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NBB começa sua 11ª temporada com transmissões multiplataformas

Nascida do descontentamento entre clubes e confederação, a NBB completa 11 anos com gestão empresarial e uma enorme fidelização com as marcas, além de novo modelo de distribuição dos jogos

NBB começa sua 11ª temporada com transmissões multiplataformas

Paulistano, campeão do NBB10

“Todos os envolvidos na liga são empresários de sucesso, eles trouxeram essa mentalidade empresarial para a liga, com questões de governança, transparência, credibilidade e planejamento, aspecto que não existe no esporte brasileiro. Quando você leva isso para o ambiente esportivo, que é atrasado, isso chama atenção.”

A frase é Fábio Balassiano, um dos principais especialistas em basquete do Brasil que, desde a fundação do NBB acompanha a liga brasileira de perto. É um pequeno resumo do case de sucesso que é o Novo Basquete Brasil, principal campeonato de clubes da modalidade no País, que chega a sua 11ª temporada tomando 100% das rédeas de seu projeto. Após parceria de uma década, a Rede Globo sai de cena junto com sua exclusividade de transmissão. Entra no lugar a Band na TV aberta, Band Sports, ESPN e Fox Sports na TV fechada, além de Facebook e Twitter. Mais do que isso. Agora, é de responsabilidade do NBB a produção e transmissão de todas as partidas da temporada, padronizando grafismos e garantindo mesmo padrão de produção para todas as partidas da temporada. O passo é gigantesco para a liga, que conseguiu colocar em prática o plano de multiplataformas e canais que existia desde a fundação do campeonato.

O NBB nasceu de um enorme descontentamento do times com a Confederação Brasileira de Basquete, que tinha dificuldades de organizar o campeonato nacional, fazendo com que os times se sentissem prejudicados. “Quando O NBB começou, o basquete era o nono do ranking dos esporte mais praticados do Brasil”, declara João Fernando Rossi, atual presidente da liga. A bem da verdade que o ranking leva em conta modalidades como corrida e natação, praticados por muito para se condicionar fisicamente para outros esportes, mas o número ainda é baixo para um esporte no qual o Brasil é bicampeão mundial, com nomes no hall da fama da modalidade. Era preciso resgatar a honra da bola ao cesto tupiniquim.

João Fernando Rossi, atual presidente do NBB

Para iniciar o resgate, os clubes se uniram e criaram a Liga Nacional de Basquete. “Os clubes são a liga e a liga são os clubes” é o mantra da organização, que tem em seus cargos administrativos e de gestão ex-membros da diretoria das equipes. A liga hoje é o maior ativo dos clubes para captação de dinheiro e patrocinadores. Se atualmente a receita da liga não é grande o bastante para realizar repasses aos clubes, é o trabalho sério e bem feito com as marcas que fortalece o NBB.

“Hoje as liga está encorpada não de receita, mas de grandes parceiros, que são nossas chancelas. A liga não tem fins lucrativos, todo o dinheiro vai para a operação do NBB. Nosso trabalho de marketing não é vender uma placa ou nome, mas sim um conceito”, explica Rossi. Segundo ele, a placa na beira da quadra, a exposição, o jogos das estrelas, o streaming, branded content incluem um trabalho completo em cima da exposição do patrocinador. “Ninguém faz um trabalho pós venda como nós. Entregamos para as marcas um material muito precioso”, afirma. A transparência dos resultados da liga pôde ser vista durante a apuração da reportagem, que recebeu da liga o balanço de 2017, que entre outros números, mostrou a arrecadação de R$ 9.499.329 em patrocínios no último ano.

Quem endossa o coro é Balassiano. “Todas as marcas elogiam muito o trabalho feito pela liga. Em um momento de crise, eles têm muita insegurança de investir em um produto que eles não conhecem e não sabem o quanto vai dar de retorno. A grande vantagem do NBB é que eles conseguem devolver as marcas tudo aquilo que eles estão querendo entregar”, diz. Esta qualidade da liga se vê na retenção de patrocinadores como Caixa, Avianca, Infraero e Nike, que estão há anos como uma das principais parceiras do NBB.

Já o trabalho de alcance da liga pôde ser visto em um lance específico da última temporada, quando o armador do Basquete Cearense, Paulinho Boracini, acertou um lance livre no aro para recuperar o rebote e acertar uma bola de três no último segundo da partida para virar o jogo. O lance viralizou como um vídeos de gatinhos, e até no exigente mercado americano o time de Fortaleza estava lá, além do enorme logo da caixa impresso na quadra, impressionando o mundo. Para efeito de comparação, o NBB é hoje a quarta maior página de basquete do mundo, perdendo apenas para a NBA, a FIBA (Federação Internacional de Basquete), e a liga europeia de basquete, a Euroleague.

