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Curdos da Síria, da marginalização à frágil autonomia no norte do país

Curdos da Síria, da marginalização à frágil autonomia no norte do país

Civis à bordo de uma caminhonete depois dos bombardeios turcos no norte da Síria, em 9 de outubro de 2019 - AFP

Os curdos da Síria, alvos de uma operação militar turca iniciada nesta quarta-feira, estabeleceram uma autonomia frágil nos territórios que controlam no norte do país, com importantes campos de petróleo e que representam quase 30% da área total Síria.

Após duas operações anteriores, Ancara lançou uma ofensiva na Síria contra as Unidades de Proteção do Povo (YPG) nesta quarta-feira, um grupo que considera “terrorista”, mas que tem o apoio dos países ocidentais.

– Discriminação –

Instalados principalmente no norte da Síria, os curdos, principalmente muçulmanos sunitas, e cujas formações políticas são geralmente seculares, representam 15% da população do país.

Oprimidos por décadas pelo regime sírio, eles pedem o reconhecimento de seus direitos políticos e sua especificidade cultural.

– Neutralidade –

Após o início do conflito na Síria com a repressão da revolta em 2011, o regime sírio multiplicou seus gestos em relação aos curdos.

O presidente Bashar al Assad naturalizou 300.000 curdos “apátridas” após meio século de protestos. Os curdos da Síria haviam perdido a nacionalidade após um censo controverso em 1962.

A comunidade curda tentou não se envolver no conflito na Síria e adotou uma posição “neutra” entre o regime de Al-Assad e os rebeldes sírios.

Em meados de 2012, as forças do governo abandonaram suas posições no norte e leste do país, uma retirada percebida como uma mensagem para os curdos, para que não se aliassem aos rebeldes.

– “Região federal” –

O Partido da União Democrática Curda (PYD, o principal partido curdo na Síria) proclamou em 2013 uma região semiautônoma no norte do país.

Em 2016, o PYD anunciou a criação de uma “região federal”, composta por três províncias: Afrin (província de Aleppo, localizada no noroeste), Eufrates (norte) e Jazira (nordeste).

Desde então, essa região, chamada Rojava, tem uma autonomia frágil e os curdos se tornaram inimigos dos rebeldes sírios e das autoridades turcas.

Rojava tem um “contrato social”, uma espécie de constituição. Desde 2017, os habitantes das regiões curdas escolhem seus conselhos municipais.

– Antijihadistas –

O braço armado das PYD, as Unidades de Proteção Popular (YPG), desde 2014 se tornou um dos principais inimigos do grupo jihadista Estado Islâmico (EI), com o apoio da aviação da coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos.

No início de 2015, as forças curdas conseguiram expulsar o EI de Kobane, perto da fronteira com a Turquia, após quatro meses de violentos combates.

Em outubro de 2015, as Forças Democráticas da Síria (FDS) eram compostas por 25.000 curdos e 5.000 árabes.

Liderados pelas YPG, as FDS receberam assistência significativa dos Estados Unidos, tanto em termos de armamento quanto de apoio aéreo.

Dois anos depois, as FDS conseguiram expulsar o EI de seu feudo de Raqa. Atualmente, eles ainda estão lutando contra os jihadistas nas últimas posições do EI no leste da Síria.

– Reação turca –

Em 20 de janeiro de 2018, o exército turco iniciou uma ofensiva terrestre e aérea contra as YPG na região de Afrin.

A Turquia considera as YPG o braço sírio do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), uma organização curda que enfrenta Ancara desde 1984 e é descrita como “terrorista” pelas autoridades turcas.

Em agosto de 2016, a Turquia lançou uma ofensiva no norte da Síria, cujo objetivo, de acordo com a versão oficial, era expulsar os combatentes curdos e o EI.

– Abandonados por Trump –

No final de 2018, Donald Trump anunciou a retirada de 2.000 soldados americanos do norte da Síria, onde lutaram contra o EI junto com as YPG.

Nesse contexto, os curdos alertam que não serão capazes de lutar contra o EI se também tiverem que lutar contra a Turquia, que ameaça repetidamente lançar uma ofensiva contra a milícia YPG.

Em 6 de outubro de 2019, Washington anunciou que as tropas dos EUA se retirariam da fronteira entre a Síria e a Turquia, porque a Turquia iria desencadear uma “operação planejada” no norte do país.

No dia seguinte, Donald Trump reorientou seu discurso, dizendo que não abandonou os curdos e ameaçou estrangular a economia turca se Ancara “passar dos limites”.