Rota 2030

Entrevista

Antonio Megale, presidente da Anfavea

Começamos 2018 com um crescimento de 23%

Gabriel Reis

Começamos 2018 com um crescimento de 23%

Luís Artur Nogueira
Edição 26/01/2018 - nº 1054

O clima mudou completamente nas montadoras de veículos. A angústia, que predominou nos últimos anos, deu lugar ao alívio diante da forte recuperação do mercado, que começou o ano bem aquecido. Em entrevista à DINHEIRO, na segunda-feira 22, o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Antonio Megale, antecipou os números preliminares de janeiro, que apontam uma expansão de 23% em relação ao mesmo período do ano passado. Apesar dos horizontes promissores em 2018, as montadoras estão preocupadas com o próximo governo. “Quando olhamos para 2019, há duas possibilidades. A continuidade das reformas, o que seria muito mais tranquilo, ou polarizações que trazem muita incerteza”, diz Megale, se referindo aos riscos que o ex-presidente Lula (PT) e o deputado Jair Bolsonaro (PSC) representam ao País. Na entrevista a seguir, o presidente da Anfavea também fala sobre o preço elevado dos carros, o futuro do etanol e a ameaça chinesa.

DINHEIRO – Depois de quatro anos seguidos de queda, o setor finalmente conseguiu celebrar os resultados?

ANTONIO MEGALE – Sim. O fechamento de 2017 foi acima das expectativas, com alta de 9,2% nas vendas (2,2 milhões de veículos) e de 46,5% nas exportações (762 mil), um recorde histórico. Com isso, a produção cresceu 25,2% (2,7 milhões).

DINHEIRO – Quais são as perspectivas para 2018?

MEGALE – A inflação baixa e os juros em queda estão movimentando a economia. Em janeiro do ano passado, a média diária de emplacamentos foi de 6,6 mil unidades. Neste ano, até agora, estamos com 8,1 mil por dia. Ou seja, começamos 2018 com um crescimento de 23%. Para o ano, o crescimento projetado é de 11,7% nas vendas (2,5 milhões de unidades), com exportações avançando 5% (800 mil unidades, mais um recorde). Sendo assim, a produção avançará 13,2%, com 3,1 milhões de unidades, diante de uma capacidade instalada de 4,5 milhões a 5 milhões de unidades. Lembrando que o recorde histórico foi de 3,7 milhões de unidades produzidas em 2014.

DINHEIRO – E o desempenho do setor de caminhões?

MEGALE – A área de caminhões voltou a crescer de uma forma importante (alta de 2,7% em 2017), depois de um primeiro semestre muito ruim. E o melhor é que a produção já está endereçada neste começo do ano, ou seja, o frete está voltando junto com a economia.

DINHEIRO – Mas a ociosidade no setor de caminhões ainda é muito grande…

MEGALE – Muito. Chega a 70%. Aquele mercado de 150 mil unidades [em 2013] me parece que não será mais atingido. É mais razoável um nível de 100 mil a 120 mil unidades. Nesse ano, venderemos 79 mil unidades entre caminhões e ônibus, um patamar ainda baixo.

DINHEIRO – A indústria automotiva prevê contratações em 2018?

MEGALE – Não achamos que vai ter um impacto relevante porque as fábricas ainda estão com capacidade ociosa. O primeiro passo será otimizar os turnos já existentes. No ano passado, abrimos 5,5 mil vagas, uma expansão de 4,6%. Mas a boa notícia foi que nós reduzimos de 38 mil, em março de 2016, para apenas 1,8 mil a quantidade de funcionários temporariamente afastados (lay-off) ou com jornada parcial (Programa Seguro Emprego). Para darmos um salto no emprego, será preciso criar novos turnos nas fábricas.

DINHEIRO – Qual será o papel do crédito?

MEGALE – Mais relevante. A quantidade de veículos financiados vai aumentar porque a taxa de juros baixa faz com que a prestação caiba no bolso de uma faixa da população que estava apenas no mercado de carros usados.

DINHEIRO – Há chance de voltarmos a ter financiamentos longos, com 80 parcelas, sem entrada, como houve no começo da década?

MEGALE – Não acredito. Aquilo foi um aprendizado. Tanto a entrada muito baixa quanto o prazo muito longo estão limitados agora. Os bancos tiveram um impacto negativo muito grande na inadimplência, no começo da década, o que os levou a ficar muito avessos ao risco. Hoje em dia, só existe taxa de juro zero com entrada muito grande.

DINHEIRO – Os bancos estão reabrindo a torneira do crédito?

MEGALE – Estão. Há uma tendência de abertura gradual. Com juros mais baixos, os títulos do governo ficam menos atrativos, o que leva os bancos a emprestar mais.

