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Confira os anônimos que ganharam notoriedade em 2019

Alguns saíram do anonimato, outros ainda continuam nas sombras. Marcaram o fim da década nos palcos internacionais. Confira esta seleção de “anônimos” que encontraram a fama em 2019.

1 – O denunciante que desencadeou o “impeachment”

Este misterioso agente da CIA, que trabalhou por um tempo na Casa Branca, ficou alarmado com o conteúdo de um telefonema no qual o presidente Donald Trump teria pedido à Ucrânia que investigasse um de seus adversários. O denunciante não participou da conversa, mas obteve os testemunhos de várias autoridades que tiveram acesso. Trump teria condicionado uma ajuda militar a esta investigação, o que significaria abuso de poder para benefício pessoal.

Seu alerta, bloqueado durante um tempo por seus superiores, chegou em setembro ao Congresso, onde os representantes democratas decidiram dar início a uma investigação para um processo de impeachment sobre os fatos denunciados. O denunciante desencadeou, assim, audiências de mais de quinze testemunhas no Congresso americano, sem que a Casa Branca pudesse fazer nada.

Levando em conta a maioria democrata na Câmara Baixa, o republicano Donald Trump deveria ser impugnado (“impeachment”), algo que só ocorreu com outros dois presentes dos Estados Unidos antes dele: Andrew Johnson, em 1868, e Bill Clinton, em 1998, ambos absolvidos. Depois, seria julgado no Senado, onde a maioria republicana teria que salvá-lo da destituição.

Donald Trump, que diz ser vítima de uma conspiração política, costuma acusar o denunciante de estar a serviço dos democratas e lhe pede para “sair da sombra”.

Veículos de comunicação ligados à extrema direita, representantes republicanos e até mesmo Donald Trump Junior deram nome a esta fonte, violando as normas de proteção dos denunciantes.

2 – A porta-voz de uma geração em defesa do clima

Sentada no frio chão de pedra em frente ao Parlamento em Estocolmo, Greta Thunberg, uma adolescente de tranças ainda anônima um ano atrás, tornou-se a consciência ambiental do mundo e a voz de uma geração exasperada pela inação de seus dirigentes.

Tudo começou em agosto de 2018, quando a jovem sueca de 16 anos lançou a “greve dos estudantes pelo clima”. Armada com um cartaz de papelão, chamou rapidamente a atenção da mídia sueca e depois dos veículos internacionais. Em questão de meses, a adolescente com síndrome de Asperger, um transtorno do espectro autista, se impôs como a defensora do planeta.

Jovens de todo o mundo se uniram à sua causa. As “sextas pelo futuro” levaram às ruas milhões de jovens antes da cúpula da ONU sobre o clima em setembro de 2019, em Nova York, aonde foi a bordo de um veleiro para evitar as emissões elevadas da viagem de avião.

Na metrópole americana, disse aos poderosos: “Como se atrevem? Roubaram meus sonhos e minha infância com palavras vazias”.

Amada e odiada, Greta contribuiu para situar a emergência climática no centro das preocupações globais. Na Europa, cerca de 80% dos entrevistados consideram agora que se trata de um problema muito grave, segundo pesquisa do Eurobarômetro, publicada em abril de 2019. Seu país, a Suécia, é o único da Europa onde mais da metade dos consultados pensam que as mudanças climáticas são o problema mais grave.

3 – Juan Guaidó, o homem que desestabilizou Nicolás Maduro

Não era o homem das grandes discursos contra o governo socialista de Nicolás Maduro, mas Juan Guaidó emergiu com força, ao se autoproclamar presidente encarregado da Venezuela diante de uma multidão. Sua liderança, no entanto, vem se esvaziando.

Alto e magro, com os cabelos pretos pontuados por alguns fios brancos, o deputado de 36 anos se pôs à frente de uma fragilizada oposição, com seus principais dirigentes presos, exilados ou inabilitados.

Proclamou-se presidente em 23 de janeiro, 18 dias depois de assumir a presidência do Parlamento, cuja maioria opositora declarou Maduro um “usurpador”, acusando-o de ter se reeleito mediante fraude. É reconhecido por meia centena de países, com os Estados Unidos à frente.

Sua popularidade, que chegou a 63%, caiu a 42% em outubro, segundo a Datanálisis.

Engenheiro industrial, casado e pai de uma menina de dois anos, diz ter “tentado de tudo”.

Em 23 de fevereiro, chefiou uma frustrada operação para cruzar as fronteiras com carga de alimentos e insumos médicos, pretendendo quebrar o apoio militar a Maduro.

Em 30 de abril, liderou o levante de um grupo de militares, junto com seu mentor, Leopoldo López, que se refugiou na residência do embaixador da Espanha, com o fracasso da intentona.

Guaidó se define como um “sobrevivente” da ‘Tragédia de Vargas’, deslizamentos que deixaram milhares de mortos em dezembro de 1999 no estado costeiro de Vargas. Ali morava com a mãe e seus cinco irmãos.

Enfrenta vários processos judiciais, que o poriam na prisão por 30 anos, e Washington adverte que prendê-lo seria “o último erro” de Maduro.

Com um reduzido poder de convocação devido ao desgaste dos protestos, em 5 de janeiro conclui seu período à frente do Parlamento, embora haja acordos para a sua continuidade.

4- Ícone da revolução sudanesa

Vestida de branco e saudando a multidão do teto de seu carro, Alaa Salah se tornou um dos ícones da revolução sudanesa e a porta-voz das mulheres de seu país. Seu porte lhe valeu o apelido de “Kandaka” ou “rainha núbia”, em alusão aos soberanos que fizeram história nesta região na antiguidade.

O dedo apontado para cima, convocando a lutar contra o poder, a imagem da sudanesa de 22 anos viralizou nas redes sociais durante o movimento de protesto contra o regime de Omar al Bashir, que chegou ao poder em 1989 e foi destituído pelo Exército em 11 de abril sob pressão das ruas.

Apesar das ameaças de morte que esta estudante de arquitetura e de engenharia de Cartum diz ter recebido, ela exortou no Twitter os sudaneses a não voltarem atrás diante do “ditador tirano”.

A partir de abril, Salah se comprometeu a defender os direitos da mulher do Sudão, onde séculos de tradição patriarcal e décadas de leis determinadas por um regime que aplicava a ‘sharia’ (lei islâmica) limitaram o papel das mulheres na sociedade.

Em outubro, denunciou perante o Conselho de Segurança da ONU “as discriminações contra as mulheres e as desigualdades acumuladas em décadas de conflito e de violência”.

As mulheres estiveram na linha de frente das manifestações contra Bashir e os militares que o substituíram.

O Sudão aplica há anos uma lei sobre a ordem pública que, segundo os militantes dos direitos humanos, vai sobretudo contra as mulheres. A lei está prestes a ser anulada pelo Conselho Soberano, estabelecido em agosto para supervisionar a transição do país a um regime civil.

5 – Bombeira e anjo da guarda de Notre Dame

A bombeira Myriam Chudzinski, com os cabelos louros presos em um coque e voz pausada, encarna o perigoso resgate na catedral de Notre-Dame, em Paris, que manteve o mundo em vigília em abril passado. Entre os 600 bombeiros mobilizados para combater as chamas da catedral, inscrita no patrimônio da humanidade, Chudzinski integrou a primeira equipe a chegar ao local.

Enquanto muitos seguravam a respiração ao ver a propagação do fogo no telhado, a jovem de 27 anos estava em pleno inferno. Com máscara no rosto, mangueiras nas costas, subiu com alguns colegas a escadaria estreita e em espiral que leva até a beira e se deparou, ao abrir a porta, com “uma visão do inferno”.

Durante uma hora, a equipe ficou no meio do incêndio que devorou o telhado do monumento mais visitado da Europa e, com um punhado de mangueiras e constantemente obrigada a recuar, a jovem conta que se sentia “pequenina” diante da velocidade com que as chamas se propagavam.

Surpreendida pelas chamas, a bombeiro viu a seta da catedral desabar, consumida pelo incêndio, e escutou um “ruído angustiante”: sua equipe acabava de perder a “batalha pelo telhado”, mas os bombeiros acabariam por vencer a da torre.

Se hoje Notre-Dame segue de pé é porque conseguiram conservar a estrutura de madeira das duas torres da fachada, após uma noite que entrará para a história.

“É a intervenção da minha vida”, admitiu dias depois a jovem, que seguirá sendo um dos rostos emblemáticos dessa operação histórica.

6- A capitã dos migrantes

Aos 31 nos, no leme do barco humanitário Sea-Watch 3, a alemã Carola Rackete desafiou o bloqueio italiano ao desembarcar em Lampedusa em julho de 2019 com 43 migrantes que tinha resgatado no Mediterrâneo após duas semanas à deriva no mar.

Sua determinação lhe valeu a ira do então ministro italiano do Interior, Matteo Salvini, defensor da luta contra a imigração ilegal, que acusou a capitã, a quem chamou de “criminosa alemã” de cometer um “ato de guerra”. Devolveu, ainda, ao centro da atualidade o drama destes seres humanos que decidem arriscar suas vidas para tentar chegar à Europa e fugir de guerras, perseguições e miséria.

Detida ao chegar à Itália, antes de ser expulsa, segue pesando sobre ela uma denúncia por ter atracado no porto da ilha siciliana. O Tribunal Supremo se pronunciará a respeito em 16 de janeiro. No entanto, esta jovem ambientalista não tinha a intenção de ser a capitã do barco e adamite que “nunca gostou de navegação: a bordo é terrivelmente chato”.

Após estudar ciências, Rackete começou a trabalhar com o Greenpeace e o British Antarctic Survey, operador nacional britânico de pesquisa científica na Antártica.

Participou em 2016 pela primeira vez em uma missão de salvamento no mar com a ONG humanitária alemã Sea-Watch.

Depois deste episódio, Rackete dedica seu tempo à defesa do meio ambiente e a participar de marchas pelo clima com o movimento Extinction Rebellion. A ativista de cabelo rasta admite ter dificuldade em lidar com sua popularidade. “Nestes últimos meses, criou-se uma figura simbólica que não tem muito a ver comigo”, destacou.

7- A cientista atrás do buraco negro

Katie Bouman, de 30 anos, se tornou uma celebridade mundial por seu papel na criação da primeira imagem obtida de um buraco negro, publicada em abril por um grande projeto de colaboração internacional, o Event Horizon Telescope (EHT).

A jovem, cuja especialidade é a imagem em computador, estudava, então, um pós-doutorado no instituto astrofísico Harvard-Smithsonian.

Em 2017, o projeto EHT realizou uma observação simultânea de dois buracos negros com oito radiotelescópios distribuídos por todo o planeta.

As observações geraram uma montanha de dados informáticos que demandaria uma exploração para reconstruir a primeira imagem de um buraco negro, cobrindo as lacunas das observações, como se os oito telescópios formaram um único gigante do tamanho da Terra.

Katie era responsável pelo desenvolvimento do algoritmo que permitiu traduzir os terabytes de dados em uma única imagem que o mundo descobriu em 10 de abril: um disco cercado por um halo alaranjado um pouco difuso.

O momento em que Katie Bouman descobriu a imagem pela primeira vez foi imortalizado em uma foto em que a pesquisadora, sentada diante de seu computador, parece assombrada, enquanto olha para o objetivo colocando as duas mãos sobre a boca.

Esta imagem deu rosto a um dos maiores avanços da história da astronomia. O instante foi “uma das lembranças mais felizes da minha vida”, disse. Atualmente é professora da Universidade Cal Tech no departamento de ciências informáticas.

8 – O criador do sucesso Old Town Road

Há pouco menos de um ano, Montero Hill acabara de deixar seus estudos universitários na Geórgia e estava vivendo em casa de sua mãe sem trabalho, sem carro e inclusive sem carteira de motorista, mas graças a um único tema, “Old Town Road”, que depois ficaria conhecido com o nome de Lil Nas X ficou bilionário.

O sucesso ficou 19 semanas consecutivas, de abril a agosto, no topo das vendas nos Estados Unidos, desbancando Mariah Carey e o chiclete “Despacito”, de Luis Fonsi e Daddy Yankee, com Justin Bieber. Todas as versões do tema têm mais de 1,3 bilhão de execuções no Spotify.

Aos 20 anos, Lil Nas X compôs “Old Town Road” com base em uma composição comprada por 30 dólares de um músico radicado na Holanda, cujo resultado, que mistura banjo com baixos pesados, se apresentava como uma canção de rap com toques de country.

No entanto, a Billboard se negou a integrá-lo na lista dessa categoria porque “não reunia os elementos suficientes da música country atual”.

Alguns dias depois da decisão da Billboard, Lil Nas X apresentou uma mistura do que já era um sucesso com a mistura do que já era um sucesso junto a Billy Ray Cyrus, estrela da música country e pai da estrela do pop Miley Cyrus.

Apesar da legitimidade de Billy Cyrus, nomeado em duas ocasiões aos Grammy em categorias country, a versão voltou a ficar nas portas da classificação, mas se impôs no topo das vendas de todos os estilos.

Além de “Old Town Road”, Lil Nas X encantou por sua personalidade, seu bom humor e sua estética, não hesitando em vestir roupas tradicionais do country e do universo dos caubóis, como jaquetas de franja ou botas de cano alto.

Após ter feito sucesso com uma mistura exótica entre o rap e o country, voltou-se um pouco mais para o mundo do hip-hop e confessou sua homossexualidade, o que até agora nenhum rapper de grande projeção havia feito.

9- A acusadora de Polanski

Desconhecida do grande público até 9 de novembro, Valentine Monnier entregou naquele dia ao jornal francês Le Parisien um testemunho que provocou o efeito de uma bomba: ela acusou Roman Polanski de tê-la violentado em 1975 em Gstaad (Suíça), quando tinha 18 anos.

Hoje com 60 anos, esta fotógrafa também foi modelo em Nova York e atriz nos anos 1980, trabalhando em alguns filmes como “Le Bar du téléphone” (1980) de Claude Barrois.

Seu testemunho a colocou na primeira fila e suas acusações, afirmando que Polanski a “moeu a pancadas até se render” e a “violentou fazendo-a sofrer todas as vicissitudes” – reacendendo a ira das feministas contra o cineasta franco-polonês, já acusado por outras mulheres nos últimos anos e processado nos Estados Unidos por ter relações sexuais ilegais com uma menor em 1977.

Valentine Monnier explicou que o choque, a negação, sua própria juventude no momento dos fatos e as advertências a impediram de falar na ocasião, e que decidiu fazê-lo no momento do lançamento na França do filme de Polanski, “J’accuse” (Eu acuso, em tradução livre), um título que ela elegeu para uma série de fotos sobre o estupro.

O lançamento do filme foi alterado por seu testemunhos, houve bloqueios em algumas salas por parte de feministas e pedidos de boicote, embora tenha sido um sucesso na França com 890.000 espectadores em duas semanas.

Em uma rápida declaração à AFP, Monnier agradeceu às “vozes que a apoiam” e indicou “não querer dar mais declarações, nem se expressar publicamente”.