Negócios

Das pranchetas ao R$ 1 bilhão

Há 25 anos, eles criaram uma firma de arquitetura para escritórios. Hoje, celebram o faturamento bilionário, com prêmios internacionais, 800 funcionários e uso de Inteligência Artificial na tomada de decisões

Crédito: Gabriel Reis

Dupla dinâmica: em 25 anos de parceria, Athié e Wohnrath (à dir.) se tornaram referência nacional (Crédito: Gabriel Reis)

Parece que foi ontem. Em junho de 1994, o arquiteto Sérgio Athié, hoje com 60 anos, e o administrador Ivo Wohnrath, 58, haviam acabado de inaugurar o escritório de arquitetura que leva seus sobrenomes. À época, a empresa tinha seis funcionários, já incluindo os dois sócios. Hoje, exatos 25 anos depois, a Athié Wohnrath (AW) é uma potência com 800 colaboradores diretos, cerca de 15 mil indiretos — engenheiros, mestres de obras, eletricistas — e faturamento anual de R$ 1 bilhão. Para alcançar números tão eloquentes, a dupla de empresários tem como fundamento uma filosofia. “Lutamos para fazer sempre o melhor possível, para todos os envolvidos: nossos funcionários, clientes e fornecedores”, diz Wohnrath. Os resultados não deixam dúvidas de que, na prática, a teoria tem obtido êxito. No início, porém, a meta era bem menos ousada.

Athié e Wohnrath haviam trabalhado juntos numa empresa de móveis, em São Paulo. Quando fundaram a AW, o objetivo era desenvolver exclusivamente projetos para interior de escritórios. “Decidimos que faríamos de tudo para nos tornarmos os melhores desse mercado no Brasil”, lembra Athié. Para tanto, eles focaram todos os esforços em encontrar a resposta a uma pergunta simples e crucial: “O que podemos fazer, além do que a concorrência faz, para melhorar a qualidade do nosso serviço e aumentar a satisfação do cliente?”. Entre as medidas tomadas a partir dessa questão, passaram a cuidar de tudo nos projetos, inclusive de detalhes como piso, forro, instalação elétrica e hidráulica. Tudo passava pelo crivo dos dois sócios, que antes só cuidavam do lay-out dos projetos — como faziam seus concorrentes.

A estratégia deu certo. “Os clientes adoravam, mas alguns tinham dificuldade de entender a planta técnica que apresentávamos já nas primeiras reuniões”, lembra Athié. Eles implantaram, então, outra inovação. “Conseguimos ‘traduzir’ a planta aos nossos contratantes. Explicando tudo, de forma simples”. Um dos pontos mais importantes para qualquer cliente e que passou a ser um dos diferenciais da AW era a previsão dos custos da obra e, mais ainda, rigor máximo para cumprir o orçamento e o cronograma estabelecidos. “Essa era uma demanda muito forte do mercado corporativo. À época, nenhum escritório de arquitetura fazia isso no Brasil”, conta Wohnrath. Não deu outra. Os clientes ficavam satisfeitos, elogiavam a praticidade, o cumprimento de prazos e indicavam os serviços da AW a terceiros. Assim, a empresa ia crescendo. E até hoje, segue a regra de rigor máximo na observância dos custos e prazos estabelecidos.

Segundo a dupla, um dos seus maiores orgulhos é poder afirmar que nunca atrasou uma entrega. “Nós somos os especialistas. Somos pagos para atender às expectativas dos clientes. Temos de garantir o planejado”, destaca Wohnrath. De tão seguros quanto a isso, eles estabeleceram uma norma audaciosa e arriscada: em caso de atrasos ou falhas no projeto por culpa da AW, a própria empresa arca com eventuais custos extras. Não é balela. Em 2018, a companhia tirou da conta corrente nada menos do que R$ 20 milhões para corrigir uma falha técnica num dos seus projetos. “Nosso cliente não paga por erros que nós possamos cometer. Nós arcamos com esse prejuízo”, ressalta Athié.

 

PULO DO GATO As decisões tomadas pelos dois sócios surtiram efeito. Apenas cinco anos após sua fundação, a AW já estava consolidada no mercado nacional, com operações em cerca de dez estados e trabalhos em cidades como Belém, Curitiba, Fortaleza, Natal, Salvador, São Paulo, Recife e Rio de Janeiro. Tudo estava indo muito bem, obrigado. Mas eles queriam mais. Assim, em 1999, resolveram expandir sua área de atuação. A partir daquele momento, a AW não se limitaria a desenhar projetos de arquitetura. A companhia passaria, ela mesma, a erguer edifícios comerciais, residenciais, fábricas, hospitais. “Podemos dizer que foi o nosso pulo do gato”, declara Wohnrath, ressaltando que o passo foi fundamental para a empresa se tornar a potência que é hoje. Além do faturamento bilionário, a AW tem, atualmente, projetos executados em diversos países, entre eles Argentina, Chile, Colômbia, México e Estados Unidos.

