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Curdos resistem na Síria, onde retirada dos EUA permite ação russa

As forças curdas resistiam nesta terça-feira (15) às investidas dos militares turcos no norte da Síria, onde a retirada de tropas americanas permitiu um deslocamento de militares sírios seus aliados russos.

Em meio aos confrontos, o presidente americano, Donald Trump, anunciou o envio do vice-presidente, Mike Pence, e do secretário de Estado, Mike Pompeo, à Turquia nesta quarta-feira para negociar um “cessar-fogo” com as autoridades turcas.

Pence se reunirá na quinta-feira com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, para “reafirmar o compromisso de Trump de manter sanções econômicas contra a Turquia até que se encontre uma solução”, informou a Casa Branca.

O gabinete de Pence divulgou um comunicado no qual informa que o vice-presidente manifestará “o compromisso dos Estados Unidos para alcançar imediatamente o cessar-fogo e o estabelecimento de condições para uma solução negociada”.

Mas Erdogan rejeitou categoricamente nesta terça-feira a proposta dos EUA para um cessar-fogo.

“Eles nos dizem: declarem um cessar-fogo, mas jamais vamos declarar um cessar-fogo”, afirmou Erdogan seis dias após Ancara lançar sua ofensiva sobre o norte da Síria contra os curdos.

Em Ain Isa, no norte do país, dois soldados do regime morreram esta noite atingidos por disparos de artilharia de rebeldes pró-turcos, informou a ONG Observatório Sírio de Direitos Humanos.

O Exército de Damasco interveio na região a pedido de uma milícia curda, alvo da ofensiva turca.

As forças da Turquia lançaram em 9 de outubro uma ofensiva no norte da Síria contra as Unidades de Proteção Popular (YPG), uma milícia curda que Ancara considera “terrorista”, abrindo uma nova frente na complexa guerra síria que deixou mais de 370.000 mortos desde 2011.

Vários países participam militarmente no conflito. Os soldados americanos, destacados para ajudar os curdos na luta contra o grupo jihadista Estado Islâmico (EI), receberam a ordem de se retirar.

Os curdos, sentindo-se abandonados, pediram ajuda neste domingo ao regime de Bashar al Assad, que recebe apoio militar no terreno da Rússia e do Irã.

O ataque turco provocou críticas internacionais, e o Conselho de Segurança ONU se reunirá de novo na quarta-feira.

Ancara mantém que a ofensiva continuará até que “alcance seus objetivos”.

Trata-se criação de uma “zona de segurança” de 32 km de largura ao longo de sua fronteira para manter as forças curdas à distância e repatriar uma parte dos 3,6 milhões de refugiados sírios que estão em seu território.

Desde o início da operação, a Turquia e seus aliados sírios locais tomaram o controle de uma faixa fronteiriça de mais de 100 km.

Resta conquistar a cidade-chave de Ras al Ain, onde se concentram os combates mais violentos, com as Forças Democráticas Sírias (FDS), aliança dominada pelas YPG, que apresenta uma dura resistência.

– “Inaceitável” confronto sírio-turco –

Usando uma densa rede de túneis subterrâneos e trincheiras, as FDS estão há dias defendendo a cidade.

Essas “lançaram à noite um contra-ataque maciço contra as forças turcas e seus aliados sírios perto de Ras al Aín”, disse o Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH).

A pedido dos curdos, as forças do regime de Assad estão mobilizadas desde a segunda-feira em setores do norte, especialmente na cidade de Manbij.

Na terça-feira, soldados sírios levantaram a bandeira nacional em Manbij. A coalizão internacional liderada por Washington confirmou a retirada de soldados americanos da cidade.

Nesse contexto explosivo, a Rússia afirmou que não permitirá enfrentamentos entre Turquia e Síria. “Isso seria simplesmente inaceitável”, disse Alexander Lavrentiev, enviado especial russo para a Síria. “Não deixaremos que se chegue a esse ponto”, acrescentou.

Além disso, a polícia militar russa realiza “patrulhas ao longo da linha contato” entre as forças sírias e turcas no setor de Manbij, segundo Moscou.

Dois soldados turcos morreram, segundo Ancara, por obuses disparados na região de Manbij, onde houve combates entre os turcos e os curdos durante a noite.

Em sete dias, a ofensiva deixou 71 civis e 158 combatentes das FDS mortos, segundo o OSDH, que também apontou que morreram nos confrontos 128 combatentes pró-turcos.

Ancara por sua vez admitiu a morte de seis soldados e 20 civis por foguetes lançados sobre cidades turcas da Síria.

Além disso, cerca de 160.000 pessoas foram deslocadas, de acordo com a ONU.

As autoridades curdas alertaram sobre o fim da atividade de “todas” as ONGs internacionais e a retirada de seus funcionários da região, onde há numerosos campos com dezenas de milhares de deslocados.

Na segunda-feira, a organização internacional Mercy Corps anunciou “a suspensão de suas operações no nordeste da Síria e a evacuação de seu pessoal internacional”.

“É um cenário de pesadelo”, disse Made Ferguson, diretora adjunta da Síria.

As agências da ONU disseram que continuarão com suas operações, apesar das dificuldades.

Depois de anunciar a saída do norte sírio de quase mil de seus soldados, os Estados Unidos anunciaram sanções contra ministros turcos, enquanto tenta salvar sua aliança histórica com a Turquia, onde há bases americanas estratégicas.

O caos provocado pela ofensiva turca faz vários países europeus temerem a fuga de milhares de combatentes do EI detidos pelas forças curdas.