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Conheça mais sobre a Groenlândia, novo objeto do desejo de Trump

Conheça mais sobre a Groenlândia, novo objeto do desejo de Trump

Iceberg flutua ao longo de Kulusuk, na Groenlândia, em 16 de agosto de 2019 - AFP

Por que Donald Trump quer fazer da Groenlândia o 51º estado americano? À primeira vista, este imenso território gelado oferece poucos atrativos, mas seus recursos naturais e sua situação geográfica fazem dele uma peça importante para o futuro, diante do apetite de China e Rússia no Ártico.

Copenhague e o governo local rejeitaram de forma categórica a oferta de compra da possessão dinamarquesa autônoma feita pelo presidente americano. Em resposta, Trump cancelou uma visita que faria no início de setembro à Dinamarca, seu aliado na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

– “Terra verde” –

A Groenlândia – “terra verde” em dinamarquês – tem verde apenas no nome. Com três quartos de sua superfície cercados pelas águas do oceano Ártico, esta ilha de quase dois milhões de quilômetros quadrados (quase quatro vezes o tamanho da França) é 85% recoberta de gelo.

A Groenlândia era uma colônia dinamarquesa até 1953, quando passou a fazer parte da “Comunidade do Reino” dinamarquês. Em 1979, a ilha ganhou status de “território autônomo”, com uma economia que depende fortemente de subsídios de Copenhague.

Mais de 90% de seus 55 mil habitantes são inuits procedentes da Ásia Central. Cerca de 17 mil vivem na capital, Nuuk.

– No centro do aquecimento global –

Este imenso território se encontra na linha de frente do derretimento das geleiras árticas, região que se aquece duas vezes mais rápido do que o restante do planeta.

Segundo a Organização Meteorológica Mundial, o nível dos oceanos continua a subir em torno de 3,3 milímetros por ano, e o fenômeno parece se acelerar: o nível dos mares aumentou de 25% a 30% mais rápido entre 2004 e 2015, em relação ao intervalo de 1993 a 2004.

O derretimento da calota glacial da Groenlândia (inlandsis, ou manto de gelo) está na origem de 25% deste aumento, contra 5% há 20 anos, e corre o risco de se intensificar à medida que geleiras e calotas de gelo derretem.

Se vier a desaparecer totalmente, o território tem gelo suficiente para elevar em sete metros o nível dos oceanos.

– Gemas e petróleo –

Para além da exportação de pescado, é sobretudo por suas entranhas que a Groenlândia desperta tanto interesse das potências estrangeiras: seu subsolo esconde minerais preciosos (ouro, rubi, urânio, olivina) e reservas de gás e petróleo.

A China já tem uma licença para uma mina de terras-raras.

O derretimento das geleiras também deixa escapar uma espécie de poeira rochosa, rica em minerais que podem servir de fertilizante para solos exaustos e áridos, como na África, ou na América do Sul, por exemplo.

– Rotas do Norte –

No fim da Guerra Fria, Washington abandonou o Ártico, mas a situação mudou com as novas pretensões chinesas e com o intervencionismo da Rússia para além de suas fronteiras.

A China avançou uma presença que é, por enquanto, sobretudo econômica e científica. Ela se espalha para ganhar mercados e espera tirar proveito da rota do Norte, que reduz o trajeto entre os oceanos Pacífico e Atlântico.

Já a Rússia espera se tornar, no Ártico, primeira potência econômica e militar, também se beneficiando da rota do Norte e da abertura da passagem do Norte-Leste, que simplificará a entrega de hidrocarbonetos no Sudeste Asiático.

– Uma velha ambição –

Não é a primeira vez que os Estados Unidos tentam colocar as mãos na Groenlândia. Já em 1867, o Departamento de Estado havia manifestado seu interesse. Depois, em 1946, o presidente Harry S. Truman havia oferecido US$ 100 milhões no câmbio da época – em ouro – por essa ilha e por territórios do Alasca. Sem sucesso.

Os americanos conseguiram desenvolver sua base aérea de Thulé, no extremo norte-ocidental da Groenlândia. Com 600 homens, a base da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) opera sistemas de alerta para a detecção de mísseis balísticos e de vigilância por satélite.

Talvez Donald Trump tenha consultado um manual de História ao propor a compra da Groenlândia à Dinamarca. Em 1916, o reino escandinavo concordou com a venda, por US$ 25 milhões, das Índias Ocidentais Dinamarquesas, nas Antilhas, que se tornaram as Ilhas Virgens Americanas.