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Crise na Ucrânia reaviva debate sobre adesão à Otan na Suécia e Finlândia

Crise na Ucrânia reaviva debate sobre adesão à Otan na Suécia e Finlândia

O secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg (C), e os ministros das Relações Exteriores da Finlândia e Suécia, Pekka Haavisto (E) e Ann Linde (D), em Bruxelas em 24 de janeiro de 2022 - AFP

O temor de uma invasão da Rússia à Ucrânia reavivou o debate sobre a adesão à Otan na Suécia e Finlândia, que avaliam sua política de neutralidade ante a pressão de Moscou para obter o congelamento da ampliação da aliança militar.

O céu de Helsinque foi cenário esta semana de manobras de caças. A Suécia reforçou desde o início do ano a presença militar na ilha de Gotland, no Mar Báltico, para responder às tensões com a Rússia e chegou a mobilizar tanques blindados.



As demonstrações de força são parte de um clima de preocupação, com manchetes de jornais do tipo “como a Suécia resistiria a uma invasão” ou boatos de ataques russos em mensagens do TikTok que deixaram as crianças dos dois países preocupadas

Suécia e Finlândia, que já abandonaram uma longa política de neutralidade com sua adesão à União Europeia em 1995, destacaram com veemência nas últimas semanas seu direito de entrar na Otan caso decidam pela medida.

Os pedidos de Vladimir Putin de congelar a ampliação da aliança militar são “inaceitáveis” para Estocolmo e Helsinque, mesmo que os governos de esquerda no poder não tenham a intenção de aderir à Otan.

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“No fim, cabe à Finlândia e aos 30 aliados da Otan decidir sobre a questão da adesão, e é exatamente a mesma coisa para a Suécia”, afirmou o secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte, Jens Stoltenberg, em um encontro na segunda-feira com os ministros das Relações Exteriores dos dois países.

Moscou alerta com frequência para as consequências militares e políticas de uma adesão dos dois países escandinavos – a Finlândia tem fronteira com a Rússia.


A opinião pública está dividida na Suécia e majoritariamente contrária à adesão na Finlândia, mas os partidários da Otan, tradicionalmente de direita, aumentaram nas últimas semanas.

Para Elina Valtonen, vice-presidente do partido conservador Coalizão Nacional, seria um “passo natural” para a Finlândia.

“Já estabelecemos acordos de cooperação não apenas com a Otan, mas também com Reino Unido e Estados Unidos”, destacou.

Ficou para trás o tempo em que a Finlândia era limitada por um tratado assinado após a Segunda Guerra Mundial com a URSS que determinava a aprovação de Moscou na maioria das decisões sobre segurança.

Analistas entrevistados pela AFP não acreditam em uma adesão, mas consideram provável uma aproximação maior da aliança transatlântica.

“Penso que veremos ainda mais cooperação. Uma forma de coabitação, fazemos as coisas juntos, mas não nos casamos”, disse Elisabeth Braw, especialista dos países nórdicos no American Entreprise Institute.

Para Robert Dalsjö, da Agência de Pesquisa Sueca (TOI), entrar na Otan continua sendo uma espécie de “blasfêmia” para muitos líderes políticos do país, especialmente entre os social-democratas que estão no poder.

No único país da Europa que não passou por uma guerra nos últimos dois séculos, muitos suecos veem as alianças como o caminho para o conflito.

Segundo ele, uma mudança de postura só poderia ser motivada por “um avanço da Finlândia para a adesão ou por uma ameaça tão forte que altere o cálculo político”.

Depois de anos de profundo desinvestimento militar, a Suécia começou a aumentar o orçamento de defesa em meados da década passada, após a anexação da Crimeia pela Rússia.

Na época, o comandante do Estado-Maior provocou um terremoto político ao afirmar que o exército sueco conseguiria suportar uma invasão russa por apenas uma semana.

Com 1.300 quilômetros de fronteira com a Rússia, a Finlândia, que foi uma província russa entre 1809 e 1917, vive com a recordação de suas duas guerras contra os soviéticos (1939-40 e 1941-44).

Com 900.000 reservistas em uma população de 5,5 milhões de habitantes, o país está bem preparado, afirma o ex-chanceler Erkki Tuomioja.

“Podemos mobilizar 280.000 soldados treinados, algo que nenhum outro país na Europa consegue fazer”, destacou.