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Crise? A economia criativa não sabe o que é isso

O Palácio Campos Elíseos, prédio histórico na capital de São Paulo, vai abrigar o Centro Nacional de Referência em Empreendedorismo, Tecnologia e Economia Criativa

Crise? A economia criativa não sabe o que é isso

Retração, projetos engavetados, desemprego, crise. Nos últimos anos é só isso o que ouvimos por todos os lados quando o assunto é economia brasileira. Opa, todos os lados não. Algumas áreas estão se saindo muito bem, como é o já conhecido exemplo do agronegócio, que cresceu 14,9% no segundo trimestre de 2017 em relação ao mesmo período do ano passado. Mas não é só a agropecuária. Embora não com a mesma força, a economia criativa também driblou a crise, e a tendência é que os negócios nessa área melhorem ainda mais nos próximos. Entender por que esse setor cresce mesmo em tempos bicudos é importante porque isso é revelador da nova dinâmica no mercado e, claro, indica oportunidades.

Para entender essa história, o primeiro passo é conceituar o que estamos falando. Segundo explicou Ana Carla Fonseca Reis, professora do MBA em Bens Criativos da FGV-SP, “economia criativa abrange todo o ambiente de negócios que existe em torno da indústria criativa, aquela baseada em bens e serviços criativos”. Fazem parte dela atividades como moda, design, arquitetura, publicidade, gastronomia, audiovisual, comunicação, tecnologia e cultura.

Os números mostram que o setor deu um chega pra lá no furacão econômico dos últimos anos. Do ponto de vista da produção, a participação do PIB Criativo estimado no PIB brasileiro passou de 2,56% para 2,64% entre 2013 e 2015, segundo dados da edição mais recente do “Mapeamento da Indústria Criativa no Brasil”, estudo preparado pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan). A indústria criativa gerou uma riqueza de R$ 155,6 bilhões para o País em 2015, valor equivalente à soma dos valores de mercado das marcas Facebook, Zara e L’ Oréal, de acordo com análise contida na pesquisa.

Do ângulo do trabalho, a indústria criativa contava com 851,2 mil profissionais formais em 2015, um acréscimo de 0,1% em relação a 2013. Pouco? Depende do ponto de vista. A variação é relevante se observarmos que quase 900 mil vagas com carteira assinada foram fechadas no País em 2015. “Como consequência, no período adverso, os profissionais criativos aumentaram sua participaçãono mercado de trabalho (1,8% em 2015 ante 1,7% em 2013), o que reforça o papel estratégico da classe criativa na atividade produtiva”, afirma a Firjan no estudo.

O que está por trás desses dados é que a economia criativa vem assumindo um papel estratégico nos negócios. Por quê? Porque a sobrevivência na economia do século XXI, independentemente do setor, requer inovação em modelo de negócios, produção e diferenciação de produtos, algo que os profissionais criativos podem contribuir de maneira decisiva. Fazer mais com menos, melhorar a eficiência e otimizar recursos são mantras da atualidade. Na nova etapa da economia global, a área criativa se tornou estratégica, inclusive para os negócios da indústria clássica, porque as ideias se tornaram os inputs necessários para a diferenciação e a geração de valor.

Não é por acaso que o Palácio Campos Elíseos, prédio histórico no centro de São Paulo e ex-sede do governo do Estado, vai abrigar o Centro Nacional de Referência em Empreendedorismo, Tecnologia e Economia Criativa, um projeto sob a gestão do Sebrae. Com inauguração prevista para as próximas semanas, o local será um hub para empreendedores e projetos de tecnologia, inovação e criatividade.

Esse é apenas um exemplo entre tantos que apontam para a relevância que o setor vem conquistando na economia contemporânea. É preciso olhar para esse mercado com a mesma atenção que se olha para outros segmentos consolidados há mais tempo. Os negócios criativos ligam os pontos do mercado e criam uma espiral de desenvolvimento e inovação poderosa, com efeitos positivos em toda a economia.