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Copacabana Palace by LVMH

Ao adquirir os hotéis do grupo Belmond por US$ 3,2 bilhões, os controladores das grifes Louis Vuitton, Moët e Hennessy tornam-se donos também do mais célebre endereço do Rio de Janeiro

Crédito:  Genevieve Naylor/Corbis

Bernard Arnault, o CEO do grupo francês LVMH, costuma definir com uma frase o sucesso e a longevidade das operações que comanda: “Nosso modelo de negócios está ancorado em uma visão de longo prazo que se baseia na herança de nossas maisons e estimula a criatividade e a excelência”. Isso não apenas impulsiona o grupo como garante seu “futuro promissor”. A definição só é imperfeita por ocultar da fórmula as aquisições bilionárias. A própria sigla escolhida para a holding é prova disso: ela combina as grifes Louis Vuitton (LV), Moët e Henessy (MH). Se a fusão inicial ambicionava a liderar o mercado de alta qualidade nos segmentos de moda e bebidas, com o tempo abrangeu perfumes e cosméticos, relógios e joias, até chegar ao varejo, caso da rede de lojas Sephora. E as aquisições jamais pararam. Em 2017, ano em que faturou E42,6 bilhões, a LVMH adquiriu a Christian Dior. Na sexta-feira 14, foi a vez de anunciar outro negócio de peso: a compra do grupo de hotéis de luxo Belmond, por US$ 3,2 bilhões. Com a aquisição, a LVMH se torna dona do lendário Copacabana Palace, com 95 anos de história.

LADY DI: sempre importunada por paparazzi, a princesa não se furtou aos banhos de piscina (Crédito:Wilson Pedrosa)

Mais que um hotel, o Copa é em si uma celebridade. Em seus salões bailaram estrelas como Ava Gardner e Jane Mansfield. As vozes de Nat King Cole e de Janis Joplin ecoaram no mármore de suas paredes. E as luzes da piscina foram apagadas para que a princesa Diana pudesse nadar em paz. Além de transbordar glamour, o Copa também foi cenário de intrigas. Uma delas quase terminou com o assassinato do então presidente Washington Luís. Em 1928, ele estava hospedado no Copa quando levou um tiro da amante, a italiana Elvira Vishi Maurich. Sobreviveu, mas ela não. Segundo a polícia, foi suicídio. Curiosamente, o Copa deve sua existência a outro presidente, Epitácio Pessoa. Ele queria um hotel para hospedar os estrangeiros que visitariam a Exposição do Centenário da Independência do Brasil, em 1922. Fez um acordo com os empresários Octávio Guinle e Francisco Castro Silva: além de incentivos fiscais, daria a autorização para um cassino. Negócio fechado.

CHAMPAGNE Com arquitetura claramente inspirada nos grandes hotéis da Riviera Francesa, o Copacabana Palace foi desenhado pelo arquiteto Joseph Gire (francês), mas construído à maneira do Brasil: com incidentes e atrasos. Uma ressaca arruinou parte das obras e a inauguração ficou para agosto de 1923, bem depois das celebrações do centenário da Independência. Pior: a licença para a jogatina foi cassada um ano após a inauguração – e a família Guinle teve de esperar mais uma década até poder abrir ao público suas roletas e mesas de carteado. E foram necessários mais dez anos até que o Copa ganhasse fama internacional. Ela veio a partir do sucesso do filme “Voando para o Rio”, com a dupla Fred Astaire e Ginger Rogers. Embora a trama seja ambientada no hotel de Copacabana, as filmagens foram feitas nos Estados Unidos. Mas a propaganda deu resultado. Nas décadas seguintes, o herdeiro Jorginho Guinle conciliou como ninguém os papéis de playboy bem-relacionado no jetset e anfitrião generoso. Além de atrair uma legião de famosos para o hotel, Jorginho ajudou a criar uma reputação de qualidade nos serviços que perduraria por mais de meio século. Em 1989, a família Guinle vendeu o já decadente Copa para o grupo Orient Express, hoje Belmont. Os novos donos — que no Brasil possuem também o Hotel das Cataratas, em Foz do Iguaçu — fizeram reformas que permitiram ao ícone carioca se modernizar sem perder o requinte do passado. Agora com novos donos, ele tem a chance de acrescentar novos capítulos à sua bela história.

Anfitrião charmoso:
Jorginho Guinle (com a atriz Jane Mansfield), recebia pessoalmente hóspedes famosos, caso de Nat King Cole ( gravando uma entrevista) e Janis Joplin, que fez questão de ir a um dos lendários bailes de Carnaval do Copa

“Estamos confiantes de que, como parte da família de marcas de nível internacional da LVMH, a capacidade da Belmond de fornecer experiências de luxo únicas e atemporais alcançará novos níveis”, afirmou Roeland Vos, presidente e CEO da Belmond, em comunicado oficial sobre a transação. A fala de Vos reverbera as palavras de Arnault, da LVMH, sobre herança e visão de longo prazo. Uma coisa é certa: com o portfólio de bebidas que o grupo controla, será fácil abastecer a adega do Copa com “vinhos da casa” — no caso, Moët & Chandon, Veuve Clicquot, Krug, Ruinart…