Economia

Custo de um filho em São Paulo pode variar 104 vezes, dependendo do bairro

Giuliana Pierri e Luciene Bertolazi estão separadas por apenas 22 quilômetros. Mas não poderiam estar mais distantes. As duas nasceram e moram na cidade de São Paulo, têm diploma de ensino superior e são mães – cada uma com uma criança de 7 anos. As coincidências, no entanto, param por aí.

Giuliana tem uma menina, Victoria, e mora na região do Morumbi, na zona sul. Trabalha como influenciadora digital e tem renda mensal de R$ 50 mil. Desembolsa 36% do que ganha – R$ 18 mil – com a filha. Luciene é pedagoga e reside em um bairro próximo a Pirituba, na zona oeste. Sem emprego fixo, faz bicos em escolas infantis, o que lhe rende R$ 1,5 mil por mês. Compromete R$ 500 com o filho Henrique, 33% de seu orçamento atual.

Se nada mudar na vida das duas paulistanas, daqui a 16 anos, quando se espera que Henrique e Victoria terminem a faculdade para ingressar no mercado de trabalho, Luciene terá desembolsado por volta de R$ 60 mil na criação de seu filho, sendo que boa parte desse dinheiro terá ficado no caixa do supermercado. Giuliana, por sua vez, terá gasto 83 vezes mais em Victoria, cerca de R$ 5 milhões, alocando esse recurso de forma mais diversificada: 23% em educação, 24% em lazer, 18% em saúde, 7% com roupas e 4% em mesadas.

Giuliana e Luciene ilustram, de forma radical, as diferenças nos gastos com um filho ao longo da vida, dependendo da situação social e de onde se mora em São Paulo. No limite, a diferença pode chegar a até 104 vezes, como mostra a calculadora do custo do filho, ferramenta desenvolvida pela empresa de tecnologia IQ e que está sendo lançada em parceria com o Estadão. “São muitas cidades completamente diferentes dentro da mesma cidade”, diz Antonio Rocha, presidente da IQ.

Cruzamento de dados

A calculadora, disponível no portal estadao.com.br, permite aos moradores de todos os municípios do Estado de São Paulo ver o custo de criação de seu filho, com base no CEP de sua residência. Para chegar ao resultado, foram cruzados dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), do IBGE, com levantamentos sobre georreferenciamento do Instituto Nacional de Vendas e Trade Marketing (Invent).

O período mostrado pela calculadora vai de zero a 23 anos, escolhido por representar a fase em que, sobretudo na classe média, boa parte dos jovens fica aos cuidados financeiros dos pais. O orçamento médio apresentado pela ferramenta inclui gastos com alimentação, saúde, educação, lazer, vestuário e mesadas, entre outros. Ela pode ser adaptada, reduzindo gastos em determinadas áreas para ajustar o valor da receita à realidade da família.

Apenas os gastos com alimentação não podem ser ajustados, uma vez que a ferramenta não informa os custos separadamente nessa área de consumo. “A alimentação está incluída no total de gastos, mesmo sabendo que, principalmente na baixa renda, ela representa o principal gasto da família”, explica Rocha.

Diferenças

Apesar de a noção da disparidade de custos entre as regiões mais ricas e mais pobres da cidade ser óbvia, a calculadora mostra que as diferenças podem nem estar tão longe assim. Simulações por CEPs apontam diferenças sensíveis nos preços às vezes dentro de uma mesma região. “Há uma noção de que São Paulo é cara e ponto. Mas uma rua não é tão cara ou tão barata como outra”, observa o planejador financeiro independente Leandro Loiola, da Planejar.

Um exemplo é a Avenida Ricardo Jafet, que cruza bairros da zona sul, como o Ipiranga e o Jardim da Glória. Do lado do Ipiranga, o custo máximo de criação de um filho ao longo de 23 anos é de R$ 1,18 milhão. Do outro lado, no Jardim da Glória, a mesma criança tem um custo máximo de R$ 2,7 milhões.

Para se ter uma ideia da diferença, se um pai optasse por continuar morando no Jardim da Glória, mas atravessasse a avenida para fazer compras ou matricular o filho em uma escola local, por exemplo, a economia poderia chegar a R$ 1,5 milhão. “É um dinheiro importante. Com R$ 1,5 milhão em investimentos conservadores de renda fixa, uma pessoa de 65 anos consegue uma renda vitalícia acima de R$ 5 mil por mês”, calcula Loiola.

Mas esse não é o padrão. Em geral, as pessoas tendem a circular pouco e montar seu dia a dia perto de casa, seja por comodidade, seja pela questão financeira. “Sempre fiz tudo por aqui com meu filho, mesmo sabendo que era mais caro”, diz Valéria Bechara, que tem um filho de 22 anos próximo de se formar na faculdade e é moradora do Itaim Bibi, bairro que está entre os mais caros para a criação de um filho (na média, R$ 3,5 milhões em 23 anos).

No caso de Raquel Sicko dos Santos, de Pirituba, mãe de quatro filhos, a motivação para fazer tudo mais perto de casa é o bolso. “Andar de ônibus é caro. Ir ao shopping é muito caro. O que a gente faz, normalmente, é ir em um parque ou para a casa de algum parente”, diz. “Como todo deslocamento implica custos, os mais pobres são os mais afetados pelo alto custo de transporte público. Por isso muitas vezes sua circulação acaba restrita ao próprio bairro ou proximidades”, diz Mariel Deak, que é pesquisadora do centro de administração pública da FGV.

Mais rico e mais pobre

A variação de 104 vezes no custo para criar um filho não surpreende Marcelo Côrtes Neri, economista-chefe do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV). Para ele, essa diferença apontada pela calculadora em São Paulo não seria diferente em pesquisa semelhante no Rio de Janeiro ou em outra capital do País. “A desigualdade é um problema nacional, que ganha contornos mais dramáticos nas grandes cidades, mas se replica como um todo pelo Brasil”, diz. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Tópicos

custos filhos SP