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Com presença em 19 países e negócios que vão do cimento à tecnologia da informação, o conglomerado Votorantim planeja crescer ainda mais

Entrevista

João Miranda, CEO do grupo Votorantim

Com ou sem crise, vamos investir R$ 3 bilhões por ano

Gabriel Reis

Com ou sem crise, vamos investir R$ 3 bilhões por ano

Com presença em 19 países e negócios que vão do cimento à tecnologia da informação, o conglomerado que tem um século de vida planeja crescer ainda mais

Valéria Bretas
Edição 24/05/2019 - nº 1122

Depois de completar seu primeiro centenário em 2018, o grupo Votorantim, comandado pelo executivo João Miranda, dá início a um novo planejamento de longo prazo. E começou bem. No primeiro trimestre deste ano, a companhia registrou lucro líquido de R$ 4,4 bilhões, contra R$ 150 milhões no mesmo período de 2018. O segredo, segundo Miranda, foi não deixar de investir mesmo em momentos de crise. “O fato de termos negócios no Brasil e no exterior ajudou muito”, diz o presidente. O grupo, que atua nos setores de bancos, cimento, energia e agronegócio, está em uma fase de análise para novos projetos dentro de um investimento de R$ 3 bilhões por ano.

DINHEIRO – Qual foi a estratégia do grupo Votorantim para equilibrar os negócios e conseguir resultados positivos mesmo em tempos de crise?

JOÃO MIRANDA – O fato de termos negócios no Brasil e no exterior ajudou muito a equilibrar. É claro que, dentro de uma década, é natural a economia passar por uma crise financeira global ou, como ocorreu aqui, pela maior recessão da história brasileira. Esses fatores influenciaram, sim, os nossos balanços por algum tempo, mas a chave foi não deixar de investir na modernização e onde havia demanda crescente. A gente conseguiu, a partir da holding, e com a participação de todas as empresas do grupo, engajar todo mundo nesse processo de inovação, competitividade e desenvolvimento de pessoas. Tudo isso, somado ao nosso compromisso financeiro de restaurar os dividendos, ajudou a desalavancar a companhia e nos deixou prontos para crescer no meio da turbulência.

DINHEIRO – Ser uma empresa centenária mais ajuda ou atrapalha?

MIRANDA – A Votorantim começou com uma noção de que para conseguir fazer negócios é necessário estar em equilíbrio com os funcionários, com a sociedade e com todo o ambiente. Outro fator que sempre foi muito importante é a consciência de que a vida muda e que precisamos estar permanentemente em transformação. Aprendi muito com os nossos acionistas e conselheiros a estar conectado com o presente, mas sem perder de vista tudo que o futuro pode trazer. O terceiro pilar que eu destaco como fundamental é a questão da ética, que nunca foi colocada em xeque ou negociada aqui dentro. Isso faz com que a gente não atravesse momentos de descontinuidade nos negócios.

DINHEIRO – Qual é o papel da holding Votorantim nos negócios do grupo?

MIRANDA – Em 2014, percebemos a necessidade de descentralizar decisões de alto nível, como investimentos, desenvolvimento de lideranças e governanças. Decidimos instalar conselhos dentro das empresas para tratar da estratégia e do desempenho da companhia. Ou seja, o nosso papel como holding é ser um instrumento influenciador para que as lideranças das companhias, e seus conselhos, possam fazer as transformações necessárias. É importante destacar que não tratamos as empresas como unidades de negócio, elas são companhias.

“O Congresso quer debater mais sobre temas muito relevantes, como o novo regime da Previdência” (Crédito:Edilson Rodrigues)

DINHEIRO – Qual sua avaliação dos primeiros meses do novo governo?

MIRANDA – Ainda é cedo para fazer uma avaliação. Passamos por uma eleição bastante polarizada e de incertezas no mundo inteiro. Havia muito tempo que não víamos algo assim. A gente precisa olhar para tudo isso que está acontecendo no mundo, como o Brexit e uma liderança liberal nos Estados Unidos colocando em pauta uma série de polêmicas, para debater as consequências para as nossas operações e decisões de investimento. O Brasil passa por um momento rico de discussão com a sociedade sobre o que é melhor para o país. Há um novo governo, com novas visões e parece haver um posicionamento do Congresso de querer debater temas muito relevantes, como o novo regime da Previdência Social, que serão alinhados pouco a pouco entre a sociedade, o Congresso e o Executivo. Acredito que vai acontecer uma convergência, mas precisamos nos comover menos com ruídos e olhar mais para o mérito.

DINHEIRO – Como a aprovação da reforma da Previdência vai impactar na operação da Votorantim?

MIRANDA – A Votorantim é muito otimista em relação ao futuro do Brasil, mas, obviamente, precisamos tomar decisões e avaliar sempre com muito conservadorismo todos os cenários. Dada a complexidade que essa aprovação requer, já imaginávamos que não seria um processo rápido. A nossa perspectiva é de que ela seja aprovada neste ano. Ainda assim, podemos supor que ela não vai se traduzir em reflexos positivos ainda em 2019. Os benefícios da reforma começarão a ser vistos a partir do próximo ano.

DINHEIRO – De que forma o contingenciamento de recursos em educação pode afetar o desenvolvimento de novos talentos?

