Política

Com bênção de Ciro, PDT usou legenda para 2020 para enquadrar Tabata Amaral

Com a bênção do ex-ministro Ciro Gomes, a cúpula do PDT criou restrições à concessão de legenda para as próximas eleições como forma de enquadrar a deputada Tabata Amaral (PDT-SP). Reunida nesta quarta-feira, 17, em Brasília, a Executiva Nacional, a Comissão de Ética e presidentes de movimentos sociais do partido determinaram a suspensão de Tabata e de outros sete deputados por 60 dias, período no qual transcorrerá o processo disciplinar por terem contrariado a orientação de bancada e votado a favor da reforma da Previdência.

A punição só será definida ao fim desse prazo e, provavelmente, terá caráter mais brando que a expulsão, pelas expectativas de dirigentes ouvidos pelo Broadcast Político, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado. Na prática, entretanto, a decisão mais importante foi a de impedir filiados que integram “grupos de financiamento externo” de disputarem eleições pelo PDT. A determinação vale para aqueles que participam de movimentos de renovação política como RenovaBR e Acredito, aos quais Tabata está diretamente ligada.

Dos oito dissidentes, Tabata era a única tratada internamente como potencial candidata na eleição municipal do ano que vem, segundo dirigentes. Uma candidatura dela à Prefeitura de São Paulo tinha como principal entusiasta o presidente nacional do partido, Carlos Lupi. Ciro defendia internamente que o partido aguardasse e consolidasse a imagem da novata no Legislativo.

Com a decisão, o PDT fez valer a posição defendida pelo próprio Ciro, que em entrevista exclusiva ao Broadcast Político, na última segunda-feira, 16, criticou duramente o que descreveu como “dupla militância” de Tabata e dos demais dissidentes.

Segundo ele, os tais grupos financiados por recursos privados “fraudam” o sistema eleitoral brasileiro, ao atuarem como partidos políticos sem deixarem de receber dinheiro de empresas. “Tem aí o MBL. Por que ela não vai para o MBL?”, ironizou Ciro.

Embora integre a Executiva Nacional do PDT na condição de vice-presidente, o ex-ministro não participou da reunião desta quarta. Ciro viajou para a Bahia e conversou remotamente com outros dirigentes. Procurado pela reportagem, ele apenas manifestou em mensagem o apoio à determinação da cúpula partidária. “Apoio integralmente a decisão tomada hoje pela executiva nacional, conselho de ética e presidentes dos movimentos sociais do PDT”, escreveu.

Tabata vem se mantendo reclusa desde que eclodiu a polêmica sobre seu voto a favor da Previdência. A deputada trocou de telefone e deixou de atender a colegas de partido. Alguns se queixaram de terem sido excluídos de grupos de Whatsapp criados pela deputada. Procurada pela reportagem, ela informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que não iria se pronunciar.

Divisor de águas

De acordo com o presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, a decisão de restringir a legenda a quem integrar os tais “grupos de financiamento externo” vale não só para os parlamentares que votaram a favor da Previdência, como para todos os filiados.

Ao Broadcast Político, Lupi disse que o partido não pode se omitir e “fingir que não vê o que está acontecendo”. “Estamos dizendo, sim, que aqueles que continuarem nesses grupos não poderão disputar eleições pelo PDT. Se ela ficar, não será candidata”, afirmou Lupi. “A votação da reforma da Previdência foi, para nós, um divisor de águas.”

Assim como Ciro, Lupi afirmou que Tabata e os demais deputados participaram de todo o processo de discussão interna sobre a reforma da Previdência e que ela somente se manifestou contrariamente à orientação do partido às vésperas da votação. “Esses grupos passaram até mesmo a direcionar o voto de deputados. Não tem como aceitar isso”, acrescentou.

Apesar de ter obtido voto da maioria da cúpula pedetista, a decisão de restringir a concessão de legenda a Tabata teve oposição de alguns. Um integrante do encontro de quarta ouvido pelo Broadcast Político disse considerar exagerada a restrição de legenda e defendeu que a punição aos que votaram a favor da Previdência seja mais branda que a expulsão. “Não podemos agir como se fôssemos um tribunal de inquisição”, disse a fonte.