AS MELHORES DA DINHEIRO 2021

Coragem para construir um futuro melhor

Com 103 anos de história, presença em 19 países, 515 unidades operacionais e receita líquida anual superior a R$ 45 bilhões, a companhia controlada pela família Ermírio de Moraes se destaca por sua solidez, diversificação de negócios e visão de longo prazo.

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"Temos foco no longo prazo e confiança na capacidade de execução de nossas equipes. Isso nos permite ir além do momento imediato, seja ele de adversidade ou de euforia" João Schmidt CEO da Votorantim. (Crédito: Divulgação)

Nas últimas décadas do século 19, entre 1881 e 1900, cerca de 316 mil portugueses emigraram para o Brasil. O País que acabara com a escravidão e se tornara república oferecia aos estrangeiros uma promessa de prosperidade. Foi com essa perspectiva em mente que o sapateiro João Pereira Ignacio embarcou rumo ao Porto de Santos com seu filho mais velho, Antonio, de apenas 10 anos. Os dois se fixaram em Sorocaba, no interior paulista, onde pouco mais tarde seria inaugurada a empresa Pereira Ignacio & Cia. Era o primeiro passo na criação de um dos conglomerados empresariais de trajetória mais sólida do Brasil: a Votorantim. Em 1918, já dono de um armazém, de uma serraria, de uma empresa de algodão e outra de óleo, Pereira Ignacio adquiriu a massa falida do Banco União e criou a Sociedade Anonyma Fabrica Votorantim. Anos depois, a partir do casamento de sua filha Helena com o jovem José Ermírio de Moraes, engenheiro pernambucano pertencente a uma tradicional família de usineiros e que havia estudado na Europa, um novo capítulo da história empresarial brasileira começava a ser escrito. José Ermírio de Moraes, que décadas depois se elegeria senador, e seus filhos tornaram a Votorantim um dos grandes exemplos de sucesso do setor privado no País.

Passados 103 anos, a Votorantim segue sob controle familiar, atuando como gestora de investimento de longo prazo em segmentos variados: materiais de construção, financeiro, energia, metais e mineração, suco de laranja, alumínio, aços longos e, mais recentemente, imobiliário. O portfólio atual da holding é composto por nove empresas, duas delas listadas em bolsa, que estão presentes em 19 países (detalhes nos quadros). No total, o grupo emprega cerca de 35 mil pessoas diretamente e mais de 10 mil indiretos, em 515 unidades operacionais. Em seu último balanço financeiro divulgado, correspondente ao segundo trimestre de 2021, a empresa registrou lucro líquido de R$ 2,3 bilhões, com alta de 201% no Ebtida ajustado, que atingiu R$ 3,6 bilhões. No consolidado de 12 meses, considerando o período entre junho de 2020 e junho de 2021, a receita líquida totalizou R$ 45,2 bilhões.

Os sólidos resultados financeiros contribuíram para o reconhecimento de grau de investimentos da Votorantim pelas três principais agências de rating do mundo, Moody’s, S&P e Fitch. Mais que sua robustez, é a marca da coragem para investir em negócios de longo prazo que fazem da Votorantim a empresa do ano nesta edição do prêmio AS MELHORES DA DINHEIRO 2021.

Para o CEO da Votorantim, João Schmidt, a empresa se tornou centenária em um País onde é tão difícil construir histórias de sucesso perene por uma razão: a base de integridade que vem dos acionistas. “Ao longo do tempo desenvolvemos uma capacidade de adaptação muito grande diante de adversidades e incertezas”, afirmou à DINHEIRO. “Em diferentes momentos demonstramos a capacidade de nos reinventar, tanto na composição do nosso portfólio de negócios quanto nos nossos processos decisórios e na governança”, disse. Segundo ele, por se ver como um grupo investidor de longo prazo, o posicionamento da companhia é sempre mirar o futuro. E é isso que a empresa tem feito para seguir crescendo mesmo em um dos períodos mais desafiadores para a maioria dos setores da atividade empresarial. “Demos passos importantes em novos negócios que têm potencial de serem muito representativos na Votorantim, como na energia e na área imobiliária, e estamos avançando de forma segura na nossa internacionalização”.