A ideia de entrar no mundo da construção civil não surgiu por acaso. Tudo começou quando os donos da empresa, com o objetivo de oferecer melhores serviços aos seus clientes, passaram a acompanhar de perto o trabalho das construtoras. O primeiro grande passo para essa nova fase foi dado quando a Volkswagen exigiu da construtora WTorre, que acabara de contratar para erguer um centro de logística em Vinhedo (SP), que o projeto arquitetônico fosse assinado pela AW.

O sucesso foi tão grande que a parceria com a WTorre foi repetida em outros 10 trabalhos, inclusive de outras grandes obras, como uma fábrica de trens e outra de próteses. Além disso, Athié e Wohnrath recebiam queixas constantes de seus clientes, reclamando de construtoras – especialmente, em relação a atrasos e aumento de custos. “Naquele momento, percebemos que tínhamos de passar a atuar também na construção civil”, diz Wohnrath. O resultado da empresa no ano passado não deixa dúvidas de que a decisão foi acertada. Do faturamento de R$ 1 bilhão, cerca de 90% vieram dos ganhos obtidos com a construtora. Para este ano, a previsão é de que a companhia fature 20% mais, chegando a R$ 1,2 bilhão.

SOCIAL E DIGITAL São vários os fatores que explicam resultados tão positivos e expressivos. Além da já citada obstinação em entregar o melhor serviço possível aos clientes, a AW também prioriza a satisfação dos funcionários. Desde sua fundação, a empresa já oferecia benefícios como 13 salário, férias remuneradas, vale-refeição e plano de saúde, quando poucos escritórios de arquitetura tinham essa filosofia. Hoje, além de tudo isso, a equipe conta com programa de participação de resultados: 20% do lucro líquido são divididos entre os colaboradores.

A AW também é atuante nas questões sociais. Apoiadora da ONG Alquimia, que trabalha com crianças carentes, a empresa projetou e construiu a sede da instituição, em São Paulo, onde são atendidas cerca de 100 crianças. E, como qualquer companhia moderna e antenada, também investe forte no digital. Para tanto, criou a AW Digital, que administra toda a área de tecnologia, desenvolve startups e vende serviços – este ano, a AW Digital deve faturar, sozinha, R$ 50 milhões. Dos monitores dessa equipe saiu uma das novidades mais interessantes da firma.

Trata-se de um programa de Inteligência Artificial (I.A.) capaz de identificar, de acordo com a experiência e as aptidões de cada funcionário, as pessoas certas para determinado projeto. “Assim, temos sempre a melhor e mais adequada equipe em cada trabalho. E garantimos a qualidade do que fazemos e a satisfação do cliente”, diz Athié. “Quando tínhamos 50 funcionários, sabíamos as habilidades de cada um e podíamos montar o time certo de acordo com a tarefa. Hoje, com tanta gente na casa, isso seria impossível”, completa Wohnrath. E assim, em 25 anos, a AW saiu de uma equipe de 6 pessoas e faturamento tímido para uma potência do setor, premiada internacionalmente, com 800 funcionários, projetos espalhados pelo planeta e faturamento bilionário. “Foi tudo muito rápido”, eles dizem. Parece que foi ontem.


71 vezes campeã da sustentabilidade

Considerada a mais importante certificação de sustentabilidade na construção civil do mundo, o Leadership in Energy and Environmental Design (Leed) – em português, Liderança em Energia e Design Ambiental – foi criado em 1993 pelo United States Green Building Council (USGBC), o Conselho de Construções Verdes dos Estados Unidos –, organização privada sem fins lucrativos. O objetivo é reconhecer e valorizar o trabalho de empresas que desenvolvem projetos e erguem edifícios com foco em sustentabilidade.

Economia de energia, reutilização da água, ações sociais, otimização de transporte e uso de material reciclado e/ou reciclável são alguns dos tópicos analisados pela equipe de especialistas do USGBC. A placa em formato circular (acima) que o Leed entrega às companhias que recebem o seu selo é vista como o Oscar da sustentabilidade corporativa do segmento da construção no planeta. Há quatro categorias de pontuação: Básico, Silver, Gold e Platinum. Com 71 prêmios, a Athié Wohnrath é a brasileira com o maior número de certificações, das quais sete são Platinum.