DINHEIRO – As incertezas políticas atrapalham o setor?

MEGALE – A economia se descolou um pouco da política. As empresas têm de rodar e os consumidores têm de consumir. Todos têm de tocar suas vidas após uma recessão muito forte. Há muito crítica ao governo atual embora tenha havido muitos avanços, como a reforma trabalhista, o limite de gastos, a reforma do ensino médio etc.. No futuro, esse governo será lembrado como o governo que fez algumas coisas importantes num período curto de tempo, apesar do desgaste político.

DINHEIRO – Qual será o impacto eleitoral?

MEGALE – O processo democrático está funcionando bem, inclusive nas questões jurídicas. Quando olhamos para 2019, há duas possibilidades. A continuidade das reformas, o que seria muito mais tranquilo, ou polarizações que trazem muito incerteza. Não sabemos se o Lula, caso vença, será o mesmo de 2003. Eu penso que não.

DINHEIRO – E o deputado Jair Bolsonaro?

MEGALE – Da mesma forma, na outra ponta da polarização, é uma incerteza total. Bolsonaro é um candidato que não tem uma passagem pelo Executivo e que não tem posições muito claras do ponto de vista econômico. Fica trocando de discurso muito mais para ampliar a base do que para demonstrar convicção. O caminho mais fácil de se prever e o mais estável seria na linha de centro, que é representado pelo candidato Geraldo Alckmin. Queira ou não queira, sem fazer muito barulho, ele conseguiu o apoio dentro do partido [PSDB] e será uma candidatura forte.

DINHEIRO – O sr. acha que haverá uma candidatura atrelada ao governo Temer?

MEGALE – Acho difícil. Há uma tentativa, há desejo, mas me parece que, a cada dia que passa, se torna inviável pela falta de nomes.

“No futuro, esse governo será lembrado como o governo que fez algumas coisas importantes num período curto de tempo, apesar do desgaste político”O presidente Michel Temer (MDB-SP) (Crédito:Beto Barata)

DINHEIRO – Há tempo para surgir algum nome de fora da política?

MEGALE – Acho muito difícil. Precisava ter um clamor popular muito grande que eu não vejo acontecer. A população, de uma forma geral, está um pouco cansada dos padrões políticos, mas também tem dúvida sobre pegar alguém totalmente de fora. Não é uma posição simples. A posição de presidente da República é intrinsecamente política, não é para um gestor. É preciso ter muita capacidade de articulação para que o Congresso não paralise o País. Mesmo o presidente Temer, que é um político experiente e que tem boa capacidade de articulação, encontra muitas dificuldades.

DINHEIRO – As eleições serão um divisor de águas?

MEGALE – O ano de 2019 vai depender do resultado das eleições. Se o resultado eleitoral trouxer uma previsibilidade, o investidor voltará com mais força ao Brasil, que tem empresas baratas. Repare que as agências de classificação de risco estão muito mais preocupadas com a situação fiscal no longo prazo, principalmente com a previdência.

DINHEIRO – Como as matrizes estão olhando para o Brasil?

MEGALE – Com muita preocupação, porque, embora os resultados estejam melhorando, houve mudança no regime automotivo. Acreditávamos que haveria uma continuidade do programa Inovar-Auto, através do programa Rota 2030, mas parou tudo. O que vai acontecer agora? O que as empresas normalmente não gostam é de trabalhar num futuro incerto. Precisamos de uma regra clara para o Rota 2030. Como é que o acionista, com a caneta na mão, vai aprovar um investimento hoje se não é possível saber o que vai acontecer daqui quatro anos, quando o novo produto estiver pronto? É difícil. Então, hoje as matrizes estão bastante preocupadas, esperando o desdobramento dessa nova política, que deve acontecer até o final de fevereiro.

DINHEIRO – A saída do ministro do Desenvolvimento, Marcos Pereira, atrapalhou as negociações?

MEGALE – Havia uma preocupação com a saída dele, que era um defensor do Rota 2030, mas o ministro interino, Marcos Jorge, reafirmou o compromisso com essa política. Para nós, seria muito importante que houvesse um apoio em pesquisa e desenvolvimento (P&D), porque estamos numa competição global. O setor automotivo está sofrendo uma transformação tecnológica muito rápida e o Brasil não pode ficar fora desse jogo.

DINHEIRO – O apoio do governo é fundamental para as matrizes investirem no Brasil?

