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Com menos UTIs que a Grande SP, interior já teme sobrecarga hospitalar


Com mais de 12 internações e 4 mortes por hora no Estado, a interiorização acelerada de casos da covid-19 em São Paulo colocou em alerta autoridades e profissionais de saúde, que não descartam colapso geral da rede de atendimento hospitalar, com a possibilidade de um pico da doença e a aproximação do inverno. Das 645 cidades paulistas, 412 já têm pelo menos um caso confirmado, e há um ou mais óbitos em 177 municípios.

Entre os dias 3 de abril e 1.º de maio, o Estado registrou crescimento de 2.532% nos contaminados no interior, enquanto na região metropolitana o avanço foi de 625%. Ao menos 90 cidades paulistas com até 10 mil habitantes tinham casos positivos de coronavírus até sábado. Dessas, 26 têm menos do que 5 mil habitantes. Em 11 pequenas cidades já houve ao menos uma morte pela covid-19. Nenhuma dispõe de leitos de UTI. De acordo com o pesquisador Raul Borges Guimarães, especialista em geografia da saúde da Universidade Estadual Paulista (Unesp), a covid-19 pode intensificar o fluxo das pequenas cidades para os centros maiores, causando excesso de demanda.

O Estado é o epicentro de casos de contaminação pelo coronavírus no Brasil, com 3.709 mortes (101 relatadas no último balanço diário) e 45.444 infectados. Levantamento que integra o Plano de Contingenciamento do Estado de São Paulo, feito há duas semanas, sobre hospitais e quantidade de leitos (clínicos e de UTI), existentes e previstos para ampliação para receber os pacientes com covid-19, mostra que havia 5.676 vagas de UTI (adulto e pediatria) para as 645 cidades paulistas. Desse total, 3.144 eram na capital e nas cidades da Grande São Paulo e 2.532 leitos nas cidades do interior e do litoral.

Hoje, são mais de 9,8 mil pacientes internados em SP, sendo 3.909 em UTI e 5.938 em enfermaria. A taxa de ocupação dos leitos de UTI reservados para atendimento da covid-19 é de 67,9% no Estado de São Paulo e 83,3% na Grande São Paulo.

Com 52% da população do Estado, o interior e o litoral paulista tiveram até aqui um cenário distinto do vivido na região metropolitana, onde estavam concentrados até a semana passada 85% dos casos de covid-19. Possível reflexo das medidas de isolamento social iniciadas em março. Mas esse cenário, de aparente tranquilidade, tem mudado e rápido. A taxa de concentração de novos casos da covid-19 no Estado em cidades fora da Grande São Paulo subiu de 15% para 32% na semana passada.

No dia 17 de março – fim da primeira semana da pandemia -, São Paulo tinha 164 casos no Estado e 1 morte, com casos concentrados na Grande São Paulo. Dia 30 de abril, esse número já era de 28.698 casos e 2.735 mortes, com registros espalhados para todas as regiões. Se antes os relatos eram de 7 cidades com registro do primeiro caso a cada três dias, agora são 38 municípios registrando a chegada da doença a cada três dias.

O Secretário de Desenvolvimento Regional do Estado, Marco Vinholi, alertou sobre os riscos dessa interiorização da doença. Se a curva de crescimento for mantida, até o fim de maio todas as 645 cidades paulistas terão registros. “Não existe nenhuma região protegida. Nesse momento, a onda epidêmica está se distribuindo”, afirmou Dimas Covas, diretor do Instituto Butantã.

Sobrecarga

A taxa de ocupação de leitos de UTI para a covid-19 no interior e no litoral também tem crescido mais rápido. Na sexta-feira, havia 3.474 internados com coronavírus nas unidades de terapia intensiva do Estado, taxa de ocupação de 70,5%. Um dia antes, a taxa estadual de ocupação desses leitos era de 66,9%. Já a taxa de ocupação dos leitos UTI na capital e cidades do entorno manteve-se em 89,6% nos dois dias.

Segundo o presidente do Conselho dos Secretários Municipais da Saúde de São Paulo, Geraldo Reple, que integra o Centro de Contingência do Coronavírus do Estado, na semana passada foi atingida outra marca negativa no Estado: em um único dia foram internadas 1 mil pessoas com a covid-19, enquanto 600 tiveram alta. “Se essa proporção continuar ou até crescer, que é o que parece que vai acontecer, nós estaremos em uma fase extremamente complicada”, afirmou. “Todas as cidades têm plano de contingenciamento, mas muitas não estão preparadas. Muitos municípios não têm leito de UTI. Provavelmente, muitos não têm nem leito de estabilização.”

