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Como a tecnologia pode preservar a Amazônia e não queimar nosso filme

Crédito: Nasa – imagem de satélite mostra queimadas na Amazônia

Há pouco mais de um mês o Brasil entrou em uma espécie de furacão. Enquanto as autoridades tentavam explicar o que era o “Dia do Fogo” promovido por grupos organizados na Região Norte, a cidade de São Paulo viveu uma espécie de eclipse não-lunar por causa do encontro de uma frente fria com fumaça de queimadas vindas da região do Cerrado e da Amazônia. A cena deixou os brasileiros atônitos e a retórica oficial serviu para incendiar o debate numa velocidade ainda maior que o fogo que atingiu as florestas, carbonizando parte da reputação do Brasil junto à opinião pública internacional.

Ânimos exaltados à parte, existem questões objetivas a serem analisadas e uma delas, sem dúvida, é o fator clima. Estamos a menos de 11 anos da data considerada estratégica, segundo John Beddington, que já foi o principal consultor científico do governo britânico: em 2030 poderemos estar sujeitos a uma “tempestade perfeita”, ou seja, um colapso climático capaz de apressar a subida do nível dos oceanos, causar secas infernais e enchentes bíblicas ao redor do mundo, não só prejudicando a economia e a produção de alimentos como também obrigando enormes contingentes de população a se mudarem para lugares mais seguros. 

Manter a cobertura florestal nos atuais níveis ou até aumentá-la é uma das receitas apontadas há anos pelos especialistas para TENTAR mitigar os efeitos do aquecimento global. 

Ainda que não esteja em seu pico histórico, o desflorestamento na Amazônia aumenta a emissão de dióxido de carbono, encarado como grande vilão desse processo. Pior: ficou claro para especialistas que observam as queimadas por satélite, como a agência espacial americana NASA, que o fenômeno na Amazônia é provocado em grande parte pelo homem e não como subproduto de uma estação seca mais longa, essa sim efeito da mudança climática. 

Um dos maiores especialistas em Amazônia, o engenheiro e doutor em meteorologia Carlos Nobre, faz outro alerta: os cientistas calculam que a Amazônia já perdeu 17% de sua cobertura florestal; quando esse número chegar em 20% estaríamos atingindo um ponto de desequilíbrio que torna a região ainda mais suscetível. Na segunda metade do século, metade da Amazônia pode ser uma paisagem de savana, seca e improdutiva, sentencia Nobre.

A principal origem do desmatamento na Amazônia é econômica! Desde os tempos do Império, os governos brasileiros sempre viram a região como área de exploração intensiva dos recursos naturais e só depois da Constituição de 1988 vimos uma mudança de discurso que busca conciliar o desenvolvimento econômico tradicional com ações de conservação, criação de reservas indígenas, reflorestamento e atividades sustentáveis.

Mas a balança ainda pesa, e muito, em favor do agronegócio, mineração e os investimentos em infraestrutura necessários para torná-los viáveis. Esse é um padrão que se repete em florestas tropicais por todo o mundo: considerando-se todos os investimentos em sustentabilidade x exploração o placar fica em US$ 20 bi a US$ 770 bi por ano! 

O estudo feito recentemente por Carlos Nobre e Israel Nobre prova que, no caso brasileiro, a expansão da fronteira agrícola e da pecuária além das atividades extrativistas têm pouco efeito para as populações que moram na Amazônia. O maior PIB per capita da região fica em Carajás, no Pará, onde a extração de minério de ferro predomina – R$ 50 mil, bem acima da média nacional. 

Mesmo assim, os indicadores sociais nessa região não diferem de outros municípios no mesmo Estado e são substancialmente mais baixos em relação ao resto do país. Ou seja, essa riqueza não está sendo reinvestida num esforço de aprimorar a educação e a saúde dentro da própria Amazônia. Dados como esses indicam que derrubar árvores como um mal necessário para sustentar a população local é um discurso de pernas curtas. 

Portal Amazônia

Mas não precisa ser assim. A grande saída para a Amazônia se chama tecnologia! 

É ela que pode permitir um uso sustentável da floresta em grande escala e mostra que, tanto para a geração de riqueza para a população local como para a economia brasileira, é muito mais vantajoso manter a floresta de pé. Porque tem uma conta que a gente não está fazendo ao insistir nessas estratégias superadas. 

