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Dados para todos

Evento global sobre analytics promovido pela SAS estimula a democratização da tecnologia em todos os setores da sociedade, do mundo corporativo às instituições acadêmicas

Dados para todos

O centro de convenções de Dallas, no Texas (EUA), foi invadido por um tsunami de tecnologia e inovação entre os dias 28 de abril e 1º de maio, com um dos eventos mais importantes do planeta sobre análise de dados — ou, como muitos preferem dizer, analytics. O encontro foi promovido pela SAS (Statistical Analysis System), criadora de alguns dos softwares de bancos de dados mais usados no mundo e uma das pioneiras no segmento de inteligência digital de negócios. Uma empresa de tecnologia que, aliás, está bem longe do estereótipo “nós-vamos-dominar-o-mundo”, comum aos jovens titãs que habitam o Vale do Silício. Entre 1976 e 2001, a organização funcionou como um instituto. E ainda hoje é conduzida por um de seus cofundadores, Jim Goodnight, um simpático senhor de 76 anos.

Formatado no padrão do South by Southwest — ou SXSW, festival anual que ocorre na quase vizinha Austin, também no Texas —, o fórum global apresentou diversos painéis simultâneos, com cases e estudos desenvolvidos a partir das plataformas de análise de dados da SAS. Workshops “mão na massa” e uma feira com exemplos de sucesso em diversas indústrias também bombaram.

Star techs: Schabenberger, da SAS (à direita): tecnologia como solução de problemas. À esq., Reshma Saujani, da ONG Girls Who Code, que ensina meninas a programar

“Queremos democratizar a análise de dados. Ela não é mais um domínio exclusivo dos profissionais capazes de programar computadores. Se a transformação digital é inevitável, como todos concordam, qualquer um pode contribuir com a ciência de dados”, diz Oliver Schabenberger, vice-presidente e COO global da SAS. O executivo também enfatiza que a apresentação de exemplos inspiradores é um dos principais focos do encontro. “Esse é o tema da nossa conferência: a tecnologia de análise de dados em ação, solucionando problemas.”

FASCINANTE E PERIGOSO O cardápio deixou claras a amplitude e a importância da análise de dados. Da medicina ao varejo, da educação ao sistema financeiro, vivemos em um mundo conectado, no qual as pegadas digitais que deixamos pelo caminho são transformadas em dados sobre cada um de nós. Um tema tão fascinante quanto potencialmente perigoso. Exatamente por isso, é cada vez mais importante disseminar conhecimento sobre ele.

A participação de brasileiros foi uma das marcas do fórum. Empresas como a TIM Brasil, por exemplo, tiveram a oportunidade de apresentar seus casos. E nossos acadêmicos também puderam subir ao palco para mostrar seus trabalhos. Um deles foi Bruno Paixão, cientista de dados da Câmara Legislativa do Distrito Federal. Ele analisou as postagens feitas por todos os candidatos nas redes sociais durante a última eleição presidencial. E mostrou com impressionante clareza como o desempenho digital de cada um deles foi decisivo na corrida eleitoral. “O fórum da SAS foi uma oportunidade única de entrar em contato com o que acontece no cenário mundial”, diz o cientista. “Também saí com a consciência de que o Brasil não está atrás dos outros países em termos de capital intelectual, só precisamos de um ambiente mais propício à inovação no País”, conclui.

Tsunâmi tecnológico: centro de convenções de Dallas, onde a SAS realiza sua agenda repleta de palestras, painéis, apresentação de cases e workshops tipo ‘mão na massa’

Como todo grande evento, o SAS Global Forum será lembrado pelo brilho de suas maiores estrelas. Uma delas foi Reshma Saujani, advogada e candidata derrotada ao Congresso norte-americano, mais conhecida por ser a criadora da ONG Girls Who Code — ou Garotas que Escrevem Códigos. Para ela, a tecnologia é a chave para o sucesso das próximas gerações. “Hoje, a diferença de gênero nas empresas digitais é um problema globalizado”, afirma Saujani. “Nossa iniciativa tem o objetivo de evitar que as meninas fiquem com esse buraco em sua educação. Por isso as ensinamos a escrever códigos e analisar dados.”

Mas niguém brilhou mais que Michio Kaku, físico teórico (leia a entrevista ao lado). Para ele, que apresentou suas previsões para os próximos 20 anos, nossas vidas já foram definitivamente transformadas pela tecnologia. “Hoje, um smartphone pode te dar qualquer tipo de informação, até dizer se você está sendo traído. No futuro, uma lente de contato inteligente te dirá absolutamente tudo sobre um produto, um lugar ou uma pessoa. Bastará perguntar”, afirma o cientista. E Kaku se mostra otimista ao ressaltar um dos aspectos positivos do avanço avassalador da tecnologia — ao menos, durante as próximas décadas. “A internet saberá todos os dados do consumidor e do comerciante. Por isso as indústrias terão de desenvolver produtos e serviços cada vez melhores, elas saberão quais são as necessidades reais do público por meio da análise de dados”, decreta o físico. “E isso levará a um aperfeiçoamento do capitalismo, a um capitalismo perfeito.” A conferir nas cenas do próximo capítulo.


“A inteligência artificial não vai superar a interação humana”

Desde a morte de Stephen Hawking (1942-2018), o físico teórico norte-americano Michio Kaku, 72 anos, tornou-se uma das faces mais pop da ciência — seja na lista de best sellers do The New York Times ou em um documentário da BBC. Pertence, portanto, a uma linhagem que conecta Isaac Newton a Carl Sagan, passando por Albert Einstein e Neil deGrasse Tyson. Na entrevista a seguir, Kaku fala mais sobre sua visão do futuro, tema de sua apresentação no SAS Global Forum.

O senhor afirma que, nos próximos 20 anos, a aceitação ou a negação da transformação digital dividirá a humanidade entre perdedores e vencedores. O que fazer com os perdedores?
As pessoas jamais serão inúteis. E a chave para transformá-las é a educação. O avanço dos robôs é iminente, e eles serão melhores que os humanos para realizar algumas tarefas. Mas precisaremos de pessoas para montá-los, limpá-los, mantê-los. Afinal, a indústria robótica será maior que a automobilística. Isso vai gerar muitos empregos básicos.

Como será o futuro do comércio?
O segmento tem evoluído muito com o investimento de empresas como a Amazon. Mas a Inteligência Artificial não vai superar a interação humana. Advogados robôs simplesmente não funcionam. Os robôs poderão responder às perguntas mais simples numa loja, mas as questões importantes ainda serão feitas a um funcionário. O capital intelectual, da mente, será a coisa mais valorizada nos profissionais do futuro.

Para o senhor, um dia as máquinas ganharão consciência e serão senhoras do universo?
Mark Zuckerberg (criador do Facebook) costuma dizer que a Inteligência Artificial cria empregos e traz prosperidade. Por sua vez, Elon Musk (empreendedor sul-africano à frente da Tesla e da Space X) afirma que não é bem assim. Para ele, estamos falando de nossos sucessores existenciais e, por isso, a Inteligência Artificial pode ser perigosa. Ambos têm razão — Zuckerberg no futuro próximo; Musk, daqui um século. Olhando mais adiante, acredito que acabaremos nos fundindo às máquinas. Seremos super-humanos, capazes de viver em Marte ou em qualquer lugar do universo.

Quais são os maiores obstáculos para a evolução da humanidade?
Há três problemas, criados por nós mesmos: aquecimento global, epidemias e proliferação nuclear. Temos de conter nosso desejo pela autodestruição. E o único caminho para isso é a democracia, a informação.