Negócios

Corrida pelo alimento carbono zero

Para atender à exigência do consumidor por produtos mais sustentáveis, indústria reduz emissões de carbono desde as fazendas e busca a neutralidade.

Crédito: Daniel Spalato

VARIEDADE A tendência é que a quantidade de alimentos carbono neutro aumente cada vez mais. (Crédito: Daniel Spalato)

Quem olha com atenção o rótulo de um alimento no corredor do supermercado pode estar buscando a data de validade, a composição nutricional ou até mesmo um selo que certifique o comprometimento do fabricante com a redução das emissões de gases de efeito estufa — se a pessoa realmente estiver interessada, as embalagens já trazem essa informação, pelo menos no caso das indústrias que entraram na corrida do carbono neutro. Gigantes do setor de alimentos como Danone e Nestlé vêm transformando toda a operação com esse objetivo. E há empresas menores que já nasceram com esse DNA, a exemplo da Guaraci Agropastoril, que criou o NoCarbon, primeiro leite orgânico e carbono neutro do Brasil.

A produção do NoCarbon fica em Itirapina (SP), dentro da Fazenda da Toca, já reconhecida como referência em alimentos orgânicos. São 4 mil litros de leite diários, envasados em dois laticínios parceiros e comercializados em alguns supermercados da capital paulista, como Casa Santa Luzia e St. Marche. As emissões de carbono que não puderem ser evitadas nesse processo são compensadas com o plantio de árvores. Na embalagem do leite aparecem os selos Certified Humane Brasil (bem-estar animal), IBD (alimento orgânico) e Carbon Free (carbono zero), que para Luis Fernando Laranja, sócio da Guaraci Agropastoril, representam certificações bastante severas e de muita credibilidade. “Investimos cerca de R$ 5 milhões em desenvolvimento e lançamento da marca e nas certificações”, afirmou.

No primeiro momento, no entanto, o resultado no ponto de venda não foi o esperado. O público se aproximou somente após ter alguém ao lado dos produtos para explicar o diferencial daquele leite e o que representavam aquelas certificações. “Há um desconhecimento do consumidor sobre essa questão de mudanças climáticas, mas também existe um grande interesse”, disse Laranja.

Ao contrário do que aconteceu na loja física com o NoCarbon, no universo virtual o que não falta ao público é estímulo para lotarem as redes sociais com cobranças e questionamentos à indústria de alimentos, que precisa ser ágil e coerente nas respostas. Inclusive sobre emissões de carbono. Segundo o diretor de Planejamento, M&A e Sustentabilidade da Nestlé Brasil, Fábio Spinelli, a internet trouxe esse poder e potencializou o acesso. “Algumas coisas fazemos porque achamos ser correto, mas outras acontecem porque o consumidor cobra”, afirmou. No ano passado, por exemplo, a empresa substituiu todas as garrafas pet de iogurte por embalagens recicladas, devido à influência dos consumidores. “Mesmo que tenha um custo adicional, é nosso compromisso.”

Divulgação

“Há um desconhecimento do consumidor sobre essa questão das mudanças climáticas, mas também existe grande interesse” Luis Laranja Leite Nocarbon.

REDUÇÃO NA ORIGEM A meta global da Nestlé é zerar suas emissões de carbono até 2050, e cortá-las pela metade até 2030. No Brasil a empresa tem de neutralizar 8 milhões de toneladas de carbono equivalente, de acordo com seu inventário ambiental. E o desafio começa pela fonte da principal matéria-prima da indústria, as fazendas de leite, que respondem por 45% a 50% dessa pegada. Uma das medidas para mudar essa realidade foi a criação do projeto Nature por Ninho, que já atende cerca de 1,5 mil pecuaristas com orientações técnicas sobre agricultura regenerativa, manejo de solo, bem-estar animal e tratamento e destinação de dejetos.

A Danone, que consome 900 mil litros de leite por dia para fabricação de seus produtos, apostou na implementação da tecnologia de integração pecuária-floresta (IPF) nas fazendas de seus fornecedores, para que estejam mais alinhadas com suas metas de neutralidade: zerar tudo até 2050 e reduzir 30% até 2030. Essa é a base do Projeto Flora, que combina recuperação de pastos e plantio de diversas espécies de árvores. De acordo com a diretora de Corporate Affairs da companhia, Cibele Zanotta, “isso aumenta a retenção de carbono no solo e ainda oferece mais sombra para as vacas, aumentando o bem-estar animal”.

Divulgação

“Algumas coisas fazemos porque achamos ser correto, mas outras acontecem porque o consumidor cobra. É nosso compromisso” Fábio Spinelli Nestlé.

Essa questão da neutralidade de carbono não é uma ação isolada. Vem sempre acompanhada de outras iniciativas voltadas à sustentabilidade. A fábrica de nutrição especializada da Danone, em Poços de Caldas (MG), tem certificação Carbon Trust, que atesta também redução do uso de água e zero resíduo para aterro. A empresa conta ainda com o reconhecimento Benefit Corp (B-Corp), que certifica o padrão elevado de desempenho social e ambiental, transparência e responsabilidade legal. Segundo Cibele, há um impacto direto nos negócios. “Cerca de 50% de nosso faturamento já é proveniente dessa certificação”, afirmou.

Divulgação

“Sistema de integração pecuária-floresta aumenta retenção de carbono no solo e ainda oferece mais sombra para as vacas” Cibele Zanotta Danone.