SUCESSO NA BOLSA Abertura de capital da CBA na B3, em julho. A empresa vai destinar os recursos captados a potenciais aquisições estratégicas. (Crédito:Cauê Diniz)

A opção pela diversificação, segundo o CEO, é um dos fatores de resiliência da empresa. Isso permite contrabalançar as diversas situações de cada região e de cada segmento específico, assim como buscar novas oportunidades de investimentos a partir de uma base muito ampla de atuação. “Mas o mais importante é que temos foco no longo prazo e confiança na capacidade de execução de nossas equipes”, disse Schmidt. “Isso nos dá capacidade de ver e de ir além do momento imediato, seja ele de adversidade ou de euforia”. E a pandemia, evidentemente entra no balanço como adversidade. Ainda assim, a empresa tem sido capaz de seguir com sua estratégia. Como tantas operações precisaram se ajustar às necessidades impostas pela crise sanitária, a Votorantim priorizou a saúde e segurança dos funcionários. Depois, assegurou a continuidade dos negócios. “Costumo dizer que esse período representou um grande teste da evolução do nosso modelo de governança e gestão. Validamos a nossa abordagem de maior autonomia para os negócios, e a nossa liderança atuou de forma muito ágil e diligente”, afirmou.

Os planos de investimento, foram mantidos. “Uma crise que afeta a todos ao mesmo tempo de forma indiscriminada só pode ser atacada com muita colaboração. Criamos comitês multidisciplinares para decidir sobre a atuação nos municípios onde estamos, e reprogramamos nossas atividades sociais via Instituto Votorantim para o novo contexto da pandemia”, disse Schmidt. Logo no início, a Votorantim destinou cerca de R$ 150 milhões em recursos para contribuir no combate à propagação do vírus e a seus efeitos. Mais de 300 projetos realizados pelo Instituto Votorantim, em todas as regiões do Brasil, foram redirecionados para o combate à pandemia. “Fico muito orgulhoso em estar na Votorantim neste momento emblemático e vivenciar como as empresas lidaram com as incertezas impostas pela pandemia, tanto no nível profissional como pessoal e em nossas comunidades.”

A pandemia pode ter colocado a Votorantim à prova, como ocorreu com tantas outras empresas, mas a atuação em diferentes negócios faz com que a gestão tenha de lidar com realidades distintas e endereçar as demandas de acordo com cada uma. Ainda que a pandemia passe, o planeta e a humanidade têm outros desafios, sejam ligados às mudanças climáticas ou à responsabilidade social das empresas. É para fazer frente a essas demandas que o mercado exige um alinhamento cada vez maior das corporações com as boas práticas de ESG (ambiental, social e de governança). “A ênfase maior nos temas ESG é uma evolução muito alinhada com os nossos objetivos empresariais”, afirmou Schmidt. “Costumamos dizer que o ‘como’ fazemos negócios importa tanto quanto o resultado que alcançamos.”

A história centenária traz alguns registros interessantes. Um documento datado de 1919, apenas um ano após a fundação da empresa, estabeleceu equidade salarial entre homens e mulheres. “O nosso primeiro relatório anual prestando contas é de 1923. Em 2009 estabelecemos os princípios de sustentabilidade, precursor da estratégia ESG”, disse o CEO. Ele destaca dois grandes exemplos de atuação de forma transversal em todos os negócios: a Reservas Votorantim e o Instituto Votorantim.

“A Reservas Votorantim é nossa empresa focada em ativos ambientais, que administra o Legado das Águas, maior reserva privada de Mata Atlântica do Brasil”, afirmou Schmidt. Localizada na região do Vale do Ribeira e com tamanho equivalente ao da cidade de Curitiba, a área foi adquirida a partir da década de 1940 e conservada desde esse período pela Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), que manteve sua floresta e a rica biodiversidade local, com o objetivo de contribuir para a manutenção da bacia hídrica do Rio Juquiá, onde a companhia possui usinas hidrelétricas. “O Legado das Águas moldou o desenvolvimento de um modelo de negócios que é parte da resposta sobre como incluir a biodiversidade nas questões econômicas e também um caminho para ampliar a busca de soluções para as mudanças climáticas.” O plano atual, segundo ele, é desenvolver novas frentes de negócio para tornar a atividade de conservação autossuficiente.

BONS VENTOS Fazenda eólica da Votorantim Energia, uma das investidas estratégicas para o futuro da companhia. (Crédito:Divulgação)

Em 15 de julho deste ano, a CBA concluiu sua oferta pública inicial (IPO) de ações no Novo Mercado da B3. Parte do portfólio da Votorantim, a CBA é atualmente a única companhia integrada de alumínio do Brasil e atua desde a mineração de bauxita até a produção de produtos primários e transformados de alumínio, desempenhando também atividades de reciclagem. Na ocasião, a empresa informou que recursos captados serão destinados a investimentos para o crescimento orgânico e potenciais aquisições estratégicas. Para o presidente do Conselho de Administração da CBA, Luís Ermírio de Moraes, o IPO foi possível “porque construímos uma empresa sólida, com operação verticalizada, autossuficiente na produção de insumos e focada em se tornar cada vez mais competitiva no seu mercado de atuação”.

