Edição nº 1099 07.12 Ver ediçõs anteriores

Da lavoura à mesa. Sem intermediários

Universitários de Irecê (BA) desenvolvem aplicativo para facilitar o comércio de alimentos cultivados por pequenos agricultores da região

Da lavoura à mesa. Sem intermediários

A AfroMerc, criada por Deive (a partir da esq.), Axel e Damarcio, foi a startup vencedora da Maratona de Tecnologia e Inovação Afro.Futurista

Poucos duvidam do peso da agricultura familiar, no Brasil. Contudo, quando se coloca este setor em números sua importância se torna ainda mais eloquente. Segundo dados do Censo Agropecuário 2006, 70% dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros provêm de pequenas e médias propriedades, responsáveis por um movimento financeiro anual de R$ 7 bilhões. Contudo, a falta de um sistema eficiente de conexão do campo com os distribuidores (B2B) ou os consumidores finais (B2C) faz com que uma parte expressiva da renda agrícola fique represada nas atividades meio. Os famosos atravessadores.

Foi para ajudar a mudar essa equação que três jovens moradores de Irecê (BA) usaram os conhecimentos em Tecnologia da Informação e da Comunicação (TIC) para criar o AfroMerc, um aplicativo (app) destinado a conectar o produtor diretamente aos consumidores. “Hoje, o pequeno e médio agricultor tem uma parte importante de seu ganho apropriado pelo atravessador”, diz Axel Jeferson Menezes de Oliveira, 24 anos, que lidera o time de estudantes do curso de análise de desenvolvimento de sistemas, no Instituto Federal de Educação da Bahia (IFBA – campus Irecê). Os dois sócios são Deive Moraes de Amaral, 23 anos, e Damarcio Lira Nunes, 21 anos.

Neto e filho de agricultores, Axel cresceu vendo as dificuldades da família a cada safra colhida. “A partir desta plataforma, os ganhos podem triplicar”, estima. Apesar de o AfroMerc se encontrar ainda em fase de ideação (desenvolvimento, na linguagem do mundo das startups), o aplicativo já desperta a atenção do mercado. Prova disso é que eles venceram o desafio final da Maratona de Tecnologia e Inovação, realizado no âmbito da Ocupação Afro.Futurista II na segunda-feira (12/11), na sede da Aceleradora Vale do Dendê, em Salvador. A disputa reuniu competidores das três cidades pelas quais a Ocupação passou: a capital baiana, Irecê (importante polo agrícola) e Seabra (conhecida como a porta de entrada da Chapada Diamantina).

O pitch de cada um dos três times finalistas impressionou a banca de jurados. “Todos eles demonstraram uma grande preocupação em apresentar projetos viáveis, do ponto de vista empresarial, e focados na solução de problemas locais”, destaca o professor-doutor em administração Helio Santos, cofundador da Holding Vale do Dendê, responsável pelo evento ao lado do Instituto Mídia Étnica.

Interface amigável: plataforma, que está em fase de testes, pode ser acessada por app ou na tela do computador, e emite avisos em SMS de oportunidades de negócios

De fato, ao longo da itinerância da Ocupação foi ficando evidente para seus realizadores a relação íntima dos estudantes, especialmente os universitários, com a tecnologia. “As ideias e protótipos criados pelos jovens de Irecê e Seabra só reforçaram o quanto estamos alinhados com os mesmos interesses de expandir e potencializar iniciativas tão inovadoras, pensadas e protagonizadas por moradores das periferias urbanas e rurais”, conta Ítala Herta, cofundadora da Holding Vale do Dendê. “O resultado foi incrível”.

No caso da AfroMerc, um dos aspectos que mais chamou a atenção dos jurados foi a facilidade de navegação na plataforma, que incorpora não apenas a tecnologia dos smartphones, como também o SMS, uma ferramenta mais amigável para quem vive no campo. O conceito do negócio tem como base a interação direta entre o produtor, o distribuidor e o consumidor final. “As transações acontecem a partir dos perfis de compra ou venda cadastrados na plataforma”, explica Axel.

Apesar de estarem iniciando agora sua trajetória empreendedora, os integrantes do time comandado pelo dublê de universitário e empreendedor, já têm sonhos elevados. A vitória na Maratona, que rendeu prêmios simbólicos (iPads, livros sobre empreendedorismo e ingressos para a Campus Party Brasil 2019, em fevereiro, em SP) é vista como um divisor de águas na trajetória da AfroMerc. “Esperamos que a visibilidade obtida neste processo ajude a atrair a atenção de um investidor ou empresário do setor agrícola disposto a bancar nossa plataforma”, torce.

Visibilidade, de fato é importante para quem disputa espaço no concorrido segmento de empreendedorismo sustentável, no Brasil. Dados da Associação Brasileira de Startups (ABStartups) indicam que o número de empresas nascidas para resolver problemas (ou dores, como se diz no jargão do setor) não para de crescer. Saltou de 2.519, em 2012, para 5.147, no ano passado. Outras tantas se encontram em fase de ideação (não contam com CNPJ, como é o caso da AfroMerc) e podem vir a sucumbir pelo caminho.

Até agora, o time de Irecê tem mostrado bastante resiliência. Para chegar à final, eles contaram com a mentoria de Rogério Vilas Boas, professor do IFBA. “Ele esteve conosco ao longo de todo percurso, ajudando nas pesquisas e nos preparando para o desafio”, conta Axel. Pelo visto, a ajuda foi providencial. Isso porque, na disputa pela primeira colocação na Maratona Afro.Futurista constavam outros dois negócios de grande potencial: o Banco Social Diamantino, de Seabra, e o app de delivery TrazFavela, baseado em Salvador, mas que conta até filial no Rio de Janeiro.


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