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Covaxin. Ela pode ser o Fiat Elba do governo

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Para completa surpresa de ninguém o governo militar de Bolsonaro tinha sua vacina predileta. Não era a chinesa, a russa, a germano-americana ou a inglesa. Era a Covaxin, da Índia. O tema explodiu nesta semana. O contrato assinado na pasta da Saúde, ainda sob comando do general Eduardo Pazuello , prevê a compra de 20 milhões de doses a um custo de R$ 1,6 bilhão, coisa de US$ 15 a dose – acima de Sputnik V (US$ 12,61), Coronavac (US$ 10,58), Pfizer (US$ 10) e AstraZeneca (US$ 5). Na terça-feira (22), o jornal O Estado de S.Paulo divulgou que o governo federal havia sido informado em agosto que a fabricante da Covaxin estimava o preço em US$ 1,34. Seis meses depois, o que o governo fez? Fechou contrato por US$ 15. Sim. Sabia o preço e fechou por 11 vezes mais. Detalhe. Nem havia aprovação da Anvisa. Segundo o deputado federal bolsonarista Luis Claudio Miranda (DEM-DF), o presidente sabia do que acontecia. Este frasquinho com cerca de 5cm (foto acima) tem potencial para estragar a República Militar de Bolsonaro do mesmo modo que o Fiat Elba dado a Collor implodiu a República de Alagoas.

O imbróglio e o presidente:
1. O Ministério Público Federal entrou na investigação da Covaxin. No fim de março, ouviu Luis Ricardo Fernandes Miranda, funcionário do Ministério da Saúde encarregado de importações. Ele disse ter sido pressionado a favorecer a Precisa Medicamentos, que faz a intermediação da compra.

2. Um dos que o pressionaram teria sido o tenente-coronel do Exército Alex Lial Marinho, assessor de Pazuello. Marinho deverá depor na CPI.

3. A Precisa Medicamentos é parceira da Global. Francisco Emerson Maximiano é sócio da primeira e presidente da segunda. A Global é acusada de desfalcar o Ministério da Saúde em R$ 20 milhões. Maximiano deverá depor à CPI.

4. O funcionário da Saúde Luis Ricardo Miranda é irmão do deputado Luis Claudio Miranda. Os dois iriam depor à CPI na sexta-feira (25). Na terça-feira (22), o parlamentar disse à Folha de S.Paulo que soube das pressões e “tocou para a frente”. Perguntado para quem avisou, ele disse: “Se eu responder, cai a República”. No dia seguinte, decidiu dizer para quem levou a denúncia em março: Jair Bolsonaro.

APAGÃO POLÍTICO
Há luz no fim do túnel.
Mas ela será mais cara e racionada

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Que este governo do Jair Messias Bolsonaro é desqualificado e despreparado só não concluiu quem espera tirar uns trocos dele. Mas agora as demonstrações saíram do campo do negacionismo e das mentiras para a covardia. Falta coragem a alguém do Executivo dizer, “pois é, vai faltar luz”. Pode chamar do que quiser, mas quando eu quero consumir algo e não posso o nome é escassez.

Sabe o lance de virar a Venezuela? Então… Com medo do desgaste político de assumir novo racionamento depois de duas décadas, o Executivo jogou essa para o Congresso. O presidente da Câmara, Arthur Lira (Centrão), já matou a encrenca no peito de um jeito bem republicano. “Não vamos ter nenhum tipo de apagão, mas vamos ter um período educativo aí, de algum racionamento, para não ter nenhum tipo de crise maior”, afirmou. Dica: fique atento à expressão “Período Educativo”. A declaração de Lira se deu dois dias depois de o diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Luiz Carlos Ciocchi, dizer em entrevista que gostaria de “tranquilizar a sociedade brasileira de que não haverá risco de apagão nem de racionamento”, apesar de se tratar da pior crise hídrica em 91 anos. Dentro do governo, a encrenca tem nome, “programa de racionalização compulsória no consumo de energia”.

O diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Anel), André Pepitone, já disse que o aumento nas contas chegou para ficar. O resumo da ópera tem duas faces: sim, é racionamento; e sim, você pagará a conta.