O ar que a gente respira, a água que tomamos, a comida, o equilíbrio do meio ambiente. O valor intrínseco desses bens é incalculável, mas cientistas estimam que os serviços que ecossistemas saudáveis podem fornecer giram em torno de US$ 125 trilhões por ano, cerca de seis vezes o PIB dos EUA, nação mais rica do planeta. 

Vejamos o exemplo do açaí. Estudos de instituições sérias, como o Banco Mundial, ainda hoje enxergam pouco valor em produtos da floresta, estimando o retorno em cerca de US$ 10 anuais por hectare para culturas e US$ 20 para extrativismo de madeira feito de forma sustentável. Ignora-se casos concretos de sistemas agroflorestais, como a cadeia do açaí, que gera algo entre US$ 200 e US$ 1 mil por hectare, contribuindo para a economia regional com mais de US$ 1 bilhão por ano. 

eCycle

Antes consumido apenas na região Norte do Brasil, o açaí tem sido estudado e utilizado de muitas formas além do saboroso creme vendido em 9 de cada 10 lojas de comida saudável. A indústria cosmética descobriu que o óleo tem propriedades hidratantes para a pele, devido à presença de um antioxidante rico em polifenóis indicados para fórmulas anti-envelhecimento. Já a antocianina, substância abundante na polpa do açaí, é um marcador natural da presença de placas bacterianas na dentição. Há estudos testando nanopartículas de açaí no tratamento de lesões cancerígenas.  Até as sementes, que antes eram descartadas para a produção da polpa, estão começando a ser utilizadas para a produção de um tipo de plástico. 

Quando combinadas com tecnologia moderna e pesquisa, itens vistos por muito tempo apenas como produto de extrativismo podem ser explorados de inúmeras maneiras. Esse é o caso da seiva da seringueira, colhida na Amazônia desde o final do século 19. Quando combinada com compostos de nanoargila, por meio de tecnologia biomecânica, pode ser utilizada como pele artificial, o biocure, que induz a formação de novos vasos sanguíneos e tecidos na superfície sobre a qual é aplicado. O produto da seringueira entra também na composição de pneus de alta performance, compostos anti-ferrugem, em bolas de tênis, luvas e máscaras. 

Outro exemplo virtuoso é o da empresa brasileira Natura, dona do mais bem sucedido case de exploração da biodiversidade da Amazônia a partir das melhores práticas sócio-ambientais. A empresa passou anos montando uma rede de fornecedores de matéria-prima que integra quase 3 mil famílias na região, com programas de treinamento e empoderamento da comunidade visando práticas de desenvolvimento sustentável. 

É o caso da manteiga de ucuuba. Antigamente, seu tronco era utilizado para fazer cabo de vassoura e a espécie estava sob risco de extinção. Já a manteiga, desenvolvida a partir das sementes da árvore, virou um produto da indústria de cosméticos com alto valor agregado. As comunidades da Ilha de Marajó foram treinadas para coletar as sementes da ucuuba e o ganho líquido da operação para estas famílias é três vezes maior do que o obtido com a derrubada da árvore. Cortada, a ucuuba valia x uma única vez; em pé, os coletores ganham 3x mais; só que todos os anos. 

Engenharia das Essências

A empresa abriu um Ecoparque em Benevides, perto de Belém, um complexo industrial dedicado a promover a bioindustrialização da Amazônia. O projeto é inspirado no conceito de simbiose industrial, que busca conectar empresas de diferentes segmentos de mercado com interesses comuns e necessidades complementares. A Natura ocupa cerca de 10% da área total e o restante do espaço sedia outras empresas interessadas em compor o polo industrial. Já em Manaus, criou o NINA, ou Núcleo de Inovação Natura Amazônia, que faz parcerias com universidades e pesquisadores com objetivo de aprofundar o conhecimento da biodiversidade. 

