Finanças

Com os bolsos cheios

Após disputa de oito anos na Justiça, grandes empresas do País tiveram de divulgar a remuneração detalhada dos seus executivos. Para especialistas, mudança deve melhorar a governança das companhias.

Com os bolsos cheios

O dia 23 de fevereiro de 2017 ficou marcado na história pessoal e profissional de Murilo Ferreira. Após o jantar, ele sentou-se sozinho e decidiu deixar a presidência da Vale, que ocupava desde 2011. A decisão foi motivada por pressões políticas que ganharam força com a permanência de Michel Temer na presidência após o afastamento de Dilma Rousseff. A sua saída custou à Vale R$ 58,5 milhões. Outros executivos da mineradora também receberam remunerações polpudas. O pagamento médio anual dos diretores foi de R$ 12,4 milhões, avanço de 125% em relação a 2016. A Vale, hoje presidida por Fabio Schvartsman, foi quem melhor remunerou seus executivos no ano passado (observe o quadro ao lado). O Itaú Unibanco, que ocupa a quinta colocação no ranking, pagou R$ 40,1 milhões a um único diretor. No Pão de Açúcar, a remuneração média do alto escalão foi de R$13 milhões. Os valores são superiores ao salário médio de R$ 2,2 milhões pagos aos principais executivos das empresas com maior liquidez listadas na B3 em 2017.

Por norma da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), as empresas abertas têm de divulgar aos acionistas quanto pagam aos executivos. Mas um grupo de 40 companhias, entre elas Vale, Itaú Unibanco e Pão de Açúcar, não publicava essa informação com base em uma liminar de 2010, solicitada pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (Ibef), do Rio de Janeiro. “Uma das justificativas era a segurança dos executivos. Mas isso não tem lógica, o Brasil estava atrasado nesse aspecto da governança”, diz Heloisa Bedicks, superintendente do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC). A Justiça derrubou a liminar em maio e a CVM estabeleceu que as informações teriam de ser reveladas até a segunda-feira 25.

A divulgação dos valores foi considerada uma vitória para os investidores em relação à governança. “É importante saber como os administradores estão sendo incentivados e quanto isso reflete no desempenho dos negócios”, diz Alexandre Di Miceli, professor da Fecap e fundador da consultoria Direzione. “Publicar o valor dos salários é uma forma de evitar anomalias na remuneração.” Di Micelli cita a Oi como um exemplo de distorção. Em recuperação judicial desde junho de 2016, a empresa pagou a um único executivo R$ 15,5 milhões no ano passado, valor 47,6% superior em comparação com o ano anterior. Para especialistas, remunerações compatíveis com o média do mercado incentivam os diretores a ter uma visão de longo prazo. “Eles tendem a focar menos em decisões pontuais, visando ao bônus, e aumentam o empenho em promover a estratégia traçada para a companhia”, diz Di Miceli.