Economia

Comandante Trump

O presidente dos EUA propõe aumento de US$ 54 bilhões nos gastos militares e quer a saída do país de organismos multilaterais de comércio

Crédito: AFP Photo / Saul Loeb

Senhor da guerra?: republicano adota tom isolacionista e muda rumo da política externa americana (Crédito: AFP Photo / Saul Loeb)

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chocou o mundo, mais uma vez, ao anunciar um aumento de US$ 54 bilhões no superlativo gasto militar americano, que passará a ser de US$ 650 bilhões, um aumento de 10% após cinco anos de redução. Ele quer reequipar suas tropas com o que há de mais moderno, embora afirme que não esteja em busca de uma guerra. Mas sua decisão reforça a corrida armamentista que pode ter início, principalmente no Oriente. O presidente declarou que aquela região piorou muito e ele vai “endireitar isso”.

Não há dúvidas de que o aumento do investimento nas Forças Armadas é uma clara tentativa de fortalecer o posicionamento isolacionista dos EUA. A força bélica é uma demonstração de poder, como mostram as teorias da escola clássica de pensadores realistas, como italiano Nicolas Maquiavel (1469-1527) e o britânico Thomas Hobbes (1588-1679). “Ele quer fortalecer as Forças Armadas para desestimular qualquer ameaça à integridade americana”, diz Rubens Barbosa, embaixador do Brasil em Washington durante o governo FHC. “Trump desenha uma nova perspectiva de política externa dos EUA. Como se quisesse ser líder só do próprio país.”

A decisão de Trump altera toda a estrutura da política externa dos americanos, que há décadas lideram organizações multilaterais como a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), integram o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) e atuam na Organização Mundial do Comércio (OMC). Numa guinada, Trump passou a fazer duras críticas às instituições e se posicionou contra o ativismo americano. Agora, ele quer focar em acordos bilaterais e despender menos ajuda para outros países.

DIN1008-trump2O diretor-geral da OMC, Roberto Azevêdo, afirmou à DINHEIRO que está de portas abertas para conversar com os EUA (leia entrevista aqui). “O lema do American First e a indicação de aumento em gastos militares poderão fazer com que o governo prejudique a população que necessita de ajuda”, diz Roberto Abdenur, embaixador do Brasil em Washington entre 2004 e 2006. Para aumentar consideravelmente os gastos militares, Trump quer diminuir o investimento em programas voltados ao meio ambiente e às questões sociais. O presidente ainda não listou quais serão eles, mas a conta não é tão simples. No orçamento ambiental, a ideia é direcionar apenas US$ 6,1 bilhões, ou seja, 25% do que é gasto atualmente.

Esse corte, porém, não chega nem à metade do que será necessário. A proposta de Trump deve promover calorosas discussões no Congresso, inclusive entre os integrantes do Partido Republicano, que defendem mais austeridade nos gastos do governo. Em declarações públicas, o presidente da Câmara, o republicano Paul Ryan, afirmou que não aprovaria um documento que não contemple cortes em todos os programas sociais, assim como não preveja uma redução de dívida pública de quase US$ 20 bilhões. Num passado não tão distante, o também republicano George W. Bush aumentou em US$ 51 bilhões os gastos militares para conter a ameaça da Al-Qaeda, em 2002. Além da tensão, Bush aumentou o déficit público do país. Trump segue o mesmo caminho.