Manter os investimentos em P&D aumenta a possibilidade de que um subproduto de uma determinada cadeia produtiva seja incorporado a outra cadeia. Foi o que o Instituto Transire conseguiu com a cabeça e o rabo de peixe, antes descartados pelos frigoríficos, poluindo os cursos d’água da região. A partir de pesquisas, conseguiram obter um biodiesel com teor de gordura maior, por ser de origem animal, ao contrário dos demais, que vêm de espécies vegetais. A energia mais barata permite aos frigoríficos, inclusive, estocar os produtos por mais tempo, possibilitando que funcionem o ano todo, em vez dos quatro meses em que a pesca é autorizada para viabilizar a regeneração das espécies.

Exemplos como esses provam que a biotecnologia e a sustentabilidade, longe de serem inimigas do agronegócio, são um caminho para tornar as cadeias produtivas mais eficientes e menos nocivas ao meio ambiente. 

O raciocínio se aplica também a culturas para as quais o clima da Amazônia não serve. A borra do café, transformada em lixo, emite metano, um gás com potencial de acelerar o efeito estufa. Esse subproduto tem vários usos mais inteligentes, como fertilizante, agente para limpar resíduos deixados no couro cabeludo por produtos como leave-in, condicionadores e gel modeladores e até biocombustível. Uma startup escocesa chamada Revive Eco está desenvolvendo uma forma de extração de óleo a partir da borra do café que permitiria a substituição do óleo de palma, considerado um dos vilões na derrubada de matas tropicais na Ásia. 

A agricultura forçou a conversão de um terço da terra do planeta, sendo responsável por 80% do desmatamento, o que significa também menos espaço para vida selvagem que enfrenta hoje, segundo os cientistas, sua sexta onda de extinção em massa. Além disso, o agronegócio é responsável pelo uso intenso de pesticidas e fertilizantes que destroem cadeias alimentares e acabam por arruinar tanto o próprio solo quanto as fontes de água de que tanto necessitam. 

Você sabia que 75% da nossa comida hoje provém de apenas 12 espécies vegetais e cinco espécies animais?

A natureza tem 4 bilhões de anos em conhecimento acumulado do processo evolutivo e a biodiversidade da Amazônia é uma de suas grandes vitrines. Mais do que isso, é uma grande fonte de recursos para a bioeconomia. O número de substâncias moleculares com usos específicos é praticamente incalculável. A cada três dias, uma nova espécie é descoberta. A ciência estima que ainda não conhecemos 70% da nossa diversidade.

As pesquisas de Israel e Carlos Nobre dão conta de que há pelo menos 200 espécies de planta na Amazônia que podem servir como matéria-prima para produtos para alimentar a bioeconomia da região. Pelo menos 20 delas tiveram as cadeias produtivas locais integradas e o sistema de produção esquematizado. Mas ainda há bastante trabalho a fazer. 

O Brasil tem passado nas últimas duas décadas por um processo de desindustrialização, apostando nossas fichas no mercado de commodities, com suas flutuações pouco previsíveis. A biotecnologia pode nos colocar de novo na rota do desenvolvimento, tornando a biodiversidade do país uma fonte de inovação e crescimento, o que nos tornaria um dos líderes dessa indústria 4.0. Isso precisa urgentemente entrar não só na agenda dos governos, como também no radar das grandes corporações brasileiras. 

O CDP (Carbon Disclosure Project), uma das entidades mais respeitadas em relação ao tema de mudanças climáticas, fez uma pesquisa para aferir o nível de inclusão dessas questões nas estratégias das companhias. O Brasil, entre os avaliados, foi o segundo pior país, com índice de 55%, ante a média mundial de 72%, chegando a 84% nas corporações europeias. 

Com o potencial da nossa biodiversidade, essa negligência chega a ser assustadora e pode queimar muito mais o filme do país junto aos investidores internacionais, dificultando o acesso do Brasil a recursos que poderiam trazer prosperidade para a região sem a chaga do desmatamento ou das atividades ilegais e altamente nocivas ao meio ambiente. Se não acordarmos a tempo, em vez de tentar frear o aquecimento global, teremos de buscar soluções para nos adaptarmos às consequências de uma tragédia climática. E essa não me parece a decisão mais inteligente.

 

(*) Omarson Costa atua como Conselheiro de Administração, com formação em Análise de Sistemas e Marketing, tem MBA e especialização em Direito em Telecomunicações. Em sua carreira, registra passagens em empresas de telecom, meios de pagamento e Internet

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