Frio

O inverno e a chegada do frio, como ocorreu semana passada, é outro agravante que preocupa profissionais de saúde no Estado. Nesse período, historicamente a quantidade de doentes com problemas respiratórios aumenta na rede hospitalar e a capacidade de atendimento nos hospitais beira o limite, como destaca o médico pneumologista e intensivista Luiz Cláudio Martins, que é professor da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp.

“Esse aumento é certo, vai ocorrer. E com a covid-19 é óbvio que vai sobrecarregar ainda mais a rede.” Martins conta que no HC da Unicamp os registros de crianças com a covid-19 internadas ainda são baixos, mas nas enfermarias de pediatria há lotação de casos de doenças respiratórias, em decorrência do frio. “É muito preocupante.”

Isolamento

O crescimento de novos casos da covid-19 tem sido mais acelerado nos últimos dias no interior e no litoral do que na Grande São Paulo. A taxa de isolamento social no Estado foi de 47% nos últimos dias, bem abaixo do esperado 70%. Isso levou o governador João Dória (PSDB) a prorrogar a quarentena até o fim do mês, apesar da pressão de diversas cidades por flexibilização.

Para o especialista em geografia da saúde e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Raul Guimarães, o avanço acelerado da doença no interior e no litoral está diretamente relacionado ao relaxamento da quarentena. “O risco de faltar capacidade de atendimento hospitalar para os casos mais graves é grande.” O médico pneumologista e professor da Unicamp, Luiz Cláudio Martins, concorda e afirma que a flexibilização da quarentena neste momento seria “algo temerário, que precisa ser tratado com muito cuidado”. “Não podemos menosprezar uma doença que, em um dia, matou mais de 700 pessoas. O distanciamento é vital neste momento.”

Hospital da Unicamp

Em Campinas, maior cidade do interior paulista, a cerca de 100 km da capital, a sobrecarga na rede hospitalar é um risco. Opção para envio de pacientes da Grande São Paulo, o município tem estrutura de referência para atendimento de casos da covid-19, abriga unidades para casos de alta complexidade, como o Hospital das Clínicas da Unicamp, e grandes centros de atendimento, como o Hospital Municipal Mário Gatti e o Celso Pierro, da PUC-Campinas.

No HC da Unicamp, por exemplo, havia 19 leitos de UTI para infectados com o novo coronavírus semana passada, com taxa de ocupação na faixa dos 50%. Mas esse é um cenário mutante, alerta o médico Manoel Bértolo, diretor executivo da área de Saúde do complexo. Serão abertos 18 novos leitos de UTI, com recursos liberados pela União, em parceria com o Estado. “A gente tem um risco, com o frio, porque não sabemos o que vai acontecer.”

Campinas recebeu quatro dos 15 primeiros pacientes encaminhados ao interior por falta de leitos na Grande São Paulo. Internados no Ambulatório Médico de Especialidades (AME), inaugurado antes do prazo em abril para ser exclusivo para covid-19, a unidade estava na sexta com 80% de ocupação dos leitos. Ao todo, são 659 vagas para UTI preparadas para casos de covid-19 (leitos ativos ou a serem implementados) em toda a região. Quantidade considerada subdimensionada para atendimento das 41 cidades e quase 6 milhões de habitantes, englobados na divisão administrativa regionalizada de saúde.

O risco de sobrecarga na rede local fez o prefeito de Campinas, Jonas Donizette, resistir ao encaminhamento de pacientes de São Paulo, para não prejudicar os atendimentos regionais.

Ainda na sexta, ele prorrogou medidas de restrição na cidade até o dia 31 de maio e determinou bloqueio de vias para reduzir a circulação de pessoas.

Um dos pontos que mais preocupam em relação aos leitos é o tempo de uso – uma pessoa com coronavírus ocupa vaga por três semanas ou mais. Uma técnica de enfermagem que ficou 29 dias internada em uma UTI da cidade, com covid-19, recebeu alta semana passada. Ao deixar o Hospital Ouro Verde, em Campinas, onde também trabalha, Nicole Iara Santos Mota, de 24 anos, foi homenageada por colegas e parentes. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.