MEGALE – Sem dúvida. O apoio precisa ser similar ao do Inovar-Auto, em que os investimentos em engenharia e em P&D geravam um benefício fiscal. O Ministério da Fazenda está um pouco resistente devido à situação fiscal. Nesse momento, a mensagem para as empresas é a de que acabou o incentivo para P&D. Nós temos um receio de que essas áreas possam diminuir de tamanho no País, pois as operações no Brasil ainda não estão rentáveis. O risco maior é o de que a tecnologia flex, com etanol, genuinamente brasileira, perca investimentos. Se as montadoras transferirem as pesquisas para o exterior, muito provavelmente nós perderemos essa tecnologia do etanol. Na Europa, até mesmo por falta de opção, o foco está totalmente nos veículos elétricos.

“O caminho mais fácil de se prever e o mais estável seria na linha de centro, que é representado pelo candidato Geraldo Alckmin”O presidenciável Geraldo Alckmin (PSDB-SP) (Crédito:Divulgação)

DINHEIRO – Mas o Brasil não terá carros elétricos?

MEGALE – Terá. Nós sabemos que a propulsão será elétrica, mas a grande pergunta é como se leva a eletricidade para o automóvel. Não existe uma solução única para o mundo. Aqui, no Brasil, temos a opção de um híbrido flex, com eletricidade feita a partir do etanol.

DINHEIRO – Para o Brasil, seria um erro abandonar o etanol?

MEGALE – Sim, claro. Desenvolvemos intensamente essa tecnologia. É um setor muito importante para a economia. Os combustíveis fósseis têm um limite a longo prazo no mundo. Mesmo com o pré-sal, o Brasil não tem uma capacidade muito grande de refino, o que nos obriga a importar.

DINHEIRO – A Petrobras mudou, no ano passado, a regra dos reajustes de combustíveis, seguindo a oscilação diária do petróleo e do câmbio. Isso é saudável para o mercado?

MEGALE – O preço muda muito na refinaria, mas oscila menos para o público final. De qualquer forma, isso gera uma certa instabilidade. Por outro lado, a nova regra ajudou a sanear a Petrobras, que está numa situação bem melhor do que há dois anos. Enfim, é uma política estranha, muito volátil, que poderia ter reajustes mensais, mas precisamos reconhecer que foi positiva para a Petrobras.

DINHEIRO – Qual a sua avaliação sobre o papel mais tímido do BNDES na economia?

MEGALE – A nossa relação com o BNDES é muito boa. O banco está reavaliando o seu papel, mas nós não queremos ter problema de continuidade nas linhas de financiamento. O exemplo atual é se o Finame será atrativo ou não com a nova TLP (taxa de longo prazo). O fundamental é que a nova gestão prometeu dar previsibilidade às regras.

DINHEIRO – Sem o Rota 2030, foi aberta uma janela para a entrada de veículos importados. Isso preocupa os fabricantes nacionais?

MEGALE – Não. Nós sabemos que vai aumentar o volume de carros importados, passando de uma fatia de 10% do mercado para 15%. É um nível que não traz preocupações. O patamar atual de câmbio não estimula tanto as importações. Vale lembrar que muitas empresas que importavam hoje já possuem fábricas no Brasil, e as montadoras instaladas aqui também podem importar linhas específicas, mas o grosso da produção será local.

DINHEIRO – Montadoras premium, como BMW, Audi e Jaguar Land Rover, que abriram fábrica no Brasil, vão conseguir sobreviver?

MEGALE – É um mercado pequeno. Há uma grande preocupação. O Rota 2030 previa um tratamento diferenciado para essas empresas, que estão em dificuldade. Acho importante elas continuarem no Brasil para contaminar tecnologicamente a indústria local.

DINHEIRO – O carro no Brasil é caro ou é a população que tem renda pequena?

MEGALE – As duas coisas. O poder aquisitivo brasileiro é muito baixo e encolheu na crise. O carro é caro no Brasil por conta dos elevados custos trabalhistas e das matérias-primas, além da pesada carga tributária. Na Europa, em média, a carga tributária é de 16%. No Brasil, 33%. Além disso, a incorporação de novas tecnologias aumentou o custo.

DINHEIRO – E o lucro das montadoras? É maior no Brasil do que no exterior?

MEGALE – É um dado confidencial das empresas, mas, pelo resultado geral, a resposta é não. Muitas empresas não estão rentáveis. Elas estão, inclusive, recebendo ajuda das matrizes para fazer frente ao momento de grande ociosidade. Os executivos têm dito que a margem no Brasil é inferior à de outros países. As montadoras não estão mais dispostas a ficar trabalhando em lugares em que há perda de dinheiro por muito tempo.

DINHEIRO – A China é ameaça ou oportunidade para o setor?

MEGALE – É uma boa pergunta. Num primeiro momento, a China ainda vai preencher o seu enorme mercado interno. Mas, no médio e no longo prazos, os chineses vão chegar com mais força, com produtos mais tecnológicos. Não podemos ter receio da concorrência e devemos trabalhar para melhorar a competitividade do Brasil.

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