Como o Brasil institucionalizou o greenwashing

Crédito: Antonio Molina /Fotoarena/Folhapress

Desaparecimento do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips aliada a leniência nas buscas pelos dois expõe ainda mais a percepção de que o governo não cumpre o que fala (Crédito: Antonio Molina /Fotoarena/Folhapress)



Se a reputação ambiental do Brasil já era ruim no início do mês, agora faltam adjetivos para qualificar o comando do presidente Jair Bolsonaro na agenda. Arriscando alguns: irresponsável, vergonhoso, vexaminoso, mentiroso e criminoso. Diante dos fatos divulgados nos últimos dias como o desaparecimento do ambientalista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips, o relatório que comprova a militarização de órgãos ambientais e o aumento dos índices de desmatamento da Amazônia, fica evidente que Bolsonaro pratica o mais perverso do greenwashing. Ele usa de discurso falso para vender à comunidade internacional a imagem de um país responsável ambientalmente, sem sê-lo.

Vamos aos exemplos. Em sua participação na Cúpula das Américas, realizada nos Estados Unidos, disse o presidente: “Desde o último domingo, quando tivemos a informação de que dois cidadãos, um britânico, Dom Phillips, e o brasileiro Bruno Araújo [Pereira], desapareceram na região do Vale do Javari, as nossas Forças Armadas e a Polícia Federal têm se destacado na busca incansável para alcançar essas pessoas”, afirmou. Até o início desta semana, no entanto, faltava infraestrutura como helicópteros. A precariedade era tanta que coube ao Alto Comissário da Organização das Nações Unidas (ONU) para os Direitos Humanos pedir para que o governo redobre os recursos disponibilizados para as operações de buscas.

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Sobre a Funai, o quadro é desalentador. Antes dos dados do relatório Fundação Anti-indígena: Um retrato da Funai Sob o Governo Bolsonaro divulgado na segunda (13), vale uma volta ao tempo. Em abril de 2019, em uma live realizada com lideranças indígenas direto do Palácio do Planalto, o presidente afirmou. “Assim como o povo brasileiro tem que dizer o que eu vou fazer como presidente, o povo indígena é que diz o que a Funai vai fazer. Se não for assim, eu corto toda a diretoria da Funai.” Mas é uma fala de 2018 do próprio Messias que condiz com a realidade atual. “Se eu for eleito, vou dar uma foiçada na Funai, mas uma foiçada no pescoço. Não tem outro caminho”, afirmou. Essa é a verdadeira política aplicada. De acordo com o relatório publicado pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), das 39 Coordenações Regionais (CRs) do órgão, 24 são comandadas por oficiais militares sem ligação com a defesa dos povos originários. E no trâmite burocrático há 620 processos de demarcação encalhados na etapa inicial e 117 territórios delimitados ou declarados, mas não homologados.




Como se não bastasse, ainda há o desmatamento na Amazônia. De acordo com o sistema DETER, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), entre janeiro e maio deste ano o bioma perdeu 2.867 km, recorde de devastação pelo terceiro ano consecutivo. Mas em discurso público na Cúpula das Américas, Bolsonaro disse descaradamente: “Somos um dos países que mais preservam o meio ambiente e suas florestas”. O greenwashing foi institucionalizado no Brasil na sua mais perversa versão, que é quando os fatos fazem do mensageiro do discurso um grande mentiroso.







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