MIRANDA – Há um esforço do Ministério da Educação de conter custos. Por consequência, isso elevou o debate. A reação da sociedade foi imediata porque há uma percepção da importância que a educação tem para o País. Acredito que ela seja a maior promotora do desenvolvimento e do progresso humano e, portanto, da diminuição da desigualdade. Quero crer que a reação da sociedade foi correta, no sentido de questionar o que está acontecendo. Por outro lado, não sou pessimista a ponto de acreditar que os cortes irão exportar cérebros para outros países. Quando a poeira baixar, todos concordarão que a educação é o mais importante e que precisa de mais investimento.

DINHEIRO – Quais os segmentos com as melhores perspectivas dentro da companhia?

MIRANDA – Estamos em negócios muito diversificados e hoje mais da metade do nosso Ebitda é gerado fora do Brasil. Esse processo de diversificação das nossas frentes começou há mais de 20 anos, mas eu diria que um impulso imediato na economia brasileira deve elevar os nossos negócios de cimento. Houve uma queda substancial de demanda desde 2014, mas temos a expectativa de que o ritmo de crescimento do Brasil vai alterar significantemente o consumo de materiais de construção.

DINHEIRO – O futuro da empresa estará mais centrado em quais áreas?

MIRANDA – Estamos bem equilibrados com os nossos negócios. A Votorantim está em um momento de alavancagem e com recursos disponíveis não só para apoiar as empresas em seus investimentos, mas também de fazer investimentos diretos em novas áreas. Tenho a visão de que algumas áreas de infraestrutura no Brasil podem ser interessantes, mas também temos olhados para outros segmentos no exterior. Não temos nada saindo do forno, por enquanto.

DINHEIRO – Há intenção de abertura de IPO de alguma das empresas?

MIRANDA – Existem várias boas candidatas para isso, mas no futuro e tudo ao seu tempo. Gosto da ideia do IPO porque dá flexibilidade de capital para as companhias, aumenta a supervisão e eleva o nível de governança. Tudo isso é muito bacana, mas tem o seu momento certo para acontecer.

DINHEIRO – O Brasil já tem um crônico problema de falta de competitividade na indústria. Como o senhor enxerga isso?

MIRANDA – A Votorantim está na indústria de cimentos no Brasil e em outros 12 países, competindo de igual para igual em qualquer lugar do mundo. Em cimento, somos extremamente competitivos, sob qualquer parâmetro. No agro, acontece o mesmo. Somos líderes mundiais do segmento com a Citrosuco. Não é só porque o cinturão paulista tem um clima excepcional, há muita tecnologia de processo empregada nos produtos. Se tem indústria brasileira pouco competitiva ou incompetente para brigar de igual para igual com o resto do mundo, eu não conheço.

“Um impulso imediato na economia brasileira deve elevar os nossos negócios de cimento” (Crédito:Roberto Ribeiro)

DINHEIRO – Então o Brasil está pronto para a indústria 4.0 ou corre o risco de ficar para trás em relação aos países desenvolvidos?

MIRANDA – A digitalização e a indústria 4.0 é uma realidade que felizmente está disponível. Portanto, entrar agora não significa entrar atrasado, isso significa entrar com segurança e com rapidez. Quem não fizer isso agora é que vai ficar para trás e vai morrer.

DINHEIRO – E o que acontece com as pequenas e médias empresas?

MIRANDA – O problema é que existem as indústrias de grande porte, com capacidade de adoção muito rápida, e indústrias médias, com capacidade menor e que sentem um pouco mais os impactos da atual situação econômica do Brasil. Para isso, existe um papel de fomento de centros de tecnologia e de financiamento aplicado especificamente para setores que não têm condições de bancarem sozinhos esses desenvolvimentos tecnológicos. Temos consciência de que a riqueza de um país é determinada em grande parte por pequenos e médios negócios, que precisam ser estimulados. É por esse motivo que incentivamos muito as nossas cadeias produtivas e de fornecimento para que também impulsione demandas. Esse é um papel política pública. As pequenas e médias empresas são grandes criadoras de empregos e é importante que tenham um tratamento justo para seguirem competitivas.

DINHEIRO – Como vocês estão se preparando para as próximas sucessões dos Moraes?

MIRANDA – Estamos indo da quarta para a quinta geração. É um plano de sucessão com muita solidez, muita calma, e que está em um horizonte para os próximos dez anos. Hoje julgamos relevante preparar a família como acionista. Não importa se estão mais ou menos envolvidos com o negócio. Aqueles que entrarem deverão participar da governança. Não existe uma intenção de preparar a nova geração dos Ermírio de Moraes para funções executivas.

DINHEIRO – Quais são os planos e também as prioridades para 2019?

MIRANDA – Esse é um ano para agir com cautela porque vamos conviver com muita volatilidade, o que também é natural para o atual momento do Brasil. Além disso, precisamos considerar que há uma situação de incerteza e expectativas desancoradas, mas dentro de um contexto global que também nos afeta. É um ano de preparação para novos investimentos e de colher frutos da estratégia que preparamos nos anos anteriores. Com ou sem crise, vamos investir R$ 3 bilhões por ano.

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