Apesar do grande trabalhos com patrocinadores e de exposição de seus jogos, a liga tem em seu calcanhar de Aquiles a gestão das equipes. Se o NBB é exemplo de transparência e gestão profissional, eles ainda não podem exigir o mesmo dos clubes. “Os clubes brasileiros hoje ainda carecem de um pouco mais de profissionalismo do ponto de vista de gestão. A estrutura da liga é muito mais forte que a dos clubes neste sentido, o que às vezes provoca um desbalanceamento entre o que se vê na Liga Nacional e nos times que jogam o NBB”, explica Balassiano.

O caso clássico é o do Brasília, clube três vezes campeão do campeonato que fechou as portas após perder seus patrocinadores. Mas, o caso é uma exceção dentro de um campeonato que tem uma grande “fidelização” de equipes, com times como Flamengo, Paulistano, Pinheiros, Bauru e outros presentes desde o NBB1. Além disso, há casos de modernização como Franca, clube tradicional no cenário do basquete brasileiro que fechou uma parceria com o Sesi com uma condição: seria preciso profissionalizar a equipe fora de quadra. O resultado pode ser visto no centro de treinamento da equipe, considerado por especialistas nível NBA. E falando em NBA….

… o caso NBA

A National Basketball League é o ápice do basquete mundial, e há alguns anos é sócia do NBB, uma relação única no mundo. A parceria trouxe a liga brasileira todo um know-how de produção que levaria anos para que o NBB adquirisse. “A NBA é uma parceira fantástica. Todas as dúvidas que você tiver, eles conseguem te responder. Desde operação de vídeo, passando por entretenimento em quadra até o checklist de todas as entradas do dia do jogo, eles nos passam esse material muito rapidamente”, explica Rossi, que faz um alerta. “Para além disso, precisamos ‘tropicalizar’ nosso produto.” Ou seja, é importante ter o algo a mais, buscar veículos e exposição, algo que a NBA não precisa.

Ginásio do Ibirapuera para o Jogo das Estrelas 2018

Mas para além da grande ajuda na produção dos jogos, a NBA foi um dos motivos do desgaste entre Globo e NBB. Com a compra dos direitos de transmissão da liga americana pela empresa brasileira, o NBB ficou escanteada no processo. “No NBB, eles precisavam produzir a partida, na NBA eles só recebem o sinal e redistribuem. Como a audiência da liga americana era maior e tinha custo menor, em termos empresariais era mais vantajoso. Optaram pelo óbvio e ficaram com a NBA”, explica Balassiano. Com o fim do contrato com a emissora e 10 anos de experiência, o NBB chegou para renovar em seus próprios termos, e foi então que o casamento entre liga e Rede Globo terminou.

O caso da transmissão

“A Globo foi importantíssima e muito ativa no movimento de reconstrução do basquete brasileiro. É natural que nós tivéssemos discordâncias em relação ao contrato. Queríamos uma plataforma de não exclusividade, de maior exposição e não chegamos a um acordo comercialmente. Até esperamos voltar com eles em breve”, explica Rossi, deixando claro que a separação se deu por diferentes visões do produto. Fato é que agora o NBB terá a capacidade de realizar o plano inicial da liga, que é a transmissão multiplataforma, incentivando a “concorrência” entre canais. “O bom disso é que se um fizer melhor ele vai ter mais audiência que o outro. Eles acabam tendo que fazer o melhor para atrair público”, explica o mandatário da liga.

Rossi também explica que todos os contratos com as emissoras são iguais, variando apenas sua duração. Nele está definido quantas partidas serão transmitidas por cada canal assim como o tempo dedicado a liga fora da quadra, ou seja, inserções nos programas jornalísticos da emissora.

O próximo passo do NBB é criar seu próprio OTT, plataforma de distribuição digital de seus jogos e materiais jornalísticos. Segundo a liga, o projeto está na fase final da criação de seu conceito. Após esta fase, será iniciada a parte operacional. Para tal, a liga irá buscar “um grande player global para desenvolver isto rapidamente.”

Dentro do cenário esportivo brasileiro, onde o esporte ainda é pesadamente dependente de recursos estatais e de renúncias financeiras, o NBB mostra que o caminho da gestão profissional e de trabalho transparente é possível para a criação de uma liga forte, competitiva e que pode ser consumida globalmente. Mesmo diante de todas as conquistas da liga, quando questionado sobre em que ponto imaginava que estaria o NBB em 11 anos na época de sua fundação, João Fernando Rossi respondeu: “achava que o crescimento seria mais rápido”, deixando clara a mentalidade empresarial da iniciativa que resgatou a honra de um esporte com tanta tradição no Brasil.

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