Já o Instituto Votorantim apoia as empresas no desenvolvimento de estratégias socioambientais, atuando no direcionamento para as boas práticas e com uma visão de longo prazo, orientando inclusive as prioridades de investimento. O planejamento do Instituto Votorantim é feito simultaneamente com o da empresa, garantindo alinhamento entre as decisões de negócio e os objetivos socioambientais. Em novembro de 2020, a Votorantim Cimentos, empresa internacional de materiais de construção, mineração e soluções, divulgou seus Compromissos de Sustentabilidade para 2030, divididos em sete pilares: ética e integridade; saúde, segurança e bem-estar; diversidade e inclusão; inovação; pegada ambiental; economia circular e valor compartilhado. Um dos principais desafios é a redução de emissões de CO2 frente à crescente demanda populacional e de infraestrutura nos próximos anos. A meta da Votorantim Cimentos é reduzir para 520kg a emissão de CO2 por tonelada de cimento até 2030. Entre 1990 e 2019, a empresa já reduziu em 23% a sua emissão nesse critério. O volume passou de 763 kg para 587 kg. No longo prazo, a companhia se comprometeu a desenvolver e implementar tecnologias que permitam entregar para a sociedade um concreto com emissão neutra de carbono até 2050.

Com 103 anos de conquistas, crescimento e diversificação, a companhia se vê ainda mais sólida nas próximas década. “Demos passos importantes em novos negócios que têm potencial de serem muito representativos”, disse Schmidt. Ele destaca dois exemplos: a Votorantim Energia e a Altre, do setor imobiliário. “Esses são alguns dos vetores importantes do nosso futuro, novamente alicerçado em valores de integridade, colaboração e coragem.”

ENTREVISTA: JOÃO SCHIMDT, CEO DA VOTORANTIM
“A retomada do crescimento sustentável do País passa pela aceleração de investimentos”

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O ambiente político tem afetado a economia com inflação, câmbio desfavorável, alta de juros e queda do PIB. Esse cenário preocupa?
Estamos acostumados a operar num ambiente de negócios complexo e desafiador. Assim tem sido a história da Votorantim, não só no Brasil, mas também no ambiente de negócios internacional. Aprendemos que, com uma governança sólida que leve a decisões bem fundamentadas e consequentes, alicerçada sobre fortes valores, a nossa capacidade de superação é muito grande. Nossa presença hoje está em diferentes negócios e em 19 países. A diversificação nos ajuda a gerenciar os riscos que enfrentamos com tamanha volatilidade no Brasil. Apesar desse cenário, somos otimistas. Nossas raízes estão aqui e acreditamos em nossa capacidade de empreender. Mesmo durante os anos de recessão que o País enfrentou e a incerteza derivada dos contextos políticos, nunca deixamos de investir em expansão, em novos negócios, tomando decisões empresariais corajosas.

Como manter o otimismo em um momento de ameaças até institucionais?
Todos os elementos para superar este momento estão à nossa disposição como país. Acredito que há uma compreensão muito grande de forma geral sobre os desafios e as soluções possíveis no campo macroeconômico, e precisamos que o processo político leve a uma convergência de ações que possa ser virtuosa para o País.

Quais reformas deveriam ser priorizadas e por quê?
Sempre nos envolvemos nos temas ligados à melhoria do ambiente de negócios, por entender que a retomada do crescimento sustentável do País passa pela aceleração de investimentos e por uma maior participação do setor privado, com estímulo ao empreendedorismo e a criação de oportunidades. Eu daria sem dúvida destaque a uma reforma tributária ampla e estruturante, que pense o sistema como um todo. Nesse sentido, precisamos partir de princípios para poder gerar convergência. Simplificação tributária e segurança jurídica, sem aumento de carga tributária.

Um grande desafio para construir um futuro melhor é a educação. Qual o papel da Votorantim nessa área?
Acreditamos que a iniciativa privada pode e deve desempenhar um papel fundamental para melhorar a educação em nosso País. Desde 2002, o Instituto Votorantim atua como o núcleo de inteligência social das empresas da Votorantim e trabalha com geração de valor compartilhado. Por meio da Parceria pela Valorização da Educação (PVE), essa iniciativa tem acumulado resultados positivos, com impacto, também, no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Em 2018, ano do centenário da Votorantim, o PVE alcançou 100 municípios. Ao todo, um contingente de mais de 40 mil pessoas, com múltiplos conhecimentos e habilidades, soma forças ao PVE e aumenta o poder de transformar a educação nos municípios.