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Crédito, seguros, investimentos…

A estratégia do recém-criado banco Master inclui as atividades de varejo financeiro, banco de atacado, seguros e administração de recursos. Algo quase impensável no brasil antes do open banking e da digitalização do setor.

Crédito: Claudio Gatti

O VALOR DO CONHECIMENTO O presidente Daniel Vorcaro (à direita) e o responsável pelo banco de varejo, Augusto Lima, somam suas experiências no sistema financeiro e no setor de fusões e aquisições. (Crédito: Claudio Gatti )

Coube ao jovem Tiziano, de 10 anos, definir o nome do Banco Master. Seu pai, o executivo Daniel Vorcaro, que presidia a instituição, havia contratado uma empresa de marketing para escolher a nova denominação do Banco Máxima, uma instituição financeira de mais de 50 anos e focada em crédito imobiliário. Vorcaro não ficou satisfeito com os resultados. “Eles vieram com uma centena de nomes”, disse ele. “Os que eu achava adequados não estavam disponíveis, e os que estavam disponíveis não nos satisfaziam.” Um dia, depois de ouvir um longo telefonema do pai, Tiziano veio com uma palavra escrita em um papel. “Master é o que vai acima do máximo, e por isso é o nome ideal”, disse Vorcaro (o pai). Agora, após um processo de capitalização e de reorientação estratégica que durou três anos, o Banco Master vai estrear seu novo nome no mercado disposto a ganhar terreno tanto em operações bancárias de varejo quanto de atacado.

Segundo Vorcaro, a estratégia estará lastreada em quatro pilares. O banco pretende ter uma atividade intensa no varejo. Ela ficará a cargo de um dos sócios, o executivo baiano Augusto Lima, que será o CEO do banco comercial. Essa atividade já é explorada pela Credcesta, dedicada ao crédito consignado. Criada na Bahia, ela se expandiu para outros estados do Nordeste e, neste ano, inaugurou sua presença no Rio de Janeiro. “A estratégia é oferecer crédito pessoal para quem não é bancarizado ou para quem está no cheque especial, cobrando taxas menores”, disse Lima. “Por meio da consignação, podemos financiar quem está pagando juros de 8% ao mês com taxas a partir de 1,70%.” Os resultados mostram o acerto da estratégia. Em 2017, primeiro ano de atividades, a receita com esses créditos foi de R$ 180 milhões. No ano passado, dado mais recente disponível, a cifra chegou a R$ 1 bilhão, com uma base de 1,3 milhão de cartões ativos.

Outro dos pilares da estratégia é aumentar a receita com a prestação de serviços bancários, que já representam cerca de 25% do faturamento total. Nesse segmento estão transações com câmbio e também operações de banco de investimentos. A transação ideal para o Master é uma em que ele acompanhe a empresa-cliente ao longo do caminho, seja em uma capitalização, seja em uma operação de fusão e aquisição na qual o banco entra como financiador, na estrutura clássica dos merchant banks. Aqui entra a trajetória de Vorcaro. Nascido em Belo Horizonte, ele construiu sua carreira no crédito imobiliário e atuou na reestruturação de empresas. “Tive gestoras de recursos, empresas de educação e de rastreamento de veículos”, disse ele. Em 2016, ele participou do processo de reestruturação de uma seguradora que devia dinheiro para o Máxima. Vorcaro foi conversar para aparar as arestas e conheceu os antigos sócios. “O negócio com a seguradora não saiu, mas eu acabei participando da capitalização do banco”, afirmou.

Istock TECNOLOGIA E LEGISLAÇÃO Mudanças no ambiente regulatório brasileiro facilitam a chegada de novos participantes do sistema financeiro. (Crédito:Istock)

Naquele momento, o Máxima vinha de uma trajetória longa e bem-sucedida, mas estava focado apenas em um produto, o crédito imobiliário. Em 2016, na esteira da recessão do segundo mandato de Dilma Rousseff, esse segmento do mercado financeiro enfrentou sérios problemas. “O Máxima tinha excelentes ativos imobiliários, mas eles não geravam receitas recorrentes e o banco precisava ser capitalizado. Foi quando nós entramos”, disse. Começou então a injeção de recursos. A instituição anterior era um banco modesto, com um patrimônio líquido de R$ 30 milhões. No balanço de 2020, essa cifra já havia crescido para R$ 421 milhões. “E pretendemos chegar em breve a R$ 1 bilhão de patrimônio líquido”, disse Vorcaro.

O terceiro pilar da estratégia é o de seguros. O Master adquiriu a seguradora Invest e duas empresas vinculadas a ela, a InvestPrev (de previdência privada) e a Invest Capitalização. As companhias foram colocadas sob a seguradora, rebatizada como Kovr. A empresa faturou cerca de R$ 1 bilhão em prêmios no ano passado, e prevê crescimento de 100% para as áreas de seguro e capitalização em 2021. A maior receita ainda vem da capitalização, mas a proposta é ter um portfólio pulverizado. A seguradora lançou apólices de garantia em março. Ela foca suas atividades em segmentos menos concorridos, como o ramo de responsabilidade civil para ônibus, e um seguro desenvolvido em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), de garantia de eficiência energética. Ele assegura que o cliente terá o retorno final esperado ao mudar para uma fonte de energia mais limpa.

“A estratégia é oferecer crédito pessoal para quem não é bancarizado ou está no cheque especial, cobrando menos” Augusto Lima.

Finalmente, Vorcaro espera ampliar a área de administração de recursos. A MAM, asset do grupo, já possui R$ 15 bilhões em ativos. No entanto, Vorcaro quer mais. Ele está negociando a aquisição de duas empresas da área, que devem elevar esse patrimônio para R$ 40 bilhões. “Seremos uma das maiores administradoras independentes do mercado”, disse ele. As administradoras de fundos não devem ser confundidas com as gestoras, embora as palavras sejam sinônimos. O gestor de fundos toma as decisões de compra e de venda de ativos. Já o administrador, que tem receitas mais estáveis, é que controla os saldos de cada investidor.

TECNOLOGIA O Master chega ao mercado em um momento extremamente propício. Há alguns anos, iniciativas assim seriam vistas como arriscadas. Banco, até meados da década passada, era negócio para empresas com dois perfis bem diferentes. Ou os gigantes de varejo, capazes de enfrentar os solavancos da economia, ou instituições pequenas e extremamente focadas. Por exemplo, bancos que se dedicassem a fornecer capital de giro e repassar linhas do BNDES às empresas de médio porte, conhecidas como middle market. Ou então escritórios de bancos internacionais, especializados em operar as linhas de importação ou exportação, as trade finances. Havia ainda bancos com perfil de financeiras, que financiavam o crédito ao consumidor ou operavam como braços bancários de conglomerados bem maiores, por exemplo, as redes de varejo.

Istock VAREJO NO NORDESTE O Credcesta nasceu na Bahia e agora chegou ao Rio de Janeiro. São 1,3 milhão de cartões ativos e faturou R$ 1 bilhão com crédito. (Crédito:Istock)

A situação mudou radicalmente. Agora, é possível oferecer tanto atividades típicas de banco de investimentos, caso da assessoria em processos de recuperação de empresas e em fusões e aquisições e, em paralelo, fazer operações de câmbio. E também oferecer cartão de crédito. E seguros. E ainda gestão de fundos. A explicação está em duas palavras: regulação e tecnologia.

“Vamos gerar receitas com crédito e com a prestação de serviços financeiros, além de seguros e da administração de fundos” Daniel Vorcaro.

Começando pela regulação. Desde 2013, quando criou os arranjos, instituições e bancos de pagamento, o Banco Central vem obrigando o sistema financeiro a abrir-se à competição. Os passos mais recentes nesse sentido foram dados no ano passado, com o Open Banking e seu primo-irmão, o Open Insurance. Resumidamente, são alterações na regulação que obrigam os bancos e as seguradoras a compartilhar informações sobre os clientes. Isso permite que um banco com apetite para crescer acesse os clientes mais seguros (ou, no outro extremo, os menos seguros e, por isso, mais rentáveis) e ofereça-lhes produtos sob medida. “O Open Banking está para o sistema financeiro assim como a internet está para a sociedade”, disse o presidente do BC, Roberto Campos Neto, ao comentar o lançamento do programa, em fevereiro deste ano. “O Open Banking vai aumentar a eficiência e a competitividade no sistema financeiro, promovendo um ambiente de negócio mais inclusivo e preservando a segurança do consumidor”, disse ele. Vorcaro assina embaixo.