Economia

COMO NASCEU O PACOTE



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O garoto Pedrinho bem que tentou arrancar o pai da cama para ver o jogo entre Brasil e Costa Rica, mas não conseguiu. Quando o despertador tocou, na madrugada da última quinta-feira, programado pelo menino de nove anos, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, foi incapaz de abrir os olhos. Depois de três dias insone, em meio ao pânico que se instalou na área financeira, o homem que comanda a economia brasileira tinha finalmente acertado com o Fundo Monetário Internacional um pacote de medidas para golpear os especuladores. Para jogá-los nas cordas, o ministro decidiu usar artilharia pesada: engordou as reservas cambiais em US$ 15 bilhões, avisou que pretende recomprar títulos da dívida externa com vencimento marcado para os próximos dois anos e alargou o superávit nas contas públicas deste ano e de 2003. O setor público terá de economizar o equivalente a 3,75% do PIB no período, ante 3,5% previstos anteriormente. Essa diferença significa uma sobra de caixa de R$ 3 bilhões. Foi o bastante para que, na mesma quinta-feira, o dólar recuasse de R$ 2,79 para R$ 2,70, numa queda de 3,15%, a maior em nove meses. ?Vamos virar esse jogo mostrando que a solidez da economia brasileira é mais forte do que as turbulências e a onda de ansiedade?, disse Malan.

O pacote começou a ser concebido no início da semana, à medida em que o risco Brasil disparava e o dólar seguia o mesmo rumo. Nos momentos de maior tensão, Malan passou horas a fio com o presidente Fernando Henrique, usando um telefone reservado em seu gabinete. É um aparelho preto, criptografado, imune a qualquer tipo de grampos. Na tarde de quarta-feira, quando o ministro sequer tinha almoçado, esse telefone voltou a tocar. Numa nova conversa, Malan e o próprio Fernando Henrique decidiram que o presidente teria de entrar em campo. Depois da aprovação da CPMF pelo Senado, FHC falou em rede nacional para agradecer aos parlamentares e tentar apagar as chamas da crise. No final, ironizou. ?O mercado está nervoso??, indagou. ?Dá calmante.?

 




 

 

De fato, há muito tempo não se via tanto nervosismo no mundo das finanças. Na segunda-feira, o representante do FMI no Brasil, Rogerio Zandamela, esteve em São Paulo. Participou de nada menos que oito reuniões com executivos de grandes bancos e consultorias internacionais. Todos tinham uma única pergunta, sem rodeios: qual era a possibilidade de um calote por parte do próximo governo? Os investidores, animais ariscos que votam com o bolso e não com o coração, não estavam dispostos a correr um pingo de risco. Um dia depois, dois gigantes do mercado, Crédit Lyonnais e Merrill Lynch, enviaram representantes a Brasília para falar com Zandamela. Ouviram uma resposta direta: ?Os fundamentos econômicos e as instituições são sólidos o suficiente para uma transição governamental suave, independentemente de quem vença as eleições.? Zandamela deu a entender que Malan teria recursos na hora em que requisitasse. ?Basta nos telefonar?, disse, em entrevista exclusiva à DINHEIRO.


 

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Com o acordo costurado, o ministro e seus principais auxiliares trataram de organizar a entrevista coletiva em que as medidas seriam anunciadas. Lá estavam Armínio Fraga, timoneiro do Banco Central, Guilherme Dias, ministro do Planejamento, Amaury Bier, secretário-executivo da Fazenda, e Luiz Fernando Figueiredo, diretor de Política Monetária do BC. Ficou acertado que US$ 10 bilhões serão sacados de um pacote já negociado com o Fundo um ano atrás. Outros US$ 5 bilhões, que poderão ser usados para intervenções no mercado, vêm da redução do piso de reservas cambiais líquidas de US$ 20 bilhões para US$ 15 bilhões. Além disso, Malan e Fraga decidiram recomprar US$ 3 bilhões em títulos da dívida externa que vencem no início do mandato do próximo presidente. A mensagem era clara: o governo agora dispõe de mais munição na queda-de-braço com o mercado.

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Mais do que um amontoado de números, a iniciativa do governo representa um golpe ousado. É a grande chance de recolocar a economia nos trilhos antes das eleições e garantir uma transição tranqüila, depois de uma onda de terrorismo eleitoral que assolou o País. Mas as reações foram contraditórias. ?Todas as medidas anunciadas são boas para o Brasil, mas talvez nem tanto para a candidatura de José Serra?, avaliou Thierry Wizman, economista do banco de investimentos Bear Stearns. ?Um superávit maior pode exigir mais cortes de investimentos e isso prejudica o governo?, ponderou. A poucos metros dali, o economista Paulo Leme, do concorrente Goldman Sachs, em Nova York, tinha uma avaliação distinta. ?O grande prejudicado foi o Lula, que perdeu a oportunidade de se mostrar como uma pessoa capaz de dar rumo ao País?, afirmou. Ou seja: não se formou um consenso e, embora o dólar tenha caído drasticamente no mercado à vista, as cotações continuaram pressionadas no mercado futuro. Pelo que se viu nos últimos dias, a única certeza é que, embora a equipe de Malan tenha marcado um gol, a partida só começou. 

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Alívio: Armínio Fraga monitorou o mercado e o ataque contra especuladores

 

Dólar em Baixa: as medidas eram anunciadas e a moeda americana tinha a maior queda em 9 meses

 

Mais cortes: Malan e Guilherme Dias ampliaram o superávit fiscal em R$ 3 bilhões

 

Tropa de Choque: FHC sugeriu calmante e equipe decidiu sacar US$ 15 bilhões