bahia. “É um reaproveitamento da memória afetiva que a marca tem com o Brasil”, disse o CEO da rede. O plano de nacionalização da rede teve início em 2017, com nove lojas — durante a pandemia esse número chegou a 38 novas unidades. Até o final deste ano a varejista prevê abrir mais 50, num investimento de R$ 200 milhões. A crise gerada pela Covid beneficiou esse movimento, principalmente com a facilidade de encontrar boas localizações. “Talvez esse seja o momento mais importante para evoluirmos rapidamente”, afirmou Sergio Borriello. Para ele, a experiência de uma companhia centenária traz a tranquilidade de que toda crise passa.