Economia

Colheita ameaçada

Coronavírus, acordo comercial entre China e Estados Unidos e desaceleração da economia global impõem desafios para o agronegócio brasileiro. Mesmo com o real depreciado, as exportações poderão registrar o pior resultado dos últimos quatro anos.

Crédito: Istock

O agronegócio, que nos últimos cinco anos amorteceu parte da desaceleração da economia brasileira, não deverá será a tábua de salvação do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano. A estimativa do mercado é que questões como o acordo comercial entre China e Estados Unidos, o coronavírus, o avanço de políticas protecionistas e a tendência da desaceleração da economia global coloquem em risco o fértil campo brasieiro, exigindo dos produtores cada vez mais atenção — e o apoio do governo federal para captar novos mercados.

Segundo a consultoria MacroSector, as exportações do agronegócio neste ano deverão somar US$ 76 bilhões, a menor cifra em quatro anos. “Depois de um forte movimento global nacionalista, em que muitos países demonstraram menos apetite de compras externas, o comércio exterior exige novas alianças comerciais para crescer”, afirma o economista e professor de relações internacionais da Universidade de São Paulo, Maycon Ribeiro. Vale lembrar que ano passado o agronegócio brasileiro lidou com a quebra da safra da soja e, ainda que a exportação de carnes bovina e suína tenha crescido, houve redução de US$ 4,2 bilhões na comparação ante a 2018. “O desconforto não é a receita que pode ser perdida, mas o fato de haver reduções seguidas”, afirma o economista Fabio Silveira, sócio da consultoria MacroSector e responsável pela projeção. Se ele estiver correto, em dois anos (2019 e 2020) a venda externa do setor poderá fechar com recuo de US$ 9,3 bilhões. Neste ano, apenas o acordo entre China e Estados Unidos pode tirar US$ 5 bilhões dos produtores brasileiros.

O agronegócio responde por 40% das exportações brasileiras e a China, que enfrenta nesse momento um surto de coronavírus, é nosso principal parceiro comercial. Há ainda problemas com os Estados Unidos, que têm se mostrado cada vez menos aberto a compras externas, e a Argentina, nosso principal parceiro comercial na América Latina, que está em recessão há três anos. “O papel diplomático brasileiro será testado em 2020. Houve sinalização do Reino Unido de fazer parcerias comerciais quando finalizado o Brexit, a Índia também procurará parceiros para se blindar da diminuição da exportação com o acordo comercial China e Estados Unidos. Precisamos olhar para o mundo”, diz Frederico Bonjesus diplomata de carreira e que esteve à frente de cinco comitivas para a Índia entre 2010 e 2013.

DEPENDÊNCIA As vendas externas de soja em grão renderam ao Brasil US$ 26,338 bilhões em2019, à frente do petróleo (US$ 23,733 bi) e do minério de ferro (US$ 22,187 bi). A China absorveu quase 30% de todas as exportações brasileiras ano passado e cerca de 80% da soja nacional. “Não podemos nos apoiar na soja e na China”, afirma Ribeiro, da USP. “O mercado automotivo percebeu que a dependência da Argentina para exportações era um problema. Eles buscaram soluções no mercado interno e o resultado foi positivo”. Os Estados Unidos, que também produzem soja, deverão elevar consideravelmente as exportações para a China após o acordo, prejudicando o Brasil.

Porto na china: Produtores de soja temem ficar com o grão parado dentro dos terminais asiáticos. (Crédito:Nikada)

Também reside na China outro problema: o coronavírus. Ainda mapeando os efeitos na economia global, o Banco Central do Brasil apontou na ata do Copom, na última semana, que o surto da doença pode impactar o preço das commodities e diminuir os ganhos dos produtores brasileiros. De acordo com uma estimativa da Capital Economics, as incertezas sobre a doença custará à economia mundial mais de US$ 280 bilhões só no primeiro trimestre deste ano. O resultado, se confirmado, marca a primeira queda da economia global após 10 anos.

“Não diria que a economia mundial vai parar, porque as pessoas precisam comer, mas há uma sinalização clara de retração. Algo que não vimos desde 2009”, afirmou Simon Macadam, economista global da Capital Economics. Ainda é cedo para dimensionar até onde irão os impactos do coronavírus sobre o agro brasileiro, mas os produtores de soja em São Paulo têm números de outra ocorrência. José Feitão, que integra uma coorperativa em Itapeva (SP) diz que desde a peste suína em 2019 as exportações para China caíram. “Os chineses compravam a soja para fazer ração e alimentar os rebanhos. Com a morte de muitos animais, a demanda na cooperativa recuou mais de 35%”, diz. Neste ano, ainda não houve queda nos pedidos, mas que isso se dá porque a base de comparação com 2019 já vinha baixa.

A cooperativa, que atua em 450 hectares e reúne 39 produtores, só embarcou a soja que havia sido negociada antes do surto. “Estamos com medo de bloqueios ou do produto ficar parado no porto. Há produtores que mandaram a encomenda para a China e ficou parado no terminal”, afirma o produtor.

Enquanto os empresários estudam soluções, a Câmara dos Deputados tem uma agenda para o setor. Está na lista de votação do Plenária a Medida Provisória 897/2019, ou MP do Agro. Apoiado pela Frente Parlamentar Agropecuária, o texto trata de itens como o Fundo de Aval Fraterno e o patrimônio de afetação das propriedades rurais, que interfere no estabelecimento de garantias para a concessão de financiamentos aos produtores. O texto final é do deputado Pedro Lupion (DEM-PR), que aborda também de subvenção para construção de armazéns e regras de títulos rurais. A versão aprovada em dezembro trouxe algumas alterações à MP original. Uma delas diz respeito a substituição do Fundo de Aval Fraterno pelo Fundo Garantidor Solidário.

O texto novo mantém o número mínimo de dois ou mais produtores para acesso ao crédito com a garantia coletiva, sem limite de participações (antes eram no máximo oito pessoas). A aprovação da MP do Agro pode trazer alento em um ano de colheita ameaçada.