Davos à brasileira

Para o Brasil, a reunião anual de Davos, que congrega alguns dos mais estrelados financistas, empresários e políticos do mundo, se converteu em palco das novas lideranças.

Davos à brasileira

Para o Brasil, a reunião anual de Davos, que congrega alguns dos mais estrelados financistas, empresários e políticos do mundo, se converteu em palco das novas lideranças. Lá pontificou, em especial, a figura do governador de São Paulo, João Doria, que com uma agenda intensa, marcada por mais de 30 audiências, arrebatou bilhões em investimentos de multinacionais para a sua região. Doria é o caso típico do político que vem costurando aos poucos, pragmaticamente, a imagem do gestor que sabe atuar em busca de resultados práticos. Fora das picuinhas e discussões ideológicas rasteiras, que não levam a nada. Mirou Davos como oportunidade. Saiu com a bagagem recheada e vai assim se credenciando em definitivo para voos mais altos. Molda milimetricamente a figura do governante ideal. O também sempre lembrado como presidenciável, apresentador Luciano Huck, desceu no vilarejo suíço para hastear bandeiras de renovação e sustentabilidade. Falou em movimentos cívicos dinâmicos que apostam na nova geração. Apelou por esforços contra a desigualdade e a pobreza. Tanto um como o outro, Doria e Huck, percebem o vácuo de comando e entendem a necessidade de atender às demandas sociais que vão se formando. A ausência do mandatário Jair Bolsonaro no encontro foi lamentável, mas é reflexo do atual jogo de forças. Ele gosta de atuar no campo das pautas de costumes, polêmicas e menos concretas, deixando de lado os reais problemas a enfrentar. Evitou Davos temendo ser tratado como pária por suas posições controversas sobre o desmatamento e o controle climático. Já havia sido deixado de lado na edição anterior do evento quando, sem ter o que falar, discursou por meros seis minutos e frustrou a comunidade que aguardava ansiosamente pelas diretrizes do recém-eleito caudilho dos trópicos. Na edição da “Davos verde” da semana passada, Bolsonaro decerto não conseguiria melhor acolhida. Foi o típico caso da ausência que preencheu uma lacuna. A distância que o separa da atuação de lideranças como Doria e Huck é abissal. Ao mandar no seu lugar o ministro Paulo Guedes, como representante que tentava vender um Brasil melhor, se viu em maus lençóis quando o mesmo arranjou uma desculpa sem cabimento para justificar as queimadas recordes. Guedes classificou o fenômeno como um efeito colateral da pobreza. Não convenceu. Foi contestado. E de dinheiro a mais para o País não viu a cor. O interesse natural pelo que ocorre e sai de conclusão do Fórum Econômico, realizado há 50 anos naquela aprazível estação nevada, tem razões de ser. Ali, os players do tabuleiro global realmente tentam encontrar soluções por um mundo melhor. Bolsonaro não parecia mesmo disposto a se envolver nessa cruzada. Abriu espaço para quem realmente tinha algo a oferecer e a buscar. Pior para ele.

(Nota publicada na edição 1155 da Revista Dinheiro)

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Sobre o autor

Carlos José Marques é diretor editorial da Editora Três e escreve semanalmente os editoriais da revista DINHEIRO


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