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Conheça quem vai liderar o agro. Dica: pode não ser o Brasil

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Inflação mundial de alimentos deve acelerar soluções tecnológicas, e o Brasil pode ficar para trás no próximo capítulo do agrobusiness global (Crédito: Pixabay)



Numa curva sem precedentes históricos, os preços dos alimentos dispararam no planeta. É claro que isso foi agravado pela crise global iniciada no leste europeu, desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, no fim de fevereiro. Milho, trigo e arroz – a trindade dos cereais que alimenta o mundo – tiveram altas globais de preços na média de 17,1%. O milho se elevou 19,1%. O trigo teve alta de 19,7%. Os dois maiores exportadores dessa dupla são exatamente Rússia e Ucrânia. Nos últimos três anos, metade das exportações internacionais de trigo & milho foi conduzida pela dupla de países hoje em conflito. O estrago só não foi completo porque o arroz oscilou negativamente cerca de 10%.

De toda forma, a subida de preços antecede a guerra. O Índice de Preços de Alimentos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, na sigla em inglês) alcançou 159,3 pontos em março, “alta de 12,6% em relação a fevereiro, quando já havia atingido seu nível mais alto desde sua criação, em 1990”, segundo o órgão.

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A questão é que esses preços podem não ter volta naturalmente. Será preciso aplicar tecnologia intensiva e repensar como produzimos e, principalmente, como distribuímos alimentos para 8 bilhões de pessoas de maneira que uma parte considerável não fique fora da mesa. O 28 de maio será celebrado como o Dia Mundial da Fome. De acordo com o The Hunger Project, hoje 690 milhões de pessoas vivem com fome crônica, sendo que 265 milhões estão em situação de grave insegurança alimentar ou famintas mesmo. Para responder a essa tragédia, a saída não será espacial – ocupar mais e mais áreas de produção, como é a lógica brasileira. A resposta dependerá muito mais de soluções de tecnologia avançada. Big Data, Inteligência Artificial, Internet das Coisas e Machine Learning obrigatoriamente serão termos para colocar na mesa.




Segundo estudo divulgado em abril pela Emergen Research, empresa canadense de consultoria e pesquisa de mercado especializada em criar estratégias de crescimento disruptivas e lastreadas em tecnologias de ponta, na última década houve uma mudança de paradigma, com os mercados buscando cada vez mais marcas limpas. “Os consumidores de hoje estão interessados ​​em conhecer e entender os ingredientes usados ​​nos alimentos, a rastreabilidade desses ingredientes e cada vez mais conscientes das fraudes alimentares”. Ou seja: os players do setor serão responsabilizados por toda a cadeia. Mais do que isso. Eles entrarão na equação de resolver a fome. Uma nova ética corporativa, em que o problema da fome é problema da indústria de alimentos e não um acaso geográfico.

Aí o mundo food tech será a chave. O Brasil construiu para sua agroindústria uma plataforma blindada. Legislação específica, sofisticados institutos de pesquisa & desenvolvimento, linhas de crédito diferenciadas e subsidiadas… Esse arsenal de soluções e ferramentas culminou num universo de excelência e produtividade – a despeito de ainda convivermos com centenas de empresários toscos, os ogroagricultores e os ogropecuaristas, o nosso agro-ogro. Pois agora o mundo já inicia novo salto, e o Brasil parece anestesiado. De acordo com a Emergen Research, “o food tech permite produção e manutenção de alimentos muito mais eficientes”. Isso significa ter mapeada e qualificada a cadeia toda: produtor, logística, distribuidor, varejista, consumidor.

“O aumento da inovação e os rápidos avanços nas tecnologias estão contribuindo para o crescimento da receita desse setor”, diz o estudo. Com isso, o mercado global de tecnologia de alimentos deve chegar a US$ 342 bilhões em 2027. As fronteiras iniciais ainda envolvem a rastreabilidade da cadeia de suprimentos, a chegada da geração de empresas produtoras de alimentos à base plantas (cujo maior ícone são os hambúrgueres feitos de vegetais) e a revolução das varejistas. Neste campo, o envolvimento mais surpreendente talvez não seja das gringas Burger King e McDonald’s, mas sim da Amazon. Sim, a corporação de Jeff Bezos, que nasceu vendendo livros on-line, é um dos maiores expoentes na atuação para fazer chegar a consumidores de todo o mundo alimentos frescos em casa. Comida nunca foi coisa de criança. Se o Brasil continuar pensando que a produção é a parte decisiva do jogo e se contentar com seu papel de produtor, corre o risco – novamente – de ficar para trás na narrativa da história. Food tech não é um fazendão produtivo. É toda a jornada.