BBB DA CPI
Osmar Terra planista

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Quando uma pessoa com mais de 12 anos diz isto: “O Supremo impediu, limitou, o poder do presidente de interferir” você conclui que: a) É má fé ou b) É fé ou c) É amor. Essa mesma pessoa disse agora que nunca defendeu imunidade de rebanho, mas num vídeo seis meses antes, em dezembro, afirmava “que é bem provável que em algumas semanas cheguemos à imunidade coletiva, ou imunidade de rebanho”.

O lugar a que chegamos tem meio milhão de mortos. Esse é o padrão médio do parlamentar brasileiro. E o cara já foi ministro de dois governos. As amostras resumem a quantidade de bobagens contadas na CPI por Osmar Gasparini Terra, deputado gaúcho e médico, formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Cabe uma pergunta: você deixaria um filho seu ser tratado por ele?

Evaristo Sa

“Nada nos solidariza com Cuba” Ernesto Araújo, ex-chefe maior do Itamaraty, em 2019 Frase lapidar do tipo de elite que pode emergir de instituições tidas como insuspeitas.

CAUSA LGBTQIA+
Hungria precisa se explicar

Treze países europeus decidiram formalizar na terça-feira (22) junto à Comissão Europeia a preocupação com a aprovação este mês pela Hungria de uma lei que proíbe tratar da temática homossexual para menores de 18 anos. “Vamos ver se infringe a lei da União Europeia”, disse a vice-presidente executiva da UE, Vera Jourova. O ministro luxemburguês Jean Asselborn resumiu o tom de forma mais enfática: “É uma lei indigna da Europa. Não estamos na Idade Média”. O ministro das Relações Exteriores da Hungria, Peter Szijjarto, afirmou que a lei “apenas indica que a educação sexual para menores de 18 anos é de responsabilidade exclusiva dos pais”. No limite, a UE pode punir um país, mas para isso é preciso a unanimidade de todos os demais membros. Então nada deve acontecer. A Hungria tem como aliada a Polônia, que passa por investigação semelhante, relacionada a uma lei que cerceia o trabalho do judiciário.

TESTE: QUE SOM É ESTE?

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Junte o bicho abaixo (esq.) ao verbo correspondente ao som que ele emite (dir.).

(A) corvo                    (1) sibilar
(B) rato                       (2) ulular
(C) burro                    (3) guinchar
(D) hiena                    (4) crocitar
(E) cobra                    (5) zurrar

“Vocês são uma merda de imprensa. Cala a boca. Vocês são uns canalhas. Vocês não prestam.”

Inspirado na fala edificante de Jair Messias Bolsonaro feita segunda-feira (21) e no teste acima, crie um verbo para o som que o presidente produziu ao ofender a profissional Laurene Santos, da TV Vanguarda, afiliada da Globo no Vale do Paraíba (SP).
RESPOSTA: _____________________.

PASSA BOIADA
Onde estava o ministro Ricardo Salles?

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Pedindo demissão. Enquanto o governo pega fogo com a questão da compra das vacinas, Bolsonaro resolveu dar uma cabeça para a guilhotina. Ricardo Salles, sumido há mais de um mês, apareceu na quarta-feira para dizer que deixa a Pasta. Em seu lugar fica Joaquim Pereira Leite, que era secretário da Amazônia.

EMBARGO CONTRA CUBA: BRASIL SOBE NO MURO

Países que votaram pelo fim do embargo na quarta-feira (23) representam 97% dos votos, mas são insuficientes pelo poder de veto que americanos têm na ONU.

Desde 1992 – com exceção do ano passado, por causa da Covid – a ONU coloca em votação o fim do embargo dos Estados Unidos contra Cuba. Os argumentos convencem até aliados históricos de Washington. Foi onde o Brasil sempre se posicionou. Até 2019, quando ficou ao lado de EUA e Israel, contra Cuba e contra o mundo. A mancha na diplomacia brasileira será eterna e continuou este ano, quando o Itamaraty, temendo reação da chamada ala ideológica do Planalto, decidiu subir no muro e não votar. EUA e Israel novamente votaram pela manutenção do embargo.