Internacional

Crise energética: Europa busca alternativas para driblar corte do fornecimento de gás russo

Com redução no fornecimento de gás da Rússia, europeus diminuem consumo de energia. Retração do PIB pode chegar a 4% em alguns países.

Crédito: Moritz Frankenberg / AFP

Banho rápido, poucas lâmpadas acesas, ventilação natural, ruas e monumentos públicos às escuras. O que no Brasil, de apagão em apagão, há décadas é uma rotina, tem se tornado o novo normal em algumas das maiores economias da Europa. Com o agravamento da guerra na Ucrânia, que já entrou no sexto mês, e com o aumento da pressão da Rússia contra as sanções impostas pelo Ocidente, países como Alemanha, Áustria, França e Itália adotam um rígido arroxo no consumo de energia. Literalmente, eles estão precisando apagar as luzes.

Na semana passada, cidades como Berlim, Munique e Nuremberg, desligaram a iluminação de mais de 300 monumentos e prédios históricos na madrugada. As cidades também estão diminuindo em 2 graus a temperatura de aquecimento das piscinas públicas.

O chanceler alemão, Olaf Scholz, afirmou que o governo estuda adiar a desativação das últimas três usinas nucleares em atividade no país até que se normalize a crise gerada pela escassez de gás russo. A ideia era desligar essas usinas até o final deste ano. “Elas são adequadas para a produção de energia elétrica. Então, faz sentido mantê-las abertas”, afirmou Scholz.

Na segunda-feira (1), a União Europeia (UE) recomendou que todos os países do bloco reduzam em 15% o consumo de energia, especialmente com a proximidade do inverno. Isso porque, na semana passada, a estatal russa Gazprom reduziu para 20% o fluxo de gás natural para o Velho Continente. O argumento é de que houve um problema técnico no gasoduto Nord Stream 1. Não colou. Está evidente que se trata de um recado russo às sanções que Moscou têm sofrido. Hoje, 45% do gás utilizado na União Europeia vem da Rússia. Países bálticos e do Leste Europeu, como a Polônia, utilizam o gás russo para suprir 80% do consumo.

Por enquanto, as nações menos dependentes do gás russo e com superávit de geração de energia, como França, Holanda e Noruega, estão vendendo seus excedentes de eletricidade para compensar. Mesmo assim, esses países decidiram aderir à redução de consumo. Em Paris, a prefeita, Anne Hidalgo, assinou decreto municipal determinando que as lojas com ar-condicionado mantenham as portas fechadas. Curiosamente, ela mesma assinou outro decreto, um ano atrás, determinando o contrário, por causa da nova onda da pandemia. Desta vez, quem descumprir a ordem pagará multa de 150 euros. Alguns bairros da capital francesa começaram a testar sensores de presença, em que as luzes dos postes só se acendem quando detectam movimento.

Stefan DinsePROBLEMA PELO CANO O gasoduto Nord Strom 1 teve seu fornecimento de gás reduzido a 20% pela Rússia, acendendo o sinal de alerta nos países europeus. (Crédito:Stefan Dinse)

IMPACTOS Com ou sem luz, a crise energética na Europa afeta o crescimento dos países. Para Andrey Nousi, fundador da Nousi Finance e especialista em setor energético, o corte no fornecimento do gás russo poderá reduzir em 4% o PIB da Alemanha, em 3% o da Itália e em 2% o do bloco europeu. “A França ainda depende das usinas nucleares, enquanto a Alemanha praticamente acabou com esse tipo de geração.”

Para Nousi, essa turbulência será apenas mais um elemento em um contexto de várias dificuldades para a economia mundial, que já vinha com crescimento do PIB comprometido por causa da guerra, inflação e quebra na cadeia de fornecimento de alimentos. “O custo da energia nas casas pode aumentar até 60%, com o religamento de usinas a carvão nos próximos meses, mas o ser humano é adaptável e se reinventa.” Em uma Europa em guerra, o último apaga a luz.