Como vamos trabalhar nesse mundo novo?

Como vamos trabalhar nesse mundo novo?

Há três meses, o mundo era um. Hoje, é outro – e alguns exercícios de futurologia das últimas semanas, para imaginar como ele ainda será, começam a se confirmar. Home office, por exemplo, vai ser uma regra, não mais a exceção – megacorporações já anunciaram que não terão mais os megaescritórios de antes, e seus funcionários vão trabalhar de qualquer lugar em que estejam. Viagens corporativas ficarão reduzidas ao mínimo necessário. E ambientes virtuais de trabalho serão o dia a dia desse mundo novo.

Para as mulheres que trafegam nesse cenário, o que isso tudo significa?

Poder trabalhar de casa, pelo menos uma parte da semana, era alguma coisa com que muitas sonhavam desde sempre – pelo horário flexível, a jornada mais equilibrada ou a proximidade com os filhos e a família. E isso aparecia em todas (todas!) as pesquisas daquele passado distante que terminou em março. Vieram então as longas semanas de isolamento social para mostrar que home office pra valer não tem nada de romantismo – é trabalho muitas vezes isolado, solitário e duro.

E ainda mais duro para quem tem a chamada dupla jornada, que não se resolve como mágica quando o home office começa. Pelo contrário: os relatos, em todos os cantos do planeta, são de mulheres esgotadas – ok, as crianças estão em casa e, uma hora, vão voltar para a escola. Ainda assim, mulher dentro de casa é o estopim da construção social de que tudo ali é sua responsabilidade. Dados oficiais do IBGE mostram que, mesmo trabalhando fora, as brasileiras dedicam mais que o dobro de horas às tarefas da família quando comparadas aos homens (não custa lembrar que seus salários são ainda 20,5% menores).

Nesse caso, home office sem uma divisão justa dos afazeres – com o homem assumindo uma parte considerável dos seus 50% no “empreendimento” – continuará sendo… a mesma coisa para a mulher. E sem que isso mude, o risco ainda é transformar aquele tempo economizado por ela no trânsito em mais alguma tarefa doméstica (sim, este é um exercício cruel de futurologia).

Quanto às viagens corporativas, devem ser reduzidas pela metade a julgar por uma pesquisa recém saída do forno na revista Forbes, com as 500 maiores empresas americanas. E se vão ser cortadas é porque, enfim, alguém descobriu que boa parte delas são desnecessárias – ninguém brinca em serviço nessas empresas, e agora será preciso pisar no freio de todas as despesas inúteis.

Para as mulheres, a aposta é de um efeito positivo. Não há executiva que não tenha experimentado a sensação de pisar num avião, em viagem a trabalho, sem carregar um contêiner de culpa junto. É do jogo, conta pontos para subir na carreira etc e tal. E não que os homens não sintam lá uma pontinha de culpa nessas viagens. Mas o papel de cada um em tudo o que fica para trás torna essa diferença gritante. Será um alívio.

Em home office e sem tantas viagens, vamos mergulhar de vez no trabalho em ambientes virtuais. As reuniões por vídeo vão se consolidar, e sairemos do modo experimentação das últimas semanas para incorporar de vez as calls e as lives em nossas rotinas. Melhora ou piora para as mulheres?

Não dá para saber ainda. Nas reuniões presenciais, há uma dinâmica estabelecida que é (testada e aprovada em pesquisas científicas inclusive) dominada pelos homens. Eles falam mais, argumentam mais – e interrompem mais as mulheres, numa prática que até ganhou nome, o “manterrupting”. Nas reuniões virtuais, ainda teremos de descobrir como isso se desenrola.

O que sabemos é que é diferente (quase esquisito) ter todo mundo na mesma tela, num ambiente em que apenas um fala de cada vez ou, literalmente, ninguém entende nada. Do mesmo jeito, fica tão evidente quando só um monopoliza a fala, muito mais do que numa sala física, que o melhor é evitar. Algumas mulheres já relataram que se sentem mais à vontade para expor seus pontos de vista nos ambientes virtuais, por se sentirem mais “iguais”. Outras consideram que são ainda piores, e que tomar a palavra é mais complexo – o recurso de chegar de mansinho, dedinho levantado num gesto de “com licença” não funciona.

Se é isso mesmo, só vamos saber dentro de algum tempo. Porque ainda tem muita futurologia feita também a respeito de salários, vagas e algum retrocesso nos avanços das mulheres nos últimos anos. Tema para a semana que vem.

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Sobre o autor

Junia Nogueira de Sá é jornalista, consultora de comunicação estratégica e conselheira de empresas e organizações sociais; é também delegada brasileira no Women20 do G20, associada à WomenCorporateDirectors e ao movimento Mulheres Investidoras Anjo. Estuda, pesquisa e escreve sobre o universo feminino há mais de 10 anos.


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