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Rússia e Turquia tentam impedir escalada após mortes de soldados turcos


O presidente russo, Vladimir Putin, e seu colega turco, Recep Tayyip Erdogan, manifestaram “preocupação”, nesta sexta-feira (28), com a escalada brutal no noroeste da Síria, após a morte de mais de 30 soldados turcos em bombardeios do regime de Damasco.

Sinal da gravidade da situação, Erdogan e Putin conversaram por telefone pela manhã e de acordo com o Kremlin, os dois líderes expressaram sua “séria preocupação” com a situação em Idlib e decidiram estudar a “possibilidade de realizar uma cúpula em breve”.

O embaixador russo nas Nações Unidas, Vassily Nebenzia, declarou ao Conselho de Segurança que seu país está “pronto para trabalhar em uma desescalada com todos os que desejarem”.

“Uma delegação russa se encontra em Ancara para estabilizar a situação”, disse Nebenzia durante reunião de emergência do Conselho de Segurança convocada a pedido de Reino Unido, Estados Unidos, Alemanha, França, Bélgica, Estônia e República Dominicana.

Depois de sofrer as maiores perdas em um único ataque desde o início de sua intervenção na Síria em 2016, Ancara pediu o apoio da comunidade internacional, brandindo a ameaça de um novo afluxo de migrantes para a Europa.

Erdogan e seu colega americano, Donald Trump, concordaram que é preciso evitar uma “tragédia humanitária” no norte da Síria após a morte dos soldados turcos.

“Os dois líderes acordaram medidas adicionais para evitar uma tragédia humanitária ainda maior na região de Idlib”, palco de uma ofensiva de Damasco com o apoio da Rússia para expulsar os rebeldes apoiados pela Turquia e os jihadistas.

“O regime sírio, a Rússia e os iranianos devem deter sua ofensiva antes de que mais civis inocentes sejam assassinados e deslocados”, explicou a Casa Branca.

Na quinta-feira, pelo menos 33 soldados morreram em ataques aéreos atribuídos por Ancara ao regime sírio, na região de Idlib. A Turquia respondeu, matando pelo menos 16 combatentes sírios, de acordo com o Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH).

Na noite desta sexta-feira, o ministério da Defesa turco informou a morte de mais um soldado, acrescentando que a Turquia “segue atacando objetivos do regime” de Damasco.

Segundo o OSDH, dez combatentes do Hezbollah libanês que combatiam ao lado das forças do regime sírio morreram em ataques turcos na região de Saraqeb.

A ONG informou ainda que ataques atribuídos à aviação russa mataram sete civis.

A situação humanitária é crítica em Idlib, onde centenas de civis foram mortos, e quase um milhão de pessoas, deslocadas nos últimos meses, pela ofensiva conduzida desde dezembro passado pelo regime de Damasco.

Diante dessa situação volátil, as Nações Unidas pediram um cessar-fogo imediato, e a União Europeia expressou preocupação com o “risco de um grande confronto militar internacional” na Síria.

– Ameaça migratória –

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), da qual Ancara é membro, realizou nesta sexta uma reunião de emergência a pedido da Turquia, nos termos do artigo 4 do tratado. Este dispositivo pode ser invocado por um aliado que considerar sob ameaça sua integridade territorial, independência política, ou segurança.

Em Ancara, a Presidência turca também convocou a comunidade internacional a estabelecer uma zona de exclusão aérea em Idlib para conter os aviões do governo sírio e de Moscou que bombardeiam a região há vários meses.

Em uma aparente tentativa de pressionar a União Europeia, Ancara anunciou que não iria mais deter os migrantes que tentam viajar para a Europa, passando pela Turquia. A declaração traz à tona o espectro da grave crise migratória que abalou o continente europeu em 2015.

Em Istambul, ônibus foram disponibilizados para os migrantes que desejam ir para a fronteira grega, segundo a imprensa turca.

Imagens captadas por drones mostram dezenas de migrantes atravessando campos com sacos nas costas, ou na cabeça, e outras pessoas atravessando uma floresta em direção à fronteira grega.

Um vídeo publicado pela agência de notícias DHA mostrava um barco inflável cheio de migrantes, partindo da costa oeste da Turquia com destino à ilha grega de Lesbos, no Mar Egeu.

– O dobro de patrulhas –

Para lidar com esta situação, Atenas anunciou o dobro de patrulhas na fronteira turca. E a UE exortou Ancara a respeitar seus compromissos de combater as travessias ilegais.

A Turquia abriga cerca de quatro milhões de migrantes e refugiados, principalmente sírios. O governo turco teme um novo influxo de Idlib, onde mais de 900.000 pessoas estão refugiadas perto da fronteira há três meses, segundo a ONU.

Os confrontos entre as forças turcas e sírias comprometem a estreita cooperação desenvolvida nos últimos anos entre Ancara e Moscou em várias áreas, como Síria, defesa e energia.

Nesta sexta-feira, o Ministério russo da Defesa disse que os soldados turcos mortos na quinta-feira foram atingidos, porque estavam entre “unidades combatentes de grupos terroristas”. A versão é negada por Ancara de forma categórica.

Já o chefe da diplomacia russa, Serguei Lavrov, apresentou suas “condolências” e afirmou que Moscou está fazendo “tudo para garantir a segurança dos soldados turcos” posicionados na Síria.

No terreno, o regime sírio e seu aliado russo reconquistaram várias localidades em Idlib nas últimas semanas, mesmo que grupos rebeldes apoiados por Ancara tenham retomado a cidade estratégica de Saraqeb na quinta-feira.

Deflagrada em março de 2011 pela repressão de manifestações pacíficas, a guerra na Síria matou mais de 